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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

E para isto, não há Troika?

Nem os mais europeístas de entre nós negam o facto de que o projeto europeu não é - nem nunca foi - perfeito. E todos concordarão, os mais e os menos eurocéticos, que aquilo que esteve na génese da criação da União Europeia era muito claro e genuíno: impedir que o Velho Continente regressasse à espiral dos nacionalismos, aos ódios e aos conflitos entre povos e nações. Os anos vão passando e este grande objetivo parece ter-se apagado da memória coletiva dos 500 milhões de cidadãos europeus.

 

Parte do problema reside no facto de a evolução do projeto europeu dos últimos anos ter vindo a concentrar-se muito mais no reforço de estruturas e de regras económico-financeiras e muito menos na criação de uma arquitetura dos direitos fundamentais e de uma União Europeia verdadeiramente democrática e alicerçada nos valores e princípios que definem os Estados de Direito. Por outras palavras, um estado-membro não deve violar as metas do défice, mas pode assistir a uma derrapagem autoritária digna dos anos 30 sem quase ser importunado pelas instituições europeias.

 

Não será por isso surpreendente receber notícias como as que recentemente têm vindo a chegar da Polónia, como as que já recebíamos regularmente da Hungria e, pontualmente, de outros estados-membros da União Europeia.

 

Um país que queira ser parte da União Europeia tem de obedecer (e bem) a uma série de critérios de respeito pela democracia e pelos direitos humanos (os chamados critérios de Copenhaga), mas uma vez parte integrante da UE, não existem formas concretas e imediatas de lidar com problemas de direitos fundamentais e impedir assim derivas autoritárias que ocorram dentro do espaço europeu.

 

Porém, estas derivas autoritárias já não são excecionais no nosso Continente: nem os mais otimistas podem ignorar o facto de se terem vindo a alastrar, nos últimos anos, os casos de violações dos direitos mais fundamentais e dos princípios do Estado de Direito que julgávamos tão adquiridos. São exemplos disso, entre muitos outros, os efeitos das medidas de austeridade que violam indubitavelmente artigos fundadores da nossa União; ou a proposta francesa que visa possibilitar a privação da nacionalidade, violando claramente os princípios mais básicos do direito internacional (a começar pelo célebre "direito a ter direitos" de que falava tão bem Hannah Arendt); a recente lei sobre confisco de bens de refugiados aprovada pelo parlamento dinamarquês; e ainda as graves lacunas no pluralismo dos media que constitui um valor fundamental consagrado na Carta dos Direitos Fundamentais da UE.

 

Lamentavelmente, para estas questões ligadas aos Direitos Humanos e às liberdades fundamentais, individuais e coletivas não existe nenhuma Troika.

 

@Reuters 

Em Portugal não sejas Troikano

 

Não existe outra forma de dizer isto: A tróika percebe tanto de economia como eu entendo da vida social do mosquito do Bornéu.
Eu não percebo muito de economia e como tal vou limitar-me aos factos que são públicos.
O primeiro país a ser intervencionado, e seguindo as exigências da troika foi a Grécia. Ao faze-lo não só não recuperou como lhe concederam um hair-cut, um segundo resgate, e quando Varoufakis lhes disse “assim não vai dar, tem de ser de outro modo…” o que fizeram foi cortar o financiamento até que mudassem de ideias e aceitassem as suas “recomendações” que não são mais do que ideologia.


Seguiu-se Portugal, (des)Governado por um partido da mesma linha ideológica que a troika. Passos Coelho foi muito para alem das recomendações troikistas e mesmo assim não conseguiu atingir um único objectivo. Ressalva para o que foi cumprido, não através das linhas orientadoras da troika, não pela genialidade de Pedro Passos Coelho mas pela intervenção do BCE na economia europeia.
Pelo caminho chegaram-nos as notícias de um FMI que reconhece que as recomendações da tróika, da qual faz parte, não ajudam na recuperação económica podendo até dificulta-la.
Ainda antes das eleições a Europa dava o alerta que as políticas de esquerda poderiam trazer retrocessos económicos a Portugal (mais ainda?).


Apurados os resultados, aquele que nunca foi Presidente de todos os portugueses, na linha ideológica dominante, preferiu dar posse à PaF, sempre sublinhando os tais de acordos externos e os problemas que poderiam surgir de um Governo de esquerda.
A esquerda convergiu e o PS tomou posse e os mercados pouco se importaram com o facto. Permaneceram tranquilos ao contrário do anunciado.
A troika e a Fintch vêm agora dizer que draft do Orçamento de Estado para 2016 é irrealista porque espera um aumento do PIB acima do que eles esperam e não contempla uma descida do défice 0,6% como o pretendido por Bruxelas mas sim uma descida de 0,2%.
A Fintch naturalmente promete impor a crise cortando o rating nacional, ou seja, promete-se plantar uma crise que não existe.


Aparentemente as promessas políticas praticam-se até entre políticos.
Facto é que ao longo dos últimos 4 anos o défice ficou sempre aquém do esperado pela troika, foi preciso vender muito do país para cumprir o défice e muito malabarismo contabilístico para aparentar o cumprimento do objectivo. Ao mesmo tempo, e ao contrário do objectivo, a divida publica nunca parou de crescer.
Desta feita, um Governo apresenta um Orçamento que não foi escrito para agradar mas que pretende ser mais realista em números e progressista nas propostas. Se lá viessem umas contas inventadas a dizer que o défice iria descer 2% e o PIB iria crescer 3%, no fim de 2016 acusavam a derrapagem por imponderáveis e ficaria tudo bem.


Mas um Governo de esquerda que governa porque convergiu com os restantes partidos de esquerda, isso faz muita confusão à ideologia dominante e é preciso armadilhar o caminho.
O Partido Socialista vive agora um problema para agradar a gregos e troianos, ou seja, não pode falhar com o acordado com o Bloco de Esquerda e Partido Comunista ao mesmo tempo que não pode desagradar muito a troika sob pena de lançarem novamente a praga de uma crise que venha a derrubar este Governo.
Seria tão simples como voltar a aumentar as taxas de juro…


Conclui-se assim que a troika não tem nem pretende ter razão sobre o modelo que leva à recuperação e crescimento económico. Querem apenas continuar o seu caminho ideológico custe o que custar, custe a quem custar.

Dinamarca Eleva Muros aos Refugiados

 

 

Quando se fala de uma sociedade evoluída, olhamos imediatamente para o norte da Europa, sobretudo para os países da Escandinávia.
Eles parecem servir de farol para onde nos queremos dirigir.
A verdade é que a distância física e alguns gráficos permitem-nos absorver o positivo e ignorar o ruido das facetas menos positivas desses povos.
Mesmo assim, de tempos a tempos somos forçados a confrontar-nos com o seu lado lunar, aquele lado pelo qual não nos queremos guiar, antes pelo contrário, nos queremos distanciar o mais possível.
A Europa e o mundo não têm conseguido dar uma resposta funcional à crise na Síria e resultante maré de refugiados que diariamente tenta chegar ao velho continente. Na falta de resposta colectiva, os países de fronteira e países de destino final têm promovido medidas que julgam funcionar.
Para alguns países o processo passou pela elevação de muros físicos. Outros elevam fronteiras psicológicas e outros, como é agora o caso da Dinamarca, colocam barreiras à existência.
O Parlamento Dinamarquês aprovou a lei que permite confiscar até 1300 euros a cada imigrante podendo para isso revistar a bagagem. Os refugiados apenas podem trazer até si os seus filhos ao fim de 3 anos e especificamente para os sírios, estes só têm garantido 1 (UM) ano de protecção.
Em rigor, os 1300 euros servem de caução para aceder ao país, ou seja, se precisarem de algo do Estado, este já se acautelou com 1300 euros de contas pagas antecipadamente.
A partir daqui, é uma política anti-refugiados, um atentado aos Direitos Humanos. O sujeito que foge da guerra, mesmo seguindo à frente para encontrar um porto seguro, não quererá deixar a sua família directa como alvo das piores atrocidades possíveis e imagináveis. Ao dizer que um refugiado só poderá fazer chegar até si os seus filhos ao fim de 3 anos, isto é o mesmo que dizer ao sujeito: “podes ficar aqui sabendo de antemão que estás a correr sérios riscos de condenar a tua família à morte.”
O peso é ainda maior se o refugiado for sírio porque apenas lhe é garantido o estatuto de refugiado durante 1 anos, colocando-o numa condição em que desconhece a língua do país de acolhimento, terá francas dificuldades em encontrar emprego e mesmo que ao fim de 3 anos traga até si os seus filhos, sabe que não estarão protegidos.
O que os dinamarqueses aprovaram hoje está longe de ser algo de uma sociedade moderna e progressista. É uma medida característica da idade média, mais mesquinha que a lei criada por D. Manuel que pretendia expulsar os judeus ou converte-los em Cristãos-Novos quando antes tinham sido acolhidos por D. João II a troco de uns Vistos Gold de 8 ducados de ouro.
A Europa em geral vive hoje num clima de medo e tal como uma ostra, fecha-se sobre si própria ao mínimo sinal de alarme. A verdade é que fechando-se ou não, o problema não se resolve e só tenderá a ser cada vez maior se não se resolver, não o problema europeu mas sim o problema da Síria, do Daesh e de todos os movimentos extremistas que orbitam países sem regime instituído ou regimes frágeis e facilmente tomados de assalto por estes grupos extremistas.

Cavaco não é o meu Presidente!

Dia 20 de Novembro corri desalmadamente para a Assembleia da República onde já me esperava a minha gente. Não podia perder a votação final sobre a adopção por casais do mesmo sexo, não podia perder ao vivo um dia bonito pela igualdade. E se foi bonito! Houve abraços e beijos a gosto, saímos mais felizes, mais modernos, mais europeus, mais gente. E dissemos uns para os outros que agora só falta o Cavaco estragar tudo. E estragou. Cavaco Silva nunca foi o Presidente de todos os Portugueses, foi sempre o Cavaco mesquinho, pequenino e vingativo que nós já conhecíamos. Não me esqueço de que quando José Saramago morreu, o único Nobel da Literatura Português, o Presidente da República não compareceu ao funeral porque Cavaco não gostava de José. Cavaco não soube ser Presidente de todos e todas ,nem naquela altura nem agora, porque nunca soube distinguir que o Presidente da República Portuguesa não era Cavaco Silva e os seus ódios mas sim a representação de todos os Portugueses. Eu sei que mal chegue à Assembleia da República a lei da adopção por casais do mesmo sexo fica promulgada e agora já não há veto Presidencial que possa impedir a igualdade. Mas o que me choca é que Cavaco impediu, por pura birra, a modernidade e a felicidade de muitos cidadãos, eu incluída. Eu, que não sou lésbica nem bissexual, que posso adoptar, engravidar casar e recasar com quem quiser, não sou uma cidadã completa porque muitos cidadãos do meu País também não são. Saber que amigos ainda não conseguem co-adopar o filho criado e gerado naquela relação porque são homossexuais indigna-me, fere-me e envergonha-me. Não, Cavaco nunca foi o Presidente de todos os Portugueses. Não, Cavaco não é o meu Presidente. E dia 9 de Março abrirei a garrafa de champagne e, finalmente, brindaremos à liberdade

 

Maria Oferece Belém a Marcelo

 

 

Ao contrário da grandiosidade de Sampaio da Nóvoa que acolheu a sua derrota ao mais elevado nível democrático, eu não considero que esta vitória, a de Marcelo Rebelo de Sousa, acrescente algo de positivo ao país.
Não preciso repetir todos os argumentos que apresentei aqui nos últimos tempos. Resta-me apenas aceitar o resultado, estar atento e desejar que Marcelo Rebelo de Sousa me engane e represente mais do que Portugal, os portugueses que hoje o elegeram.
Mas como ganhou Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta?
A resposta óbvia é que sempre existiu essa probabilidade através de anos e anos a fazer campanha dissimulada de comentador.
No dia 18 de Janeiro escrevi que “Maria de Belém foi ao fundo!” e efectivamente não me enganei. No entanto nunca imaginei que fosse TÃO ao fundo e no processo deturpasse tanto os resultados eleitorais.
Como ela chegou aqui já sabemos. Henrique Neto nunca seria apoiado pelo PS, Sampaio da Nóvoa não era parte dos quadros do PS e António Costa esperava por António Vitorino ou António Guterres. Nenhum deles se disponibilizou e a ala, talvez mais de Assis do que de Seguro empurrou Maria de Belém para as presidenciais. Agarraram numa senhora sem carisma, sem presença e que não causa empatia e talvez esperassem que por ser da gerigonça socialista, ela teria o apoio do partido. António Costa ficou entalado entre a sua opção, e de muitos socialistas, por Sampaio da Nóvoa e uma candidata saída da pretensa oposição interna.
Ficou assim numa tentativa de ficar bem com Deus e com o diabo.
A bomba das subvenções estourou nas mãos de Maria de Belém e passou de uma sondagem que lhe dava perto de 20% para um resultado de 4,24%. Maria de Belém não teve uma derrota, teve um desastre!
Mas se nessa altura Marcelo tinha 52,5% e hoje venceu com 52%, para onde foram os votos de maria de Belém?
Sobretudo para três candidatos. Que mais beneficiou foi sem margem para dúvidas Marisa Matias. Passou de uma sondagem de 4,8% para um resultado de 10,13%. Outro beneficiado foi Tino de Rans ou se preferirem Vitorino Silva que de uma sondagem de 0,2% conseguiu 3,28% a morder os calcanhares ao candidato do PCP, Edgar Silva.
En passant o PCP na pessoa de Edgar Silva foi o 2º maior derrotado destas eleições onde nem sequer o seu eleitorado tradicional votou no seu candidato. Por muitas voltas que queiram dar ao texto, esta é uma noite de derrota e mais uma vez, o Bloco capitalizou mais e melhor.
Sampaio da Nóvoa, naturalmente que absorveu muitos dos votos de Maria de Belém correspondendo ao repto de António Costa para que os socialistas votassem num dos dois candidatos. De 16,9% na sondagem conseguiu conquistar 22,89% dos votos. Para uma candidatura independente foi um enorme feito.
Por fim, é preciso responsabilizar directamente Maria de Belém por não se concretizar uma segunda volta. A verdade é que na sua vontade de não abdicar dos seus direitos e assinar um pedido ao Tribunal Constitucional para analisar o corte das subvenções vitalícias, uma percentagem dos seus votos saltou para Marcelo Rebelo de Sousa.
Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito na primeira volta por uma margem de 24 104 votos num universo de 4 737 273.
Podemos também apontar o dedo aos 52% que não se deram ao trabalho de participar mas esses não iriam participar de qualquer forma.
Maria de Belém não chegou a Belém mas ajudou Marcelo a chegar lá.
De ora avante estaremos atentos ao trabalho do novo Presidente da República e aqui estaremos para denunciar cada passo em falso que dê da mesma forma que aqui estaremos para elogiar o que for de elogiar.

Quem mais media, mais mente?

 

Portugal está longe, felizmente, de Hungrias e de Polónias em matéria de violação de direitos fundamentais. Mas, tal como em muitos outros estados-membros da UE, existe no nosso país um sério problema de pluralismo dos media. Pilar essencial da democracia, uma vez que os meios de comunicação social desempenham um papel crucial na garantia da transparência e da liberdade de expressão, os media têm um impacto real sobre a opinião pública e na participação dos cidadãos, nomeadamente nos processos decisórios.

 

O objetivo da independência dos media consiste em assegurar que todos operam em terreno igual: para opiniões diferentes, oportunidades iguais de ter uma voz e de ver as suas ideias alcançarem um mesmo número de cidadãos. Mas à questão da independência e do pluralismo dos media, deve-se acrescentar o direito a ser informado: o leitor ou o telespectador tem o direito de saber se o que está a ler ou a ver foi submetido a um tratamento enviesado da informação. Chama-se a isto, por exemplo, “declarações de apoio”, ou endorsements, por parte dos meios de comunicação social e é prática comum em muitos regimes democráticos, mas totalmente inexistente em Portugal. Por aqui, a falsa neutralidade acaba por ser tão nociva ou mais para a liberdade de expressão.

 

O leitor deste texto tem, desde logo, o direito de saber que a sua autora é apoiante de António Sampaio da Nóvoa: deverá assim ler estas linhas na posse desta informação e interpretá-las como bem entender, firme no seu espírito crítico.

 

Em Portugal, a discussão de se os meios de comunicação social devem ou não apoiar formalmente candidatos limitou-se, nos últimos anos, a editoriais e a artigos dos provedores do leitor e/ou espectador. Mas é tempo deste debate passar à esfera pública: tornou-se uma questão decisiva para a nossa democracia. Exemplo disso é o tratamento que a esmagadora maioria dos media portugueses tem dado aos muitos, e todos legítimos, candidatos à Presidência da República — e que não respeita os standards de uma democracia saudável. Tal como não respeitou, aliás, nas últimas eleições legislativas, nem sequer nas europeias de 2014.

 

O jogo está viciado, seja porque os órgãos de comunicação social têm de facto uma agenda política, seja porque preferem obedecer a estratégias de mercado muito próprias — mas facto é que assistimos todos os dias em Portugal a uma desavergonhada campanha paralela que não serve nem os propósitos da informação, nem os do pluralismo, nem os de uma democracia.

 

Os media têm vindo a alimentar uma máquina que, se se tornar num monstro, terá como primeira missão a de acabar com eles. Se não fosse tão grave, seria irónico: os primeiros prejudicados serão sempre os jornalistas.

 

 

Aves Raras ou O estranho caso das críticas à nova segunda-circular

Recentemente foi conhecido um projecto da Câmara Municipal de Lisboa para a segunda circular, que pretende modificar profundamente esse eixo rodoviário. A ideia é reduzir a largura das faixas, baixar a velocidade máxima de circulação, repavimentar com um material que diminua o impacto sonoro e, o ponto principal deste plano, arborizar as laterais e o separador central da segunda circular. Boa iniciativa, certo?

 

Errado. Pelo menos para 3 entidades que se apressaram a criticar o projecto, mal este foi colocado em consulta pública. São elas a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, o Automóvel Clube de Portugal e a Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea (APPLA). Já seriam de esperar reacções negativas das duas primeiras entidades, no fundo eles representam um sector que aposta na mobilidade numa perspectiva individualista tendo no carro o seu veículo de eleição. Tudo o que seja feito para diminuir a acessibilidade de veículos à cidade, regrar as velocidades ou disciplinar o trânsito, é visto como um vil ataque à liberdade de “levar e deixar o meu carro onde muito bem queira ou me apeteça”. É evidente que este tipo de medida tem de ser contrabalançada com uma aposta efectiva no transporte público. Com esta equação resolvida poderemos finalmente começar a quebrar a hegemonia do automóvel, principalmente nos grandes certos urbanos, locais de maior concentração populacional, onde nos deparamos com graves problemas no que concerne à qualidade do ar.

 

Mas é a posição da APPLA que mais curiosidade me suscita e sobre a qual me queria debruçar. Diz esta associação que a plantação de árvores nas imediações do Aeroporto da Portela, constitui um perigo para a aviação, pois são um chamariz para os pássaros. É certo e sabido os problemas que a aviação enfrenta com as aves. A convivência num mesmo espaço aéreo é o principal. A associação afirma estar atónita com o facto da Câmara de Lisboa não ter ouvido previamente as entidades aeronáuticas. Em sua defesa, a edilidade afirma que este projecto não colide com a segurança aérea, pelo que não se julgou oportuna qualquer consulta prévia. Até pode ser verdade... Mas mal, não fazia.

 

No entanto, é curioso cruzar isto com as declarações da APPLA feitas a propósito da opção normalmente designada por Portela + 1, relativamente às Bases Aéreas para complementar a actividade do aeroporto de Lisboa. Em Maio de 2012, o presidente da associação à data, rejeita liminarmente as bases militares de Sintra e Alverca das possíveis opções – http://noticias.sapo.pt/nacional/artigo/aeroporto_complementar_3592.html. Já no que respeita à Base Aérea n.º 6 no Montijo admite alguma penalização ambiental, mas que seria possível adoptar procedimentos para minorar esses impactos. Para o leitor mais incauto que não percebe muito bem o porquê deste revivalismo, gostava de esclarecer que a Base Aérea n.º 6, no Montijo, é banhada pelas águas do rio Tejo. O estuário deste rio é considerado como um refúgio para diversas espécies de aves, que aí vivem e nidificam durante todo o ano. Isto quer dizer que é muito perigoso plantar árvores junto de um aeroporto, pois tal pode atrair as aves. Mas é perfeitamente viável espetar com um aeroporto comercial de voos low-cost no meio de uma área de especial importância ecológica, onde as aves já lá estão.

45. Base aerea.JPG

Fica portanto claro que o problema está nas aves esbarrarem com os aviões; o contrário, ou seja, os aviões esbarrarem com as aves é uma não-questão...

 

Montijo, 20 de Janeiro de 2016

Maria de Belém foi ao fundo!

 

Vamos imaginar que a candidatura à Presidência da República é um naufrágio e cada um dos dez candidatos conseguiu sobreviver em condições diferentes. O objectivo é sobreviver até 24 de Janeiro e viverá o primeiro a chegar a terra-firme.
Marcelo Rebelo de Sousa já sabia que iria naufragar e levou 15 anos a preparar o incidente. Tem um pequeno barco equipado com tudo e tirando o abalroamento no encontro com Sampaio da Nóvoa, tem sido um ameno passeio.
Sampaio da Nóvoa por seu turno fez-se ao mar apenas com uma bóia mas com arte e engenho tem construído uma jangada sólida com o que vai apanhando do mar. Conseguiu fazer uma vela e tem uns remos construídos de umas tábuas que por ali flutuavam.
Edgar Silva e Marisa Matias partiram em pequenos botes previamente guarnecidos pelos seus partidos mas não têm saído do mesmo sítio. A maioria dos restantes fizeram-se à água em bóias e com melhores ou piores argumentos, com melhores ou piores intenções, a verdade é que continuam a boiar precisamente no mesmo sítio onde iniciaram a viagem e não se vislumbra que isso se altere.
Deixei Maria de Belém para o fim de propósito. Ela, ao contrário da maioria não caiu. Foi atirada para a água por uma franja decadente do seu partido. Na falta de melhor, julgou ser a opção natural dos seus camaradas de partido, mesmo aqueles que internamente não estariam do seu lado. O lado decadente do seu partido atirou-a ao mar com boas condições de navegação e durante muito tempo, ainda que longe de Marcelo Rebelo de Sousa mantinha-se a ilusão que numa segunda volta, tanto a oposição interna do seu partido como todos os outros partidos lhe iriam dar apoio e assim teria, ainda que pequena, uma hipótese de enfrentar o candidato da direita.
Mas Sampaio da Nóvoa dos destroços conseguiu uma boa embarcação e foi ele a atiçar o adversário de todos os outros.
As sondagens deram agora vantagem a Sampaio da Nóvoa e a partir dai, Maria de Belém ergueu-se na sua embarcação e caiu à água. Caiu para nunca mais apanhar a embarcação!
António Costa não pode dar um apoio declarado a Sampaio da Nóvoa. António Costa não venceu declaradamente as legislativas e para hoje governar teve de negociar a sua posição. A sua posição dentro do partido é frágil e não se pode dar ao luxo de dar mais motivos à oposição interna para lhe tirarem o tapete à primeira oportunidade.
Mas a verdade é que todos os trunfos do PS prestam apoio ao PS desde o poker de Presidentes da República, Mário Soares, Jorge Sampaio, Ramalho Eanes e onde já incluo Sampaio da Nóvoa, ao actual presidente do PS. Já Maria de Belém apresenta figuras de um outro naipe, menos vistoso, menos forte, menos capaz.
Maria de Belém desespera e diz “Era o que faltava que fosse mais importante apoiar independentes do que socialistas”.
Maria de Belém sabe que conta com os votos dos que estão descontentes com a tomada do poder no PS de António Costa e da sua convergência à esquerda. E mesmo que viesse a conquistar o direito a uma segunda volta, pouco mais conseguiria que isso mesmo.
A verdade é que estes dias têm demonstrado quem tem efectivamente perfil para ser Presidente da República Portuguesa.
Ao primeiro sinal de contrariedade Marcelo Rebelo de Sousa argumenta “era o que faltava aparecer aqui um sujeito que quer passar de soldado raso a general…”. Para ele não importa a qualidade, apenas a tradição e o elitismo.
Maria de Belém é isso e ainda pior. Passou de uma cópia de Cavaco Silva e falar muito sobre nada onde incluiu “eu estive em TODAS as causas em que esteve o PS”, o que só por si demonstra uma clara falta de critério de uma “maria-vai-com-as-outras” ao mesmo tempo que usa do mesmo argumento que é general e não admite o soldado raso a ocupar o mesmo espaço.
Se não existisse Sampaio da Nóvoa, votaria Marisa Matias e na falta desta, Tino de Rans que pelo menos, apesar de não ter a bagagem dos outros candidatos é genuíno, coisa que não se encontra na larga maioria dos candidatos.
Maria de Belém vai ao fundo. Afinal fez-se ao mar numa jangada de pau oco e ela afinal nem sequer sabe nadar nem ninguém está disposto a ajuda-la. A jogada terá um preço elevado e talvez nunca mais volte a ter o protagonismo dentro do PS que teve até agora. E ainda bem…

Marcelo Rebelo de Sousa Será Um Vírus Letal?

 

 

O perigo maior para a humanidade são os vírus. Podem ser altamente letais e ao contrário das guerras, estes não podem ser controlados pela vontade do Homem. Um desses exemplos fará dentro de dois anos o seu centenário, a peste espanhola. A partir de um vírus morreram no mundo cerca de 40 milhões de pessoas. O vírus causador foi o vírus da gripe sobre o qual temos ouvido falar mais recentemente, o H1N1.
O nosso problema com os vírus, sobretudo o da gripe, é que eles vão alterando a sua morfologia externa de modo a não serem reconhecidos pelas nossas defesas enquanto por dentro continuam a ser o mesmo vírus do costume, altamente destrutivo. Quando o nosso organismo o reconhece como um factor destrutivo do nosso organismo, por vezes é tarde demais tendo causado danos irreparáveis ou mesmo a morte.
Lidamos hoje, em Portugal com o candidato e vírus Marcelo Rebelo de Sousa.
Marcelo Rebelo de Sousa nasceu e cresceu no ceio de uma família ligada ao regime Salazarento e a Marcelo Caetano deve o seu nome.
Tal como um filho que tem pais que apreciam opera, este ao crescer ou a ama ou a odeia. Marcelo é dos que ficou a amar o mesmo amor familiar e ainda que se tenha adaptado aos novos tempos e às novas formas de estar na política, a verdade é que continuou nas profundezas do espirito conservador e elitista. Não é difícil encontrar referências de oposição ao Estado Social ao longo dos últimos 40 anos, desde o SNS à educação pública.
Mas tal como um vírus, Marcelo Rebelo de Sousa foi mutando a sua postura, a sua imagem e o seu discurso para não agitar muito as águas do poder de modo a permanecer como comentador em prime time e ao mesmo tempo aparentar ser a voz do organismo vivo, os cidadãos.
Não é preciso ir muito longe no tempo para o escutar a criticar diversas medidas de Pedro Passos Coelho para depois o apoiar em campanha.
Este vírus julga ter agora a porta aberta para penetrar o organismo e fazer dele o seu hospedeiro. No seu discurso, e numa tentativa de distrair ainda mais os anticorpos, diz agora que “está à esquerda da direita” de modo a facilitar a conquista de votos de que está à direita da esquerda.
Mas Marcelo é Marcelo tal como um vírus é um vírus. Marcelo e o vírus confundem-se e os seus objectivos são em rigor comuns, um hospedeiro que lhe facilite a obtenção dos seus objectivos ideológicos.
A malta da direita sabe que esta é a oportunidade de tomar o poder ou pelo menos quanto muito balanceá-lo mais para a direita com a útil ferramenta de demitir um Governo. Estes certamente que não faltarão ao voto!
Compete-nos a nós, o hospedeiro-alvo, aos cidadãos colocarem-se em guarda e defenderem-se de mais uma investida, de mais uma tentativa de destruição dos direitos e garantias dos portugueses.
Um vírus pode dar uma febre passageira e uma dor de cabeça tal como o vírus da gripe comum, ou pode ser letal para muitos como a peste espanhola.
Vamos experimentar votar em Marcelo Rebelo de Sousa para ver se é só uma dor de cabeça ou a morte do artista?

BANIFicação

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À mesa do Estado sentam-se os gordos banqueiros. Está prestes a ser servido mais um banquete de injecções de capital público para saciar apetites privados. São como bolinho de CoCo cozinhados com ardil. É sempre bizarro observar aqueles que vêem a despesa pública como uma conta de mercearia arranjar sempre uma despesa repleta de mantimentos quanto toca a alimentar os privados. Quando há lucros, os dividendos pertencem aos accionistas. Quando há bancarrotas, é o contribuinte que paga a factura. E neste caso nem se pode colocar o NIF para depois entrar nas despesas de IRS… Seria interessante que as declarações de rendimentos dos contribuintes portugueses passassem a mencionar a quota-parte devida a cada um nos resgates bancários.

 

Mas tem de ser assim… Os gestores privados são do mais competente que existe. Eles sabem o que estão a fazer. E o risco é sistémico. O sector da finança está claramente sobredimensionado para a nossa economia. Mesmo na realidade europeia isso acontece, mas não podemos deixar bancos falir. Passa uma mensagem errada. Nestes casos o melhor é pagar o Estado, com os seus cofres cheios. Já não há dinheiro? Pede-se à troika. Já não há troika? Pede-se aos mercados. Os mercados estão nervosos? Dá-se-lhes um xanax. Não há dinheiro para xanax prescreve-se um genérico e garante-se a cura financeira com o esforço do contribuinte. Vai mais uma dose de austeridade para manter a confiança dos investidores. É remédio santo.

 

Assim se faz economia no actual paradigma neoliberal. Depois das nacionalizações e das privatizações, eis que surgem as “banificações”. Um modelo híbrido onde o que é tóxico nacionaliza-se e o que é lucrativo privatiza-se. Ao Estado cabe os riscos, dívidas e prejuízos, aos privados cabe a difícil tarefa de ficar a gerir a parte boa do negócio. Não há alternativas a isto? Evidente que sim. O que não há é vontade política para romper com este círculo vicioso e terminar de uma vez por todas com a imposição de regras ao poder político pelos grandes interesses económicos.

 

Estas influências podem ser invisíveis, mas as consequências são bem reais. Que o diga a carteira do contribuinte. Muito provavelmente não sobreviveremos a outra “banificação” sem mais uma dose maciça de austeridade. É preciso perceber o quanto antes que lixo foi varrido para debaixo do tapete da alta finança. E sanear tudo de uma vez. Nada pior para a confiança do que a constante suspeita de que um novo BANIF, BES, etc., vem a caminho. Alguns economistas gostam de utilizar a expressão “não há almoços grátis”. Nestes banquetes estatais tem sido o contribuinte sempre a pagar a conta. Mas já chega de caviar. De futuro, comam bifanas. Diz que a carne de porco está muito em conta…

 

Montijo, 14 de Janeiro de 2016

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