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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

PCP não quer Angola democrática!

 

 

Quando o CDS e o PSD não condenam a ausência de democracia em Angola, eu considero como algo de normal. Está-lhes na génese ideológica o combate à democracia, às liberdades e garantias. Se restavam dúvidas basta-nos olhar para os ataques constantes à liberdade, à sociedade, aos portugueses e à Constituição da República Portuguesa.

Quando o PCP se junta à direita neste chumbo à condenação a Angola, a única coisa que é clara é que o PCP AINDA é o PCP anterior à queda do muro de Berlim, ao muro da vergonha.

A sua mensagem é óbvia, a democracia é secundária e passo a citar: “o seu presente e futuro, incluindo da escolha do caminho para a superação dos reais problemas de Angola e a realização dos seus legítimos anseios.”.

Torna-se claro que o PCP durante os anos de salazarismo nunca lutou pela democracia, lutando antes e apenas por uma mudança de regime, por um regime de bloco de leste onde a liberdade NUNCA foi palavra de ordem e a democracia foi só e apenas um termo de dicionário, uma curiosidade académica.

O PCP refugia-se na Constituição da República Portuguesa e na separação de poderes nela constantes como se as mesmas práticas fossem em Angola aplicadas.

Não é o povo angolano que interessa ao PCP defender. Pretende apenas evitar que Angola seja “tomada” por algum tipo de regime ligado ao capitalismo e em ultima analise aos EUA perpetuando um pensamento antiquado ligado à guerra fria onde vale tudo excepto ceder aos “americanos”.

Aponto assim o dedo ao PCP por mais uma vez se negar a defender a democracia, se negar a defender as pessoas, negando evidencias há muito conhecidas em nome de uma ideologia.

Reforço assim que apesar de assumir que o PCP seja um partido de esquerda, é de uma esquerda que não é a minha, de uma esquerda da qual quero tanta distância como da pior das direitas.

A liberdade das pequenas coisas

 

 

Sol, frio, cerveja, vinho, fish and chips. Três dias curtos, numa cidade europeia, três dias de liberdade numa Europa assustada e perseguida pelo medo. Não interessa se vivemos mais ou menos atentados do que na década de 70 porque a Europa, como eu a conheci, está assustada e com medo e eu tenho medo. Medo de entrar no metro na hora errada, medo de estar num aeroporto ,medo de ligar a televisão e ouvir discursos a apelar ao ódio e a pedir que as fronteiras fechem, medo de me tornar xenófoba porque ao meu lado não está um branco com nome europeu, medo de tanta coisa. E no entanto, naquela esplanada de uma cidade europeia apeteceu-me viver. Viver sem culpas nem dramas, aproveitando o sol e a liberdade de ser turista, de viajar, de fazer parvoíces. E percebi que a liberdade é feita de tão coisas pequenas e tão grandes ao mesmo tempo: viajar sem passaporte numa Europa unida, perceber os preços todos porque a moeda é a mesma, criticar a cerveja e o vinho porque o “ Nosso” é muito melhor, rir porque benuron ali lê-se de forma estranha. Parvoíces, nada mais que parvoíces que só uma coisa séria e bonita como a liberdade permite. A minha forma de homenagear a liberdade, e todos os que se batem por ela em qualquer parte do Mundo, passa por defendê-la vivendo as pequenas coisas sem medo, sem culpas e sem pesares. Porque só quando se vive a liberdade das pequenas coisas se pode lutar pela liberdade de todos, num mundo sem medo e com tantas cores e cheiros e pessoas que vão de Bruxelas a Lahore, de Madrid a Bagdad, de Londres a Bombaim.

 

 

 

 

De Brasília a Bruxelas

 

 

Construir é sempre um processo difícil e doloroso, cheio de dificuldades e com muitos a colocarem resistência ao progresso. Destruir é fácil. Existem milhares de maneiras para destruir em pouco tempo. Quanto tempo demora a construir uma cidade? Quanto tempo é necessário para a destruir? Hoje consideramos a democracia como um bem adquirido mas estamos bem longe da verdade. Ainda estão vivas pessoas que nasceram e cresceram em ditadura. Ainda estão vivas algumas que nasceram durante a monarquia.

Milhares, milhões deram o sangue e a vida para hoje termos a democracia e os Direitos do Homem. Estamos hoje perto de assistir à queda da democracia qual castelo de cartas. Os processos para esse fim são diversos.

A democracia é atacada em Brasília através do argumento da corrupção. Não estou a negar, a justificar ou a desculpar a existência de corrupção. Estou antes, apreensivamente, a observar os apelos mais ou menos subliminares a um golpe de Estado que vai sendo propagandeado pela comunicação social e com o apoio de uma pequena parcela da população interessada numa mudança política.

Nos Estados Unidos vamos assistindo ao populismo, mas sobretudo à popularidade de Donald Trump. A verdade é que ele tem servido de caixa de ressonância de uma grande parcela da população norte americana e só isso justifica que continue à frente nas primárias republicanas. Uma piada dos Simpsons com 16 anos arrisca-se agora a ser uma verdade. Nada garante que não ganhe as presidenciais. Sobretudo…

Bruxelas.

Bruxelas é muito mais que a capital belga. É a capital da União Europeia fazendo com que hoje seja toda a União Europeia a sofrer ataques terroristas. Estes ataques são o cancro que pode matar a democracia. Alimenta o radicalismo de Donald Trump e alimenta o extremismo, o xenofobismo e o nacionalismo na Europa. São fronteiras que se fecham, é a liberdade de comunicação e circulação que se vê comprometida, são refugiados que mesmo onde esperam encontrar segurança se vêem atacados porque por cá, na tal europa moderna e civilizada, somos alimentados pelo medo que lá pelo meio dos refugiados apareçam também terroristas.

Enquanto grupos e partidos de extrema-direita vão proliferando por essa Europa fora, a democracia vê-se cada vez mais debilitada. Nada está hoje mais em risco do que a democracia e tudo o que dela depende.

Se a democracia cair, o terrorismo venceu.

Uma nota de solidariedade aos familiares das vítimas e com todos os que a esta hora lidam com um acto bárbaro e injustificável.

 

Foto:handout/reuters

Missa Na Escola Não!

 

 

Sou ateu. Acho que nasci assim e assim me tenho mantido. Sempre que dormia na casa dos meus avós, depois de um chá e uma bolacha de água e sal, já na cama repetia com ela a Ave-maria e o Pai Nosso. Tantas vezes o repeti que ainda hoje o sei como quem repete a tabuada até ela ficar tatuada na memória. E nem assim deixei de ser ateu.

Ainda hoje a minha avó me diz: “Ai meu filho, não digas isso que Deus olha por ti…” e no fim respeitamos a liberdade um do outro. Afinal foram estes mesmos avós que me transmitiram os valores da democracia, liberdade e do respeito. Não me decepcionaram assim como eu espero não o fazer a eles.

Não será difícil perceber que respeito todos os credos e religião desde que estes respeitem os que não professam a mesma fé. Mas respeitar e aceitar a sua existência e a sua multiplicidade não é o mesmo ser forçado a participar nas suas actividades. Uma coisa é um amigo convidar-me para o seu casamento ou qualquer festividade e eu ir de livre vontade, não pela religião mas pelo dito amigo, outra é eu não ter opção.

Ao que parece não é isso que acontece em algumas escolas públicas deste país.

Ao que parece estão a ser celebradas missas nas escolas públicas em horário das aulas.

E o que nos diz aquele manual que uns pretendem respeitar e outros pretendem alterar para melhor os servir, a Constituição da República Portuguesa (CRP)?

 

Artigo 13.º

Princípio da igualdade

  1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
  1. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

 

Quer isto dizer que a coisa pública deve servir de referência e exemplo no respeito pela dignidade social de TODOS os cidadãos. A escola pública não é assim o espaço de poucos, de alguns ou da maioria mas sim de todos, ou seja, as suas actividades devem ser inclusivas e que não promovam exclusão, discriminação ou ostracização.

Estarei a exagerar?

Tirando os momentos em que o desejo fazer, consigo passar despercebido no meio da sociedade. Sou português e de família tradicionalmente católica. Conheço suficientemente bem os rituais católicos para que ninguém que não saiba-me dizer que não sou católico. Ser ateu é como uma célula estaminal com o potencial para se moldar a tudo. Mas e se o sujeito for muçulmano, judeu, bahai… e se este sujeito viver numa localidade em que as tradições religiosas estão bem vivas?

 

Artigo 41.º
Liberdade de consciência, de religião e de culto
  1. A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável.
  2. Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações ou deveres cívicos por causa das suas convicções ou prática religiosa.
  3. As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.
  4. É garantida a liberdade de ensino de qualquer religião praticado no âmbito da respectiva confissão, bem como a utilização de meios de comunicação social próprios para o prosseguimento das suas actividades.
  5. É garantido o direito à objecção de consciência, nos termos da lei.

 

A nossa CRP é bem clara quanto a isto. Recorro aqui à Bíblia para o justificar: «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.» (Mateus 22:21)

E o que é de Deus são os seus espaços de culto. Não existe neste país nenhuma proibição as actividades associativas dentro ou fora de portas. Não existe qualquer tipo de discriminação, no que toca aos católicos, nas suas actividades religiosas.

No espaço de César não há espaço para Deus. Podemos admitir que ele surja em contexto histórico e cultural na perspectiva do ensino. A exposição das diferenças étnicas, culturais e religiosas no país e no mundo. Mas explicar a sua existência e o seu enquadramento não é uma disciplina nem é uma missa.

Escutava ainda há pouco o Padre Feytor Pinto a justificar que algumas das suas directrizes fazem parte da constituição. Serei o primeiro a concordar sem depois lembrar que outras partes são-lhe opostas ou pelo menos bastante diferentes.

Justificava o Padre que existe um enquadramento cultural no norte do país, uma tradição.

A tradição é um pau de dois bicos. Por um lado transmite os conhecimentos de geração em geração servindo de elo e mantendo uma identidade cultural. Por outro pode impedir o progresso pela mera justificação “é a tradição”. No que toca à religião católica ela passa à força para a tradição. Não é difícil perceber que durante demasiado tempo quem não era católico ia para a fogueira e mesmo no Estado Novo a religião era um dos pilares do regime.

Hoje, 42 anos depois do Estado Novo, a religião já não é uma obrigação e temos muita gente ateia, agnóstica e de muitas confissões religiosas que não a católica. Justifica então manter as tradições?

Claro que sim. Para as quem deseja praticar sem com isso sujeitar os outros a essa tradição.

E neste sentido podemos até ser sensíveis à livre iniciativa cultural de enquadramento religioso. Recorro novamente à CRP:

 

 

CAPÍTULO III
Direitos e deveres culturais

Artigo 78.º
Fruição e criação cultural

  1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.
  2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais:
  3. a) Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de acção cultural, bem como corrigir as assimetrias existentes no país em tal domínio; 
    b) Apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade; 
    c) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum; 
    d) Desenvolver as relações culturais com todos os povos, especialmente os de língua portuguesa, e assegurar a defesa e a promoção da cultura portuguesa no estrangeiro; 
    e) Articular a política cultural e as demais políticas sectoriais.

 

Portugal é um país de tradição cultural católica. Não me custa aceitar esse facto. Por isso aceitamos nas escolas as férias do natal, da páscoa e do Carnaval e até alguns feriados religiosos.

Não me custa aceitar que grupos de alunos, em actividades extracurriculares desenvolvam actividades na área da religião até mesmo enquadradas com a cultura local.

Custa-me aceitar disciplinas, opcionais ou não, de religião e moral porque o Estado é laico e/ou porque não estariam assim garantidas disciplinas para outras confissões. Aplica-se aqui “ou é para todos ou não é para ninguém”.

Estou totalmente em desacordo com qualquer tipo de missas dentro das escolas públicas, sobretudo em horário de aulas onde alguns alunos se sentem obrigados a participar e outros são deixados “pendurados” à espera do fim do culto.

Onde nos leva Marcelo?

 

Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse e parece que acordámos noutra vida.

A tomada de posse do Prof. Marcelo sentiu-se muito mais como o alívio pela saída de Cavaco Silva do que pelo consumar da vitória de Marcelo.

Isto é óbvio quando sabemos que 52% da população não votou e dos 48% que votaram, apenas 52% escolheram Marcelo Rebelo de Sousa. Analisando assim, friamente, apenas o alívio da saída do seu antecessor justifica tanta festa.

Mas mesmo assim julgo curioso este descontentamento com Aníbal Cavaco Silva.

Chamado de palhaço por Miguel Sousa Tavares, partilhado nas redes sociais como “A múmia”, atravessou os seus mandatos em erros sucessivos quer políticos quer de presença. E mesmo antes de ser Presidente da República, o povo correu com ele do Governo numa época de má memória dos “Secos contra Molhados” ou da “Geração à rasca”.

Somos hoje o resultado directo desse tempo em que Aníbal Cavaco Silva traçou o destino económico, precário, do país. Não é de estranhar que na apresentação dos novos candidatos a membros da União Europeia, e a propósito da aplicação dos fundos de convergência, Portugal e Espanha tenham sido usados como exemplos, um positivo e outro negativo. A nós coube-nos a fava…

É fácil de compreender a reeleição como Primeiro-Ministro. Com a quantidade imensa de fundos comunitários todo o português comprou automóvel, habitação e colocou os filhos a estudar no ensino superior. Ninguém teve a percepção de o estar a fazer à custa de uma hipoteca difícil de pagar.

Difícil é compreender como é que depois de se perceber o que “a múmia” nos deixou de herança, o tenham elegido não uma mas duas vezes como Presidente da República.

E se foi eleito, porquê o alívio?

De todos os discursos de Marcelo Rebelo de Sousa há um que me ficou a vibrar no tímpano:

"jamais troquem a sua liberdade, o seu rigor no trabalho, os seus gestos de luta e de coragem por qualquer promessa de sebastianismo político ou económico".

E mesmo no meio deste apelo, feito popstar, Marcelo Rebelo de Sousa toma posse, vai à missa com lideres de diversas confissões religiosas, parte para um espectáculo musical oferecido à população, reserva o dia seguinte para espalhar charme com os funcionários do palácio de Belém, parte para uma visita de charme ao Porto onde até faz uma perninha em directo na Radio Comercial, regressa a Lisboa e abre as portas do palácio de Belém aos portugueses que o desejem visitar e conhecer.

De Presidente ainda não vi nada mas de trabalho no culto individual muito temos visto. E para quem teve apenas 52% dos votos de 48% de votantes, podemos dizer que se está a sair muito bem no que toca a construir popularidade.

Se será bom ou mau presidente… o tempo o dirá. Para já vejo-o apenas como a criação da imagem do tal Sebastião que ele próprio alertou. Vejo pessoas a compara-lo ao Papa Francisco e a depositarem nele a esperança de um país melhor e diferente.

Depois de Presidente conhecido por “múmia” que fala de ácaros, cagarras e do tamanho das bananas da Madeira, era francamente difícil encontrar igual ou pior.

Ou será que atrás da tomada de posse de El Rei Dom Marcelo que enaltece o império, a família e a religião, no meio do nevoeiro de D. Sebastião ainda não conseguimos ver o que temos pela frente?

 

Credito da Imagem do site abola.pt

De buraco em buraco...

 

Imaginemos duas cidades sem qualquer tipo de ligação. As pessoas destas cidades querem deslocar-se entre elas sem ter de atravessar cardos e silvados. Impõe-se a criação de uma estrada que ligue estas duas cidades.

O trabalho não promete facilidades mas estas gentes fazem-se ao trabalho. A determinada altura, no percurso definido para a estrada, as gentes encontram um buraco que impede a progressão da estrada. É preciso uma solução.

O líder destas gentes diz-lhes para lá ir mais à frente fazer um buraco e que dele retirem as terras necessárias para tapar o buraco que lhes impede a progressão.

Buraco tapado, o líder anuncia o sucesso da sua ideia e que agora é que estão no rumo certo. Alguem grita que seria mais fácil tapar o buraco com terras ao lado e não à frente mas ninguém o ouve. As gentes animadas avançam na construção da estrada mas cedo se deparam com um novo buraco que precisa ser tapado. Mais uma vez o líder destas gentes diz-lhe para lá irem mais adiante fazerem um buraco e trazerem as terras para tapar este buraco. As gentes passaram pelo primeiro buraco e acharam que já era algo fundo para lhes retirar ainda mais terra. Avançaram um pouco mais e fizeram novo buraco.

Buraco tapado e lá avançaram na construção da estrada. Mais uma vez ignoram o senhor que diz que seria mais fácil tapar o buraco com outras terras que não as de adiante. Ninguém o ouve. Cedo encontraram mais um buraco. Desta vez o primeiro buraco que criaram para tapar o primeiro buraco que tiveram de tapar. O líder destas gentes diz que é da conjuntura, algo fora do seu controle, alguma geringonça talvez que por ai ande a provocar buracos.

A partir daqui é fácil perceber que estas gentes não terão tarefa fácil na construção da estrada, que passaram o tempo a fazer buracos para tapar outros buracos, buracos cada vez maiores, cada vez mais distantes, cada vez mais difíceis de tapar.

Qualquer semelhança desta história com a realidade económica deste país é pura coincidência, mas até quando andarão estas gentes a tapar buracos com buracos que mais lá para a frente terão de tapar?

Lisboa menina e moça...

 

“Lisboa menina e moça, menina

Da luz que meus olhos vêem tão pura

Teus seios são as colinas, varina

Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada

Toalha à beira mar estendida

Lisboa menina e moça, amada

Cidade mulher da minha vida”

 

Assim canta Carlos do Carmo a cidade de Lisboa.

Mas Lisboa já não é nem menina nem moça, é antes uma mera prostituta que se vende à carteira maior.

Lisboa há muito que é conhecida e reconhecida pelos seus encantos e sempre teve turistas que a visitaram e visitam. Mas hoje, sobretudo nas zonas mais “turísticas” é mais difícil encontrar portugueses do que estrangeiros.

Nada contra eles que eu gosto muito da multiculturalidade. Mas Lisboa já não é o que era.

A face mais visível, para além dos próprios turistas que por cá andam agora o ano todo, são os tuc-tuc, essas caixinhas de poluição sonora e atmosférica que passam o dia a cruzar a cidade. A estes se adicionam uns carrinhos amarelos de dois lugares, igualmente poluidores, igualmente barulhentos.

Mas há uma parte menos visível deste negocio e é menos visível porque está atrás de fachadas que muitas das vezes já existiam. Os hotéis, hostels e locais de pernoita afins.

De há cinco anos a esta parte os hotéis proliferam como cogumelos. Entre palacetes vendidos aos privados sem qualquer tipo de respeito pelo património a edifícios recuperados e convertidos em hotéis ou hostels, a novos hotéis, eles brotam por toda a cidade.

A cidade conhecida pela sua hospitalidade natural deixou de o ser. Onde viviam pessoas agora vivem hotéis. Já não há hospitalidade onde não há pessoas. A única hospitalidade é igual a tantos outros sítios do mundo servida pelo empregado de mesa do restaurante de ocasião e do concierge do hotel escolhido. Ao turista sobra apenas o taxista que cobra 20 euros do aeroporto ao Martim Moniz ao mesmo tempo que reclama do serviço da Uber.

Em Lisboa já nem sequer a calçada portuguesa serve de referência. Por incomodar os saltos altos é substituída paulatinamente por placas de pedra polida ou pior, por blocos de cimento.

A restauração é agora de modern cuisine. Sobram as sardinhas no verão mas até os pastéis de bacalhau foram agora integrados na modernice culinária para “inglês ver”. A restauração em Lisboa é hoje praticada a preços proibitivos para o comum dos portugueses. Estes foram empurrados para a marmita, para o almoço ao balcão ou obrigados a deslocar-se para zonas mais periféricas da cidade.

Lisboa não é uma prostituta. Erro meu. É uma acompanhante de luxo usada apenas por quem pode pagar.

A Lisboa de antigamente desagradaria de algum modo aos turistas?

Não me parece que assim tivesse sido. Então porque desvirtuar em seu nome uma cidade admirada há centenas, talvez milhares de anos?