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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Quantas desculpas para cobrar tão caro?

 

 

O Eurostat confirmou hoje que Portugal tem a energia mais cara da União Europeia e António Mexia diz que a culpa é dos impostos.

Nos outros anos as desculpas foram outras nomeadamente os custos dos combustíveis fósseis a repercutirem-se na factura ao consumidor.

Tenho que dizer que os impostos na energia eléctrica, como em quase tudo, são extremamente elevados. Numa altura em que tentamos modificar comportamentos abdicando de combustíveis fósseis trocando-os por um comportamento mais sustentável baseado em energias renováveis, não se entende que combustíveis fosseis e energia eléctrica partilhem uma gigante carga fiscal.

Mas esta não se modificou nos últimos tempos só que não iria cair muito bem dizer que a culpa é dos combustíveis fosseis dias depois de ter sido noticiado que Portugal sustentou-se durante 4 dias consecutivos apenas com energias renováveis.

Diz António Mexias que o preço está em linha com a Europa, que o problema reside nos impostos e no poder de compra.

Bom, mas a ser verdade, isto indicaria que os custos com o trabalho também seriam inferiores na EDP, logo o custo seria inferior. Ou quer ele dizer que a EDP paga vencimentos em linha com a Europa, o resto do país é que não?

Ou as desculpas vão variando ao longo do tempo conforme pareça melhor?

Diria que os custos seguem em linha, apesar da carga fiscal, sobretudo por dois factores:

1º O vencimento principesco de António Mexia que é hoje o CEO mais bem pago de Portugal.

António Mexia recebe 1,8ME fora prémios e dividendos das acções da empresa. A este juntamos João Manso Neto com quase 1 ME na EDP Renováveis.

2º Os lucros dos accionistas da EDP. Só os chineses arrecadam anualmente cerca de 146 ME e estes apenas têm 23% do capital da empresa.

Já os chineses da China Three Gorges alegam que os custos elevados ao consumidor reportam ao investimento nas renováveis.

Todos têm desculpas para tudo mas dificilmente abdicam dos seus pornográficos lucros.

A ideia de que a electricidade é um serviço público fundamental, de que os custos com a energia dificultam a economia não só dos cidadãos como nas empresas é algo que se fala por alto mas como uma história do passado.

Na verdade parece que tirando medidas avulsas e espaçadas no tempo, ninguém quer falar muito neste tema.

 

Fica a questão: porque é que uma empresa que gera tanto lucro a investidores externos e paga salários principescos e que vive sobretudo de infra-estruturas públicas nos faz pagar a electricidade mais cara da Europa?

Ensino Privado, um Problema Ideológico

 

Imagina que tens uma empresa e a determinada altura tens de agregar um novo serviço. A empresa é jovem e não pode fazer o investimento desejável, não tens funcionários suficientes e a tarefa ocupa-te apenas uma parcela do ano.

Decides então contratar pessoas a recibos verdes pelo período em que necessitas da tarefa.

Este serviço demonstra-se sólido e com o tempo vais estendendo estruturas próprias pelo país até que já consegues assegurar com os funcionários da empresa, senão na totalidade, pelo menos na larga maioria do território através dos recursos humanos da empresa.

Um dia olhas para a folha de contas e percebes que o custo é duplicado porque tens os teus funcionários e os contratados a recibos verdes a fazerem precisamente o mesmo.

Decides então que é preciso eliminar a duplicação e pesando os prós e os contras optas por manter a estrutura da empresa.

Garantes qualidade do serviço, prontidão, consegues assegurar melhores salários e condições laborais. O custo pode até ser mais elevado mas garanto que o trabalho é desempenhado seja nas tarefas fáceis seja nas mais desagradáveis.

Quando notificas os sujeitos contratados a recibos verdes que não lhes voltarás a atribuir tarefas, estes decidem fazer uma manifestação em protesto.

Dizem estes que conseguem fazer o mesmo trabalho ou mesmo melhor a um custo inferior.

Argumentos que quase parecem válidos, mas…

Quando a tarefa for desagradável e/ou demorar tanto que deixe de justificar o custo, esses trabalhadores a recibos verdes garantem que a tarefa será cumprida?

Os funcionários, empregados desta empresa subcontratada receberão salários justos e terão condições laborais?

Consigo eu como dono da empresa fazer um controle de qualidade da tarefa e o método aplicado será o mesmo? Ou terei uma tarefa pior desempenhada mas embelezada para “inglês ver”?

Consigo garantir que estes sujeitos a recibos verdes a meio da viagem não abrem falência e me deixam pendurado?

Não conseguem responder a estas questões porque não podem.

Concluo assim que não quero duplicar custos e não quero tantas incógnitas no meu futuro. Elimino os subcontratos em favor de empregados próprios.

 

A história desta suposta empresa é em quase tudo igual à história dos contractos associativos para o ensino retirando as pedras basilares do que está escrito na constituição e do que se espera de um Estado Social.

O país não tem de pagar a instituições privadas só porque os “amarelos” acham que assim deve ser.

Vamos assumir o discurso da direita, nomeadamente de Pedro Passos Coelho que deu exemplo das análises clinicas que são serviço praticamente exclusivo de privados.

Assunção Crista diz mais, que podem até ser as escolas públicas as sacrificadas.

Vamos então assumir que o cheque-ensino passa a ser a norma e cada um escolhe a escola onde colocar os seus filhos.

Num primeiro momento todos querem passar para o privado debaixo da ideia plantada de que o ensino privado é melhor.

Num primeiro momento o privado não consegue dar resposta a todos e reserva-se ao direito de admissão por limite de vagas. Mas onde há dinheiro fácil há investidores e as escolas privadas proliferariam como cogumelos.

Não é difícil imaginar que as escolas aceitem o cheque-ensino a que se adiciona mais um valor e quanto maior esse valor, mais “qualidade” terá.

Ao extremo, teremos escolas que cobram mais 100€ acima do cheque-ensino apenas para excluir alunos de bairros complicados que se sujeitarão a escolas onde apenas tenha o custo do cheque-ensino.

Compreendemos assim que a direita pretende uma maior segregação social onde alguns terão direito ao ensino e outros terão direito a uma prisão disfarçada de escola e que as probabilidades de sucesso serão pouco mais do que nulas.

Este tipo de lógica, a vingar, propagar-se-á até ao ensino superior. Podemos desde já considerar que estes, para os quais os seus pais apenas conseguiram atingir um ensino no valor do cheque-ensino, dificilmente chegarão a uma universidade, mas mesmo os outros, os que pouco mais puderem pagar, ficarão sujeitos ao critério de admissão das universidades.

Todo este percurso ficará no seu curriculum e a vida estará ditada aos 6 anos de idade.

Não é só os contractos de ensino associativo que está em causa mas toda uma lógica ideológica que tem vindo a ser propagandeada e que felizmente até agora não tem tido sucesso.

A logica defendida pela direita resulta em filmes de Hollywood como o Mentes Perigosas.

Igualdade de direitos e de oportunidades fazem-se criando estruturas que permitam essa igualdade. O que se está a fazer é o caminho oposto perpetuando ad eternum as oportunidades de futuro em função da geração anterior.

Salvará Sérgio Figueiredo a Classe Política?

 

 

São neste momento 21:44 e Manuel Tiago do PCP questiona Sérgio Figueiredo, director de informação da TVi, porque é que ele meteu um ponto de exclamação e não um ponto final.

 

Independentemente do volume de culpa da TVi no caso Banif, Sérgio Figueiredo está a servir hoje de bode expiatório para erros sucessivos do Governo actual e de todos os anteriores que permitiram a banca chegar impunemente à triste vergonha que hoje conhecemos.

O Banco de Portugal (BdP) que nunca cumpriu com as funções que lhe são atribuídas mas que defende o BCE e não o país que lhe atribui o nome, os sucessivos governos que foram fechando os olhos ao BdP e à promiscuidade do sector financeiro a troco da compra de divida publica e naturalmente de serem o financiador de uma quantidade imensa de obras públicas que sempre terminam com um valor francamente superior ao inicialmente orçado.

Com profissionalismo ou falta dele, de modo mais ou menos inocente, com boas ou más fontes, sendo responsável ou dando o corpo às balas por outros, Sérgio Figueiredo servirá para ilibar todos os que hoje o acusam.

Se fosse o contrário, muitas publicações estariam constantemente a justificar-se no Parlamento em Comissões de Inquérito ou nas barras dos tribunais e bem sabemos que a mentira, ou a ausência da verdade, ou a manipulação de títulos tem passado sempre ou quase sempre de modo impune.

Enfim… mate-se o mensageiro. Não se salva a redacção, salva-se a classe política e financeira.

António Costa Salva as Gorduras do Estado

 

 

Os jornais de ontem apontaram os focos para Catarina Martins e para o modo como ela “desmontou” os argumentos da direita a propósito do debate sobre a educação.

Na verdade não desmontou nada porque esse trabalho já tinha sido feito em abundancia por comentadores de televisão e através das redes sociais. Não acrescentou nada de novo, apenas teve um palco mais vistoso, mais mediático para uma luta que já estava mais do que vencida face a um opositor desarmado.

O protagonismo não declarado foi de António Costa que demonstra ser o motor da geringonça e que sem que a direita perceba, também a inclui na dita.

António Costa começou logo por adiantar que os contractos são para cumprir e como tal não existe razão para que os pais estejam preocupados. Desarmou aqui o protagonismo das escolas e da sua pseudo-intenção de processarem o Estado por incumprimento de contractos.

Depois agradou a geringonça quando disse que cumpridos os contractos, onde se verificam redundâncias, não se farão novos contractos, pelo que cai o argumento que o Estado gasta dinheiro sem necessidade, apenas para enriquecer privados amigos da direita.

Se o debate tivesse terminado aqui o dia teria sido ganho pela esquerda por KO ainda antes do início do combate. Mas não acabou. António Costa tinha uma questão por resolver, que poderia ser de somenos importância mas que foi a única carta de trunfo que a direita apresentou, a hipótese de desemprego nas escolas privadas no fim dos contractos.

Desarmando assim a direita, mas também a esquerda, António Costa arremata o assunto dizendo que na falta destes contractos para a educação, as escolas não têm que se preocupar porque o Governo criará formas de manter o seu financiamento através de outras iniciativas, seja na rede de creches, no ensino para adultos, etc…

A verdade é que agradando à esquerda e à direita no parlamento António Costa acaba por não cortar nas gorduras tal como todos os outros que o precederam. Apenas dá uma embalagem nova ao mesmo produto e com isso empurra o problema com a barriga.

Conclusão: a esquerda ganha o argumento, a direita mantem os tachos, António Costa sai ileso, o povo paga o mesmo.

A Direita Perdeu o Tino do Ensino

 

As questões sobre a cousa publica versos o equivalente privado não tem fim à vista sobretudo porque temos vivido numa rotação governamental entre a direita e a esquerda, muitas vezes uma direita ferranha face a uma esquerda moderada.

Para uma democracia que viva dentro de um Estado de Direito existem alguns serviços que não podem ser delegados a terceiros ainda que alguns possam coabitar com instituições privadas. É impensável partilhar competências no que toca à segurança, defesa e justiça mas podemos encarar o ensino e a saúde privada em coexistência com o público.

O que não pode existir são instituições privadas pagas com dinheiros públicos salvo raras excepções em que o Estado não consiga nesse momento cumprir com o que dele é esperado.

E é numa dessas excepções que surge a actual polémica. Em 42 anos de democracia o Estado ainda não conseguiu cumprir com a sua competência de ter uma rede de escolas e creches que dê resposta à população. Por isso tem alimentado esta ideia de que é normal o Estado sustentar interesses privados.

O argumento da direita é que o privado tem mais qualidade e maior eficiência.

Digo eu que é mentira e quando assim é, a incompetência é dos ministros que tutelam mal os seus ministérios. Depois temos bons e maus exemplos de ambas as partes. Naturalmente que a direita pega nos piores exemplos do ensino público e compara-o com as escolas mais bem pagas do país. É o mesmo que comparar um Fiat Uno com um Ferrari.

O que Passos Coelho não diz é que o Fiat Uno tem alunos que nunca conseguiriam estar no ensino privado porque para alem de não o conseguirem pagar, muitas vezes vivem em condições precárias, precisamente onde ele foi roubar fundos para aumentar a renda nas escolas privadas.

A direita perdeu o tino e não foi o de Rans, foi do ensino.

Defende o indefensável e ainda se lamenta pela voz de Assunção Cristas que a esquerda se une para defender causas que deveriam ser assumidas, não pela esquerda, por todo o seu humano. Dignidade e igualdade de oportunidades.

No regime feudal que os conservadores querem impor é natural ver D. Manuel Clemente a defender o regime privado. Alega ele que os pais dessas crianças também pagam impostos.

Esquece-se de referir que estes pagam impostos a partir de uma tabela progressiva que tem por finalidade redistribuir a riqueza dando oportunidade aos que menos podem.

Mas se são os pais que pagam impostos, a vida quotidiana das escolas não é feita pelos pais. Falamos de alunos que agora são incentivados a meterem-se numa guerra que não entendem e que muitos senão a maioria nem têm modo de comparar.

Faz-se de professores e pessoal não docente que no privado não vê cumprida a tabela salarial para que o poder feudal possa falar de “eficiência”, que vê os seus direitos silenciados sob pena de lhes mostrarem a porta de serventia, sobretudo agora que a concorrência desempregada e desesperada é feroz.

A direita conservadora e feudal que tem sempre o norte da Europa na ponta da língua para nos guiar no sistema financeiro e que Passos Coelho sempre se gabou de dizer ser bom aluno, não passa afinal de um aluno medíocre que nunca aprendeu que a norte o ensino é público, gratuito e universal.

 

Trabalho voluntário, uma treta! Paguem-nos.

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Não percebi a polémica em volta das declarações de Catarina Martins sobre o trabalho voluntário. Não percebi as vozes que se ergueram em defesa do voluntariado com exemplos pungentes de vida e de defesa da suposta cidadania. Portanto é melhor começar a esclarecer os conceitos. Voluntariado: dar algum do seu tempo livre a uma causa cívica. Trabalho voluntário: trabalhar sem receber, com a esperança de um dia ter emprego nessa empresa/instituição ou acreditar que o trabalho vai ser essencial para o currículo. Câmaras, Ministérios, firmas de advogados, ateliers de arquitectura, entre outros, usam o trabalho não pago com total leviandade e sem qualquer impunidade. A Fundação de uma empresa de electricidade que ganha biliões e paga milhões ao seu CEO, por exemplo, não tem serviço educativo no museu da empresa porque as visitas guiadas são asseguradas por voluntários. São estes jovens voluntários que todos os sábados e domingos de manhã proporcionam aos visitantes um trabalho impecável em troca da “experiência enriquecedora” de trabalhar de graça para a Fundação EDP. Fundações, Câmaras e outros órgãos do Estado utilizam a esperança de jovens e não jovens para lhes proporcionar um “ bom currículo” obrigando-os a cumprir horário e assumir responsabilidades a troco de nenhum pagamento. Voluntariado e activismo nada têm que ver com isto . E não, não há um contrato social entre aquele que trabalha e aquele que usufrui do trabalho de graça. O que há é uma crise que não passa, um Estado que é o primeiro a dar o mau exemplo, empresas que abusam porque a regulação laboral está antiquada e não respeita as novas realidades sociais. É preciso que se legisle e se proíba o trabalho gratuito começando já pelo Estado, empresas do Estado, Fundações e empresas. E é já. Trabalho voluntário uma ova. Se é trabalho, paguem-nos.