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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Marcelo vai às cordas!

 

Quando estou aqui a escrever e a comentar algo seja dentro de âmbito politico seja de âmbito social tenho a sorte de não ser confrontado enquanto vou escrevendo. Tenho ainda outra vantagem de me poder documentar antes e durante a escrita e até mesmo face a algum comentário para o qual julgue necessário prestar um esclarecimento.

Ao vivo, mesmo documentado, o meu valor argumentativo assenta directamente na minha capacidade de articular verbalmente o que tenho em memória.

 

Marcelo Rebelo de Sousa passou 15 anos a fazer isto que eu faço em texto escrito mas no formato televisivo. O senhor sabia antecipadamente os temas que iria abordar podendo documentar-se e se alguma pergunta fosse feita, que não estivesse prevista, o nim seria uma resposta aceitável e que não compromete. Basta recordar a rábula de Ricardo Araújo Pereira a propósito do comentário de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a legalização do aborto.

De resto, Marcelo Rebelo de Sousa, em rigor não fez nada por mérito próprio. Bastou-lhe estar no sítio certo, na hora certa, e fica para a história que ele fez parte de algo.

Ainda jovem disseram-me “não importa o que fazes. Importa o que aparenta que fazes…”.

Chegados aqui Marcelo é agora candidato a Presidente da República e até hoje a campanha tem sido um passeio no parque. Afinal, passou 15 anos a tornar-se membro das famílias portuguesas permitiu-lhe conquistar a simpatia que se tem por um tio que aparece ao domingo ao lanche e que diz umas coisas engraçadas. Conquistou isso através da função humana de escolher o que nos é familiar face ao desconhecido. Isto é um facto comprovado cientificamente.

Permite-lhe ainda ter um dos Orçamentos de Campanha mais curtos e com grande cara de pau usar isso como argumento positivo dizendo que em tempo de crise mais gastos seriam ofensivos para com os portugueses que atravessam e mais sentem na pele a crise. Como se ele há três meses não tivesse apoiado o Governo mais troikista que a troika.

E os debates?

Têm sido uma animada conversa de café com pessoas sem a prática do animal politica, do saber estar. Um “pois é, pois é… concordo mais ou menos com isso…”. Ou com a Mariazinha sem tempero, sem presença, sem… sem nada que mereça a pena reservar memória. Ou um debate com os 10 candidatos que pelo numero não permite o verdadeiro confronto de ideias e que em rigor, parecia que todos diziam rigorosamente o mesmo ao ponto de se poder pensar que qualquer um poderia lá estar.

Hoje Marcelo foi às cordas!

Pela primeira vez enfrentou UM CANDIDATO preparado, à altura do cargo e claramente superior ao familiar Marcelo Rebelo de Sousa, Sampaio da Nóvoa.

Confrontou-o com os seus comentários, com o seu passado e com a sua militância.

Marcelo defendeu-se como lhe ocorreu, com pequenos ataques pessoais e recusando a sua responsabilidade politica fosse do que fosse, mesmo quando fazia parte de governos de direita. A isso se acresce mais um lapso de memória que Sampaio da Nóvoa fez questão de o relembrar no momento sobre o SNS.

Enquanto Marcelo se perdia no ar rarefeito que apanhava em bicos de pés, Sampaio da Novoa manteve a serenidade demonstrando os motivos pelo qual será melhor Presidente da República.

Marcelo achou extraordinário não ter apoios para além das máquinas politicas à direita e achou ultrajante que Sampaio da Nóvoa tenha o apoio de TODOS os antecessores em Belém com a natural excepção do actual que nem o pode fazer nem o faria.

É um facto que a maioria das pessoas não está familiarizada com Sampaio da Nóvoa. Eu próprio não estava até há pouco tempo. Mas é preciso ler um pouco para conhecer o percurso das pessoas e depois votar em consciência.

Que fique bem claro, que independentemente do que os candidatos possam dizer, NÃO há independentes.

TODOS têm um passado de cidadania activa, na maioria ligados aos partidos. Importante é o que se retira desse passado, desse percurso, do que se defendeu e do que se quis destruir.

Marcelo Rebelo de Sousa não apoiou o Serviço Nacional de Saúde, deu apoio à necessidade de incentivar o ensino privado em detrimento do ensino público, confirmou a boa condição do BES do seu caríssimo amigo Ricardo Salgado.

Comentar é fácil. Estar no sítio certo na hora certa é mais difícil. Ser a pessoa indicada para Presidente da República é um desafio que vai para além das capacidades de Marcelo Rebelo de Sousa e das necessidades do país.

 

Marcelo Rebelo de Sousa hoje foi às cordas. Dia 24 de Janeiro espero vê-lo KO!

A marmita do Marcelo

Um, admirou-se com o sorriso das vacas no arquipélago dos Açores. Outro, sentou-se à mesa de uma taberna local a jogar dominó. Um, faz questão de declarar publicamente o seu amor pelo bolo-rei, expondo a sua mastigação. Outro, partilha a cantina do quartel dos bombeiros voluntários de Sintra à hora de almoço, ostentando a sua marmita, numa falsa demonstração de pobreza franciscana, constituída por uma sandes de queijo, meia dúzia de bolachas Maria e uma lata de Sumol. Um, afirma que a realidade impõe-se sempre à ideologia. Outro, é peremptório ao defender que a Constituição da República Portuguesa deve ser maleável e adaptar-se ao momento... Um, Aníbal Cavaco Silva, e outro, Marcelo Rebelo de Sousa, são faces de uma mesma moeda. E esta é das más. Daquelas que tende a expulsar a boa moeda do mercado, tal como anuncia a Lei de Gresham.

cavaco bolo-rei.jpeg

 

Nos idos de 2004, Cavaco recorreu a essa mesma Lei num artigo de opinião publicado no Expresso, no que foi interpretado como um recado directo à governação do então Primeiro-Ministro Santana Lopes. Isto é, por analogia, defendia que os bons políticos estavam a ser expulsos por pessoas menos capacitadas, reclamando que era necessário afastar a má moeda. Mais de uma década volvida, a má moeda habita Belém e parece agora querer perpetuar-se recorrendo a uma edição especial, com umas cores mais vivas e rasgados sorrisos.

 

Um e outro têm a mesma perversa ligação à política e um entendimento muito enviesado daquilo que significa exercer funções num órgão de poder. Tem tudo a ver com propiciar melhores condições de vida às pessoas. No caso concreto da Presidência da República, está intimamente relacionado com o cumprir e fazer cumprir a Constituição, num exercício de permanente escrutínio da acção governativa. Pouco interessa as directivas de Bruxelas ou a actualidade, quando falamos de inconstitucionalidades e atropelos à Lei maior do país, mais importante que qualquer máxima economista. Sim, a Constituição da República Portuguesa é ideológica. A ideologia patente na mesma visa, acima de tudo, a defesa dos direitos dos cidadãos e a implantação de um modelo de estado social que promova uma rota de progresso, melhorando as condições do povo. Quem está mal com esta ideologia e julga que a pode moldar às circunstâncias, principalmente em épocas de crise, nunca deveria ter apresentado a sua candidatura ao mais alto órgão de soberania nacional, muito menos exercer funções efectivas.

Marcelo marmita.png

A marmita do Marcelo leva uma sandes de queijo, mas leva também frases vazias, contradições e um percurso longo na política, polvilhado por estranhos relacionamentos e amizades duvidosas. A marmita de Marcelo diz tudo e o seu contrário. Ao povo resta resistir e evitar que lhe encham a “marmita”, porque o estado de graça reservado ao comentador bem-humorado terminou. Agora é o tempo da política real. Que implica ideologias; que exige escolhas. E para ocupar a Presidência da República implica também um respeito cego pela Constituição. O cargo não se coaduna com meias-tintas ou indecisões. O exercício pleno de funções, numa lógica de acrescentar valor e não de mera figura decorativa, não se consegue com mergulhos no Tejo, disfarces de taxista ou jogos de dominó...

 

Montijo, 7 de Janeiro de 2016