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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O Regresso do Reino Unido

 

 

Portugal nasce em 1139 sendo reconhecido enquanto país independente pelos seus vizinhos em 1143. Foram precisos 40 anos até 23 de Maio 1179 para que o Vaticano reconheça formalmente a existência de Portugal através da bula Manifestis Probatum. O Papa Alexandre III sem o saber, lançou a primeira pedra da Era Global ao dizer aos portugueses que podiam conquistar todos os territórios que não fossem católicos.

 

Já nessa altura eramos bons alunos e fomos para sul até onde existia terra. Para leste já tínhamos “espanhóis” e para oeste só se conhecia mar até ao fim do mundo.

Em 1336 dá-se início à globalização. Portugal sem mais para onde ir faz-se ao mar numa expedição às canarias.

Os portugueses avançam pela costa africana, descobrem o caminho para a India, Cristóvão Colombo descobre as américas e nós descobrimos o Brasil.

 

Em 1509 estão montados os alicerces da globalização com a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.

Foram precisos 400 anos para alicerçar a globalização, foram precisos outros 500 para se chegar à Era Global.

Portugal e Espanha começaram por dividir o mundo mas não demorou muito até que outros reinos quisessem parte da fonte de riqueza. Nas vésperas da grande Guerra a Europa está lotada de imperadores que pretendem alargar os seus domínios. São celebrados tratados uns atrás dos outros para manter a paz. Sabemos hoje que não foram suficientes e a Europa tornou-se num amplo campo de batalha com milhões de mortos.

No fim da Grande Guerra os países beligerantes sabiam que eram precisos acordos para que uma guerra daquela dimensão não se voltasse a repetir. Para isso criou-se a Sociedade das Nações onde seria forjado o Tratado de Versalhes.

 

Sabemos hoje que este tratado resultou no fracasso das pretensões da Sociedade das Nações e tivemos uma II Guerra Mundial, pior que a primeira.

Hoje sabemos que a ideia da Sociedade das Nações era boa porque logo após a II Guerra Mundial fundou-se a Organização das Nações Unidas (ONU). Podemos concordar e/ou discordar com o seu trabalho mas continuamos a concordar que é uma instituição de grande utilidade mundial.

Já a NATO é um substituto dos tratados existentes antes da Grande Guerra e tem uma base meramente militar de resposta ao Bloco do Leste em que todos são co-responsáveis na defesa de qualquer membro desta instituição que seja atacado.

 

O império Egípcio durou 3000 anos, a Grécia Antiga durou 1000 anos, o Império Romano durou 500 anos tal como o português e espanhol, 600 anos de império Otomano.

Hoje em dia falamos deles quase em dois tempos, a expansão e o declínio. Dito assim parece que falamos de um gráfico com duas linhas rectas a formar um triângulo equilátero, ora agora sobe, ora agora desce. Sabemos que a verdade é outra e que se quisermos manter a imaginação no gráfico, ele fez-se de muitos altos e baixos, de vitórias no declínio e de derrotas na ascensão.

 

O Brexit não é mais do que um revés na recente história da União Europeia (EU).

A responsabilidade não está só no Reino Unido (RU) e nos seus cidadãos. A responsabilidade é sobretudo da UE que tem vindo a ignorar as pessoas em nome das instituições, sobretudo financeiras, que não dá resposta como é suposto às sucessivas crises e que insiste em escolher caminhos impossíveis de percorrer com os prazos dados porque ignora o tal de mundo global.

 

No entanto o RU, a partir do momento que concretizar o divórcio, irá verificar que fica sozinho, sem voz na UE e a ter que cumprir com grande parte do que a UE estipula para os seus membros.

Tanto assim é que horas depois de serem conhecidos os resultados já se começavam a escutar os primeiros pedidos de excepção e a ideia de acordos económicos favoráveis.

A ideia de nacionalismo confunde-se com o medo do que é estranho. O conceito de nacionalismo é hoje algo apenas verbalizado mas sem grande conteúdo concreto.

 

Os Estados Unidos da América são um bom exemplo desse nacionalismo mal-amanhado. Um país descoberto por espanhóis, onde já viviam povos nativos oriundos da ásia, colonizado por ingleses, franceses, holandeses, depois carregado de escravos de toda a África, que foi recebendo imigrantes de todas as partes do mundo, vive hoje um espirito exacerbado de nacionalismo. Um paradoxo.

 

Mas esse paradoxo, ainda que numa escala menos obvia, estende-se hoje a todo o mundo.

As pessoas deslocam-se hoje a velocidades e em quantidades estonteantes a caminho dos locais mais hospitaleiros ou a caminho dos locais mais inóspitos e por lá ficam e por lá constituem família. Alguns regressam e outros não.

Defender a história, a cultura, a qualidade de vida dos que nos são próximos não é um acto de nacionalismo mas de solidariedade para com o próximo e de salvaguarda para nós próprios.

 

O mundo globalizado não é um fim em si mesmo, é uma consequência da nossa natureza facilitada pelo nosso desejo de ir mais longe, ir mais rápido, de sermos tão omniscientes e omnipresentes quanto possível.  

Não hoje, não nos próximos anos mas com toda a certeza no futuro todo o mundo terá um modelo de governação comum. O primeiro passo está tomado com a União Europeia, União Africana, Mercosul…

Quando todas estas uniões continentais funcionarem, surgirá uma instituição superior. Isto demorará muito tempo e não será no nosso tempo útil de vida que a veremos nascer mas será o único caminho para um mundo justo, solidário e democrático.

 

A União Europeia irá desaparecer e dar lugar a outra organização semelhante? A União Europeia sobreviverá melhorando o que hoje funciona mal? Não sabemos ao certo. Sei que ou numa organização futura, ou espero eu numa União Europeia renovada, mais justa, mais solidária e mais democrática, o Reino Unido não tem outra hipótese senão regressar à instituição, não com um pé dentro e outro fora como até aqui mas de corpo inteiro.

Aos ingleses, quando mais depressa entenderem isto, menos serão penalizados.

 

Aos alemães, quando mais obrigarem a UE a funcionar como uma empresa multinacional neoliberal mais condenarão a existência da UE e quanto mais o fizeram mais fragilizam não só a União Europeia como arriscam a levar a crise para as suas fronteiras com uma dimensão sem precedentes.

 

Vivemos dias históricos em que o mundo tanto pode cair no abismo como pode dar um passo importante nas conquistas da humanidade.

 

Eu luto pela segunda opção.