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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Uma comenda para a Lucinda e para o Paulo!

(à Atenção do Sr. Presidente da República)

Os incêndios dos passados dias têm atingido dimensões dantescas. Vastas áreas de floresta ardida, perdas materiais e localidades ameaçadas um pouco por todo o país. Pessoas sem saberem se, depois de tudo passar, têm um lar para onde voltar... As chamas e o fumo persistem, quando ainda há duas semanas estava a ser uma época mais calma que o habitual em termos de incêndios. E o país estava frondoso.

 

No domingo, dia 8 de Agosto de 2016, o distrito de Aveiro estava a ser particularmente fustigado pelos incêndios. Tal determinou os inevitáveis, cortes, desvios e condicionamentos de estradas. Foi o que aconteceu na auto-estrada A1, que viu o seu tráfego interrompido durante várias horas à passagem pelo concelho de Estarreja. Como resultado constituíram-se enormes filas de trânsito.

 

Lucinda Borges e Paulo Pereira moram perto desta estrada. Saem do conforto do seu sofá domingueiro. Enchem o carro de água engarrafada e vão distribuir a mesma junto à rede que delimita o traçado da auto-estrada, ali para os lados de Avanca, às pessoas que acabaram retidas. Relembro que este foi o domingo em que o mercúrio subiu até aos 40.ºC em muitos pontos do território nacional...

 

Não pretendo aqui entrar na polémica de quem deveria ter prestado este auxílio. Em alturas como esta quem deve ajudar primeiro são aqueles que estão mais próximos, têm maior discernimento e facilidade de acção. Até porque colocar o foco sobre a concessionária ou a Protecção Civil é desviar a atenção do acto meritório deste casal. O mesmo deve ser enaltecido e divulgado, para que possa funcionar de forma viral, caso seja possível.

 

Se há alguma coisa de positivo a retirar da catástrofe que o país enfrenta é este episódio. Assistimos sempre algo atónitos a momentos como o protagonizado pela Lucinda e pelo Paulo. Mas os mesmos têm o condão de nos restaurar a confiança na humanidade. Gestos altruístas como estes fazem-nos acreditar que vale a pena viver. E viver em sociedade, entre iguais. Naquele dia, toda a esperança e bondade humana coube numa garrafa plástica de litro e meio.

 

Não me vi envolvido neste incidente; nem conheço ninguém que lá estivesse. Mas sinto uma enorme afinidade e empatia por quem, sem esperar nada em troca, se prontifica a ajudar o seu semelhante. Não sei se as instâncias oficiais deste país pensam em agraciar o casal por este acto, mas estou certo que toda a sociedade já os condecorou. Pela parte que me toca, o meu muito obrigado por devolver um pouco de dignidade à pessoa humana.

 

Montijo, 9 de Agosto de 2016