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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Da impreparação ao “inconseguimento”

Quando se fala de abertura da democracia à participação cívica surge sempre a desculpa da hipotética impreparação da sociedade. Já foi utilizada noutros tempos, quando se dizia que o país não estava preparado para a democracia. Cria-se sempre a ilusão de que as pessoas não são capazes. E planta-se na sociedade a semente da dúvida. Tratam-se os cidadãos de forma infantil e desadequada, esquecendo-se um princípio óbvio; todos os políticos emergem dessa mesma sociedade.

 

Em Portugal nunca tivemos uma população activa tão qualificada. Fruto em larga medida do ensino público e da possibilidade de acesso à educação por parte de todos. Em pleno século XXI continuamos a colocar entraves à participação da população na vida política. A maior parte dos obstáculos vêm dos próprios partidos políticos. É certo que tem havido alguma abertura em certas áreas. O caso dos movimentos de cidadãos que, devidamente organizados e formalizados, podem concorrer a eleições autárquicas é disso exemplo. Mas o ridículo toma conta quando nos apercebemos que muitos destes movimentos, que concorreram nas eleições de 2013, terão de se formalizar novamente e passar pelo processo de recolha de assinaturas caso pretendam concorrer às autárquicas de 2017. Isto configura uma desigualdade de tratamento enorme relativamente aos partidos políticos que se apresentem a idêntica votação.

 

O mecanismo de orçamento participativo, que já foi implementado em diversos municípios, é uma boa forma da cidadania se envolver activamente na política local, apresentando projectos que possam melhoram a qualidade de vida dos munícipes. Mais do que uma opção das Câmaras, este devia ser uma imposição legal. E poderia ser alargado também às Juntas de Freguesia, com verbas mais simbólicas e objectivos mais singelos. Este tipo de iniciativa faz com que as pessoas concluam que as suas ideias e participação valem a pena.

 

A deliberação cívica é um procedimento que começa a estar em voga em muitos locais do mundo. Tem diversos níveis e modelos. Existem câmaras comuns, constituídas por cidadãos que se candidatam a essas funções e que executam trabalho levado em linha de conta pelo poder legislativo, como se passa por exemplo na Islândia. Por outro lado, temos modelos nos quais grupos de cidadãos selecionados aleatoriamente, são constituídos para estudar assuntos específicos e propor soluções ao poder político. Na maior parte dos modelos desta espécie, as propostas são referendadas e caso recolham retorno positivo, são aplicadas pelos respectivos órgãos políticos. Esta espécie de assembleias populares podem também ser reunidas para apresentar conteúdos próprios que julguem de aplicação adequada pelo poder político. Normalmente os mais conservadores acenam com o medo perante modelos deste género. Que semelhantes assembleias podem estar pejadas de pessoas desequilibradas ou mal-intencionadas. Mesmo que consideremos que 10% da população mundial é “ruim”, isso quereria dizer que numa assembleia de 50 pessoas, 5 seriam de carácter duvidoso, não sendo de forma alguma suficientes para determinar o sentido das suas deliberações.

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No caso dos partidos políticos e das suas escolhas para eleições, vemos e revemos, ano após ano, as mesmas caras. Democratizar a organização interna dos partidos seria de todo o interesse. As direcções partidárias são as responsáveis pelas escolhas dos candidatos. Isto quer dizer que um militante de base, ou mesmo um independente que se reveja nos princípios ideológicos, que não goze de especial notoriedade no seio do partido, nunca seja selecionado para constar nas listas de candidaturas, mesmo que seja das pessoas mais bem preparadas e competentes. As direcções partidárias deverão abrir a sua escolha. As primárias são uma boa opção nesta matéria. Sejam elas abertas ou exclusivas aos filiados. Para que as listas surjam da vontade do maior número possível de pessoas e assim detenham uma legitimidade acrescida. Este esforço deve partir do seio do próprio partido e não de imposição legislativa. Deverão ser os próprios militantes e simpatizantes a exigir maior transparência e democracia aos seus partidos.

 

Estes são alguns contributos que poderiam incentivar a participação cidadã e diminuir a desconfiança que existe nas instituições e órgãos de decisão, bem como o descrédito na classe política. Agora, com uma maioria progressista na Assembleia da República, resta saber qual a vontade política para tomar medidas que facilitem um cenário mais participativo. Porque para a maioria dos cidadãos esclarecidos, o exercício do voto não é suficiente. Que a eterna desculpa da impreparação não servia para construir uma sociedade de “inconseguidos”…

 

Montijo, 13 de Dezembro de 2015

Bizarrias Públicas, de Donald Trump a Pedro Arroja

O mundo está cheio de idiotas e diga-se que não é por falta de escolaridade. E se aos que têm falta de escolaridade podemos dizer que é esse o motivo de afirmações menos cabais, que desculpa dar para os outros?

 

O idiota mais famoso do momento é Donald Trump. As suas declarações não são politicamente incorrectas porque essas abalam os valores instituídos mas funcionam com base na lógica. Varoufakis foi politicamente incorrecto ao querer uma solução diferente para a Grécia. O Papa Francisco é politicamente incorrecto quando viola constantemente o protocolo e em rigor, diz o que os católicos há muito querem ouvir mas que a tradição insistia em silenciar.

Donald Trump é apenas uma mente de Trump(a) com ideias saídas far West dos pistoleiros e de uma xenofobia sem precedentes. Pior que um maluco só um bando (enorme) de malucos iguais ou piores que este que pretendem votar nele. Estre este e os líderes dos vários grupos terroristas, não vejo grandes diferenças de discurso…

Mas só vem consolidar o mito urbano que a malta norte americana não é exactamente igual a nós…

Mas o sujeito não é órfão. Tem mais irmãos até por Portugal.

Por cá, dentro do mesmo estilo temos Pedro Arroja que não é arrojado, é simplesmente parvo.

 

Desde o processo que o levou a acreditar em Deus, a bizarria sobre a adopção por casais homossexuais à privatização dos rios até aplicar de esganiçadas a deputadas do Parlamento da República Portuguesa, para este sujeito vale tudo.

Num e noutro caso eu acharia ‘aceitável’ se fosse dito sobre o efeito de elevadas quantidades de álcool mas não é o caso. É tudo natural!

Mas mesmo este, cá por Portugal tem os seus adeptos.

Mas há mais, ainda que não sejam o ex-libris também dizem as suas “coisinhas” e serem pessoas mediáticas dá-lhes um valor agravado.

Um deles, e apenas como exemplo por ser recente, é Nuno da Câmara Pereira e a sua declaração na CMTV sobre a sua visão sobre os homossexuais. Segundo ele é uma opção, uma moda…

Esta declaração é do mesmo calibre que o estudo publicado recentemente que nos diz que as mulheres são TODAS homossexuais ou bissexuais.

Vamos lá então a factos mais concretos: antes de tudo o resto a sexualidade é inata. Todo e qualquer sujeito saudável nasce predisposto para a sexualidade. Em última analise a natureza dotou os animais sexuados de um desejo de praticar sexo. Em toda a história da humanidade, independentemente do contexto social e cultural, existiram homossexuais o que reforça a ideia que existem indivíduos que nascem homossexuais. Fica aberta a discussão se é genético ou possa ser um banho hormonal no período perinatal. Para o caso é indiferente, apenas sabemos que ao nascer o desejo por indivíduos do mesmo sexo já está traçado.

No entanto é igualmente verdade que o contexto cultural e social influencia a sexualidade.

A sexualidade tem sido praticada de modo diferente ao longo dos seculos mas não precisamos de sair do ‘agora’ para encontrarmos ponderações diferentes sobre o sexo. O Japão é o caso óbvio de como o sexo tem leituras diferentes. Recordo-me de há alguns anos ler uma notícia que relatava que a natalidade estava a diminuir no Japão porque os jovens imitavam o que viam nos filmes pornográficos, ou seja, ejaculavam fora da vagina. Hoje, passados poucos anos o problema vai mais longe e as noticias relatam que os japoneses preferem namoradas virtuais e/ou perderam mesmo o interesse pelo sexo ao que chamam de “síndrome do celibato” .

 

Também o que hoje achamos como homossexualidade e abuso de menores já foi normativo na sociedade da Grécia Antiga. Para estes a mulher existia apenas para a reprodução ficando o prazer sexual reservado aos homens, entre os homens. Segundo Kenneth Dover existia uma relação em que o mais velho e de maior status social seria o activo ao passo que a posição passiva ficaria reservada ao mais jovem e/ou de mais baixo status social. Era praticada a pederastia onde um sujeito de mais elevado status tomava a seu cuidado um jovem adolescente. Ao mais velho competia educar e proteger o mais jovem. A sexualidade fazia parte desse processo.

 

Hoje todos consideramos que a Grécia Antiga foi um marco de elevada importância para o nosso modelo social.

Conclui-se assim que podem existir pessoas que são homossexuais por opção ou por estarem num contexto facilitador para a homossexualidade ao passo que outros, independentemente do contexto já o são antes deles próprios se aperceberem.

O que me preocupa é a homofobia.

O que me importa a mim ou a outro qualquer cidadão quem é que cada um leva para a cama ou partilha sentimentos?

Um casal homossexual tem para mim tanta relevância como o casal heterossexual que mora no apartamento do lado. É-me indiferente!

É-me indiferente que esse casal do prédio do lado esteja agora a praticar sexo, é-me indiferentes as suas preferências sexuais, se usam a posição do missionário, se gostam de sadomasoquismo, se fazem swing, o que comem ou o que bebem. A liberdade deles começa da porta deles para dentro tal como a minha. A minha liberdade em espaço pública aplica-se a todos, ou seja, não pretendo ver nem heterossexuais nem homossexuais a praticar sexo na via pública (sendo que já vi ambos os casos…).

Mas se a vida dos outros nos é indiferente e se até pretendemos que os outros respeitem a nossa privacidade e liberdade, porque é que existem indivíduos de sobranceira moral sempre a interferirem com a vida dos outros como se falassem de uma colonia de formigas?

 

Porque é que há gente que critica o outro ou porque é homossexual, ou muçulmano ou seja lá o que for de diferente da nossa sociedade estandardizada?

Quando assumirmos a expressão “vive e deixa viver”, perdemos o motivo para metade das guerras e para muita da violência a que assistimos. A outra metade reporta ao dinheiro mas essa é mais complexa de solucionar…

Não há desculpa

Façamos um exercício:

 

Sampaio da Nóvoa;

Rebelo de Sousa;

Maria de Belém;

Edgar Silva;

Marisa Matias;

Paulo Morais;

Henrique Neto;

Manuela Gonzaga;

Graça Castanho;

Paulo Borges…

 

Assim de repente são os nomes que me ocorrem. O que têm em comum? A candidatura à Presidência da República. Dez nomes que pretendem concorrer à eleição para o mais alto cargo da nação. Mesmo que 2 ou 3 destes não cheguem a formalizar o seu processo de candidatura, sobrará um número considerável de candidatos e candidatas.

 

A pluralidade das candidaturas apresentadas cobrem quase todas as sensibilidades da sociedade. Portanto, perante tamanha oferta, deixa de fazer sentido a desculpa habitual de que não existem opções. No próximo dia 24 de Janeiro de 2016 é fulcral que ninguém se abstenha de escolher o próximo ou próxima Presidente da República de Portugal. Depois de um interregno de 10 anos, convém voltar a ter alguém que ocupe efectivamente o cargo e que zele pelo cumprimento da Constituição da República Portuguesa.

Depois de uma década a marcar passo, não há desculpas para não decidir.

Silly Season

 

A Silly Season consiste num período de pouca actividade que resulte em notícia para a comunicação social. Normalmente acontece no período de verão, sobretudo em agosto e isso é evidente porque os jornais ficam carregados de não-noticias só para encher páginas.

Curiosamente este ano a silly season está como a meteorologia, atrasada. O verão foi recheado de notícias sobre a campanha para as eleições legislativas onde as eleições presidenciais já queriam marcar a sua agenda.

De há 15 dias a esta parte vivemos a silly season de 2015.

Pegando nas eleições presidenciais, falava-se muito mais destas no verão do que agora, altura em que os candidatos já estão a formalizar as suas candidaturas. Foram chamados a intervir apenas para responderem à questão “se fossem já PR, o que fariam?”

Tirando isso, temos passado 15 dias a medir o tamanho das pilas de António Costa e Pedro Passos Coelho. Pedro Passos Coelho diz que a dele é legitimamente maior, e é, mas António Costa ajudando por Catarina Martins e Jerónimo de Sousa (de olhos fechados como diria Álvaro Cunhal) a puxar, consegue uns centímetros a mais.

Umas bocas da direita e consequentes pateadas da esquerda, um aplauso de pé a esquerda à rejeição da moção de rejeição (mas levantaram-se a custo, sobretudo na bancada do BE que tiveram de ser empurrados pela Mariana Mortágua a bem da imagem de convergência).

Uma bancada de direita que não sabe que se elegem deputados e não Primeiros-Ministros, um Primeiro-Ministro que não sabe que tem de responder em parlamento e não mandar ouvir debates da TSF…

E pronto, tem sido só isto.

Verdade Conveniente

 

Em determinada altura da juventude, numa saída nocturna animada por algum álcool, já não me recordando do motivo pelo qual o fiz, coloquei na mesa que a palavra ‘gaija’ tinha origem em ‘gueixa’ e que foi importada pelos jesuítas quando navegaram pelo Japão. Com as nuances do tempo e aportuguesamento da palavra, resultaria assim na ‘gaija’ dos nossos dias.

A informação foi recebida por alguns com um ar de desconfiança mas numa altura em que a internet ainda não andava no bolso, a contestação foi residual e acredito que alguns levaram mesmo a informação para casa como sendo sólida apesar de ter sido ali inventada no momento.

O Jornal i e o Jornal Sol vão este mês encerrar as suas portas dando origem a um novo projecto com 1/3 dos colaboradores. Não são os primeiros casos nem serão os últimos. Na verdade sempre se verificaram aberturas e fechos de publicações, no entanto até há pouco tempo os leitores iam-se transferindo das publicações que encerravam para outras já existentes ou para novas que fossem surgindo.

Agora, desde a massificação da internet e sobretudo do facebook, tudo tem tendência para desaparecer. Já não sem compram discos nem se devoram as letras das músicas enquanto o disco gira no prato e se saboreiam os acordes. Nem sequer os CD’s da era digital se compram. Quando não é pirataria compra-se o formato digital ou se usa um serviço do estilo do MEO Music e lá se vai para a rua de headphones nos ouvidos.

Até os livros foram convertidos em e-books e temos dezenas de títulos na mochila para ler nas horas vagas.

Sinais dos tempos…

A verdade é que não existe hoje diferenciação entre o real e a ficção.

Quando em 1938 Orson Welles emite da cadeira da sua estação emissora a Guerra dos Mundos, uma encenação radiofónica de uma invasão extraterrestre, as pessoas que escutavam a rádio assumiram-na como um facto real e o pânico instalou-se.

 

A 11 de Setembro de 2001, terminado o almoço, dirigi-me ao balcão do restaurante para pagar a refeição. Olho para cima para a televisão e assisto em directo ao impacto do segundo avião contra as torres gémeas.

 

Sem saber ainda do que se tratava o meu primeiro pensamento foi “mais um filme americano ao estilo do Tornado…”

Nestes dias em que a ficção é uma hipotética realidade, tomamos muitas vezes uma pela outra sem sabermos qual é a verdade e qual não é. Um pouco quando não sabemos bem se estamos a sonhar ou se estamos acordados.

 

As minhas referências ao facebook, ao Jornal i e ao Jornal Sol não se encontram aqui neste espaço por acaso. As redes sociais estão inundadas de pseudo-peças jornalísticas com verdades ficcionadas e distorcidas à vontade de quem as escreve por interesse ideológico ou financeiro.

Quando mais escandalosa for a suposta notícia mais esta é lida e partilhada por quem concorda mesmo sendo falsa e por quem discorda mas que sente a necessidade de a ler para a criticar e denunciar o seu conteúdo ficcionado e muitas vezes descabido.

Muitas vezes nem se percebe bem onde se inicia a obra mas para quem se dá ao trabalho de procurar a base ou origem da noticia, com facilidade irá saltar de site duvidoso em site ainda mais duvidoso, muitas vezes acabando numa noticia do passado que nada tem que ver com a agora “noticiada” e quanto mais distante for a noticia da nossa realidade quotidiana, mais facilmente ela salta da ficção para a realidade.

E depois desta, de pouco ou nada adianta tentar repor a verdade dos factos porque a verdade não é tao escandalosa ou interessante como a ‘verdade’ ficcionada.

Não é por acaso que os jornais sensacionalistas falam sempre das desgraças mas nunca acompanham a conclusão dos casos.

A verdade é que nos referimos muitas vezes à verdade inconveniente mas o que nós lemos é a verdade conveniente. Se olharmos apenas para o desporto, que para o caso acaba por ser uma ponderação light, quando uma notícia ou pseudonotícia refere que o nosso clube, olhamo-la como peça ficcionada, exagerada e naturalmente descontextualizada. Quando é de outro clube, naturalmente que se fala ali a mais pura das verdades e temos de apurar factos até às últimas consequências.

Nós, sociedade, queremos ler o eco do nosso pensamento. Quando vemos pessoas a acusar outros, mesmo sem provas, a negar ajuda e serem moralistas de coisa nenhuma, esta é na verdade a nossa verdadeira natureza. Por acaso agora o alvo fácil são os refugiados. Amanhã serão ciganos ou negros e na falta destes serão encontrados outros motivos para se odiar, marginalizar ou ostracizar alguém. Voltando ao tema de ontem, que se diverte com a desgraça alheia, que faz da morte de outros que não os seus, um motivo de festa.

São histórias do passado quando lançávamos pessoas às fogueiras? Guilhotinas? Desmembramentos?

Estes actos de barbárie existem nos nossos dias e se nós não o praticamos, não no nosso sentimento de culpa mas pela desejabilidade social que trazemos na nossa mochila, ficamo-nos pelo gaudio de ver na televisão ou na internet.

Esta é a verdade conveniente.

Rejeição

Rejeito! Liminarmente; irrevogavelmente. Nem sei bem o quê, mas rejeito. É certo que ainda há coisa de um mês incluía proposta atrás de proposta deste mesmo programa, numa tentativa de entendimento para reedição do bloco central. Mas a realidade é mutável e a minha coerência política mutante. Portanto rejeito.

 

Agora sou oposição, por isso tenho de rejeitar. Ser do contra. Desempenhar o papel que durante tanto tempo critiquei à esquerda radical (argh! asco… cospe; cospe). Criticar tudo o que à esquerda mexe. Os canhotos, filhos do demónio, derrubaram quem tinha ganho as eleições. Eu é que devia estar no governo. Tenho o orgulho ferido. Sinto-me rejeitado, por isso rejeito.

 

Será com emoção que apresentarei a moção. De rejeição, claro está. Para deixar claro que não foi este governo que o povo (palavra engraçada, esta) escolheu. Pouco interessa que nas eleições legislativas se escolham os representantes dos eleitores à Assembleia da República. E que o governo se forme a partir do peso das várias bancadas e da sua composição. Eu rejeito a democracia representativa. O povo sabe lá escolher…

 

Não é a primeira vez que a esquerda está em maioria no parlamento. O que é que lhe deu agora para se entender? Isso merece a mais pura rejeição. Não há quem aguente uma esquerda unida. E não é justo de resto. À direita somos só 2. Às vezes até fingimos que nos desentendemos só para criar suspense, mas no fundo queremos o mesmo. Que neste momento é rejeitar o programa de governo.

 

Havia ainda agenda por cumprir. Tinha coisas para vender, cultura para destruir, sociedade para esvaziar. Um país inteiro para rejeitar. Sim, renunciar a Portugal o seu futuro. Era isso que faltava… Estava quase. Só mais um mandato e se calhar cumpria o desiderato. O país cobaia neoliberal. Onde os mais desfavorecidos se ajustaram a terem cada vez menos. E mesmo assim não rejeitaram totalmente essa realidade nas urnas. Nas eleições o medo venceu. Eu colhi os louros. Ou quase.

 

Juro que lhe senti o cheiro. O odor do poder que emana do couro daquela cadeira. Ora bolas, estive tão perto e agora tão longe. Portanto só posso rejeitar. Rejeito até a minha mão esquerda. Rejeito um governo que emana da legitimidade do voto, cuja composição é normalíssima por essa Europa fora. A mesma União Europeia que era um dos compromissos que se deveria respeitar a todo o custo por um futuro governo. Mas rejeito esse pregão. Não estamos preparados para esta maturidade democrática. Rejeito o entendimento, o consenso. O único compromisso que pode existir é um que me inclua. Empáfio que sou só posso rejeitar. Tal como fui rejeitado. Pelo menos 4 vezes.

 

Montijo, 1 de Dezembro de 2015

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