Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Cobardia Política

52.-DAVID-CAMERON-facebook.jpgNo presente exercício ponhamos de lado o resultado do referendo no Reino Unido (RU) de 23 de Junho, acerca da permanência ou saída da União Europeia (UE). Como democrata nada mais me resta do que aceitar o desfecho dos sufrágios. Desde que os actos eleitorais decorram dentro das normais regras da urbanidade, nada mais há a acrescentar. E não pretendo escalpelizar se o voto se deveu à xenofobia, ao nacionalismo ou apenas à tendência natural para o protecionismo, sempre que a situação económica se deteriora. Não me parece sequer possível tirar esse tipo de conclusão de um processo de voto. A realidade passa sempre por um conjunto de variáveis tão díspares que não se consegue resumir numa simples equação.

 

Sensivelmente há um ano, as eleições parlamentares deram a vitória do partido conservador. David Cameron fez da promessa da realização de um referendo sobre a continuidade do RU na UE uma das suas bandeiras eleitorais. A maioria conquistada impulsionou-o para uma dura ronda negocial com a UE, conquistando importantes excepções para o RU tão-somente para se comprometer a fazer campanha no referendo a favor da permanência. Diria que é no mínimo estranho alguém que negoceia um tratamento diferenciado vir depois defender o projecto europeu comum, alicerçado na solidariedade, complementaridade e igualdade, afirmando que o RU tem todo o interesse em continuar na Europa e que tal torna o país mais forte. Mas honra lhe seja feita; cumpriu a promessa eleitoral e cumpriu o prometido à UE.

 

Claro que Cameron sempre pensou que o resultado do referendo lhe seria favorável. Mas o tiro saiu-lhe pela culatra… E a altíssima taxa de participação nem belisca a legitimidade deste resultado. Tirou as devidas ilações e demitiu-se. Até aqui tudo bem. É normal em países civilizados os agentes políticos retirarem consequências políticas perante situações que lhes são adversas (sejam elas eleitorais ou pessoais).

 

Mas o cerne da questão está na sua saída de cena com a afirmação que não será ele a iniciar o processo de “divórcio” da UE. Demissionário, Cameron afirmou que não irá notificar a UE da decisão do RU, passo essencial para iniciar o processo de abandono, conforme previsto no artigo 50.º do Tratado de Lisboa. Ora, David Cameron foi o responsável máximo neste processo e continua a ser (por enquanto) o primeiro-ministro do RU. Assim, seria elementar que fosse ele mesmo a despoletar este processo. Ao recusar-se pretende sacudir as responsabilidades de uma situação que ele próprio criou, evitando ficar para a história como aquele que afastou a Bretanha ainda mais da Europa. Mas é eticamente reprovável escapulir-se a esta incumbência. O dever das funções que ocupará ainda nos próximos meses e o papel central neste processo, a isso o obriga. Caso deixe mesmo para terceiros o que deveria tomar nas suas mãos, por mais pesado que seja o fardo, demonstrará uma cobardia política sem paralelo. Aceitar desempenhar cargos de elevada responsabilidade governativa e envolver-se em processos que podem determinar resultados diferentes do esperado, às vezes significa engolir alguns sapos. É fundamental que os agentes políticos sejam coerentes consigo mesmos e obedeçam às regras do jogo democrático no qual participam. O respeito devido à decisão dos eleitores limita sobremaneira o exercício político a David Cameron. A quem, neste momento, só resta uma saída – para além da resignação do cargo já efectuada, – dar início ao fim.

 

Montijo, 24 de Junho de 2016