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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Intervenção Cidadã

Não sei se tenho excesso de activismo ou necessidade de me exceder. No fundo é irrelevante. O importante é alimentar aquela inquietação que trago dentro de mim, que faz com que alcançado um objectivo depressa encete nova jornada. Às vezes mesmo em simultâneo, multiplicando a vontade e prolongando os dias. Assim me sinto completo. Assim faço sentido. E sem qualquer tipo de presunção, assim deveriam muitas pessoas pensar e actuar.

 

O exercício de uma cidadania activa é, em larga medida, uma forma de fiscalizar o poder político. Não basta nos tempos que correm marcar comparência nos sufrágios, quando tal acontece, e esperar que tudo se resolva pelo melhor. É essencial uma exigência constante relativamente aos órgãos de poder, quer central, quer local, fazendo o escrutínio quotidiano das suas acções. Constatar os prós e os contras, avaliar e criticar. Num movimento perpétuo, as comunidades devem permanecer alerta sobre as questões que lhe dizem respeito. Esmiuçando as variáveis; reunindo-se em grupos e comissões, fazendo a análise criteriosa das medidas que nos querem impor e formar opinião.

 

Esse é o caminho. A permanente alusão à falta de qualidade dos políticos não é suficiente para que o problema se resolva. Muito menos a generalização de que todos envolvidos nesse meio são corruptos ou que querem é tacho. O que pode ser um ponto de viragem, que se consubstancie num salto qualitativo relativamente às pessoas com poder de decisão, será a intervenção cidadã. Num papel activo ou apenas fiscalizador, a cidadania deve estar presente e exigir o máximo na persecução do bem comum, coincidente com uma rota de progresso. Num compromisso ético e numa visão sustentável do futuro.

 

Em suma, basta exigir o máximo aos nossos representantes. Com certeza que já estariam à espera disso quando se prepuseram para as funções. É uma premissa essencial das democracias representativas. Não nos podemos satisfazer com a mediocridade do discurso do possível e do mal menor. Quem se perfilou com esse espírito veio ao engano e pode retirar-se…

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Montijo, 31 de Dezembro de 2015

2015, o Ano dos Monstros

 

Tradicionalmente quando dão as badaladas da passagem de ano, cumpre-se o ritual de beber o champagne, comer as passas, cumprimentar efusivamente os presentes e proceder à formulação dos desejos para o ano que acaba de entrar.

Em alguns anos a acompanhar os desejos, sinto que o ano que se avizinha será um ano de mudança mesmo sem saber bem o que ai vem. Assim foi quando me tornei independente, assim foi quando me tornei pai, assim foi na entrada de 2015.

O ano mal tinha começado já estávamos ocupados a ser Charlie. Passámos o ano inteiro a assistir a atentados espalhados pelo mundo, incluindo um avião abatido por misseis de fabrico russo, ignorámos aqueles que nos parecem vindos de um conto de ficção, de um outro planeta qualquer mas o Bataclan não nos passou ao lado. Tem-nos passado ao lado o drama dos refugiados sírios mas a hipótese deles se refugiarem aqui já nos desperta a atenção.

A União Europeia entrou em alerta logo em Janeiro depois de assistir à vitória do Syriza na Grécia. Não era só um problema grego. Também neste ano teríamos mais países a votos pela Europa fora e ao mínimo sinal de fraqueza a política europeia poderia mudar radicalmente. Varoufakis tinha de sair e Tsipras teria de ajoelhar-se perante Merkel. A Grécia mudou de Governo mas não se livrou da austeridade.

Portugal, aqui neste canto à beira-mar plantado passou o ano ainda governado por vampiros. De mentira em mentira, de mitos de cofres cheios a injecções pornográficas de dinheiro público na banca, a terminar 4 anos em que começara por prometer cortes nas gorduras mas apenas cortou músculo e tudo ficou mais claro no cair do pano com a morte de David Daniel que morreu por falta de médicos.

Outubro foi o mês da múmia. A quatro de Outubro a esquerda conquista a maioria dos votos apesar de a PaF ter sido a força politica mais votada. Os olhos apontaram para a cada da múmia à espera do que ela poderia dizer ou fazer. É claro que tentou por tudo aguentar a PaF até onde foi legalmente possível. A PaF finalmente caiu e no dobrar do ano também a múmia será já uma história muito má da qual ninguém quererá guardar memória.

Mas a múmia lá teve de trocar os vampiros pelo Frankenstein.

O Frankenstein é a tentativa do Homem se equiparar a Deus criando vida num homem melhorado acumulando num só o conjunto de habilidades e capacidades que se encontram dispersos em diversas pessoas.

A convergência à esquerda é esse Frankenstein que poderia ser uma coisa extraordinária mas resulta apenas numa coisa, uma criatura que luta constantemente pela sua existência, pela sua preservação. Uma pitada de europeísmo do PS, uma pitada de ecologia do PEV, um pouco de luta pelo direito dos trabalhadores do PCP e um pouco de lutas mais fracturantes vindas do BE que já não são tão fracturantes mas continuam a ser apelativas aos cidadãos mais jovens.

Para mim, membro do LIVRE é e foi frustrante defender um partido que contem isto tudo e ver nascer um frankenstein politico. Ainda assim, nessa luta constante pela sua sobrevivência, é melhor um frankenstein do que um bando de vampiros!

Espanha também mudou e o bipartidarismo caiu. O Podemos não atingiu o sucesso pleno mas já teve o sucesso de acabar com o marasmo que se vivia no país vizinho.

Quando começou 2015 tinha a ideia que seria um ano de mudança. Não foram as mudanças que desejava, pelo menos na sua plenitude, mas muito mudou e promete ser apenas o início de muitas mudanças para o futuro próximo.

Certo é que vivemos dias que merecem ser vividos na sua plenitude porque são dias que ficarão nos livros de história.

Desejo a todos um 2016 profícuo e com esperança redobrada num futuro melhor!

O ano mau

2015 começou com um governo completamente ao serviço de uma ideologia neo-liberal e já em contra-relógio para cumprir os últimos passos do seu programa de desmantelamento do Estado e das instituições públicas.

Na Grécia um governo tentou sacudir o jugo da austeridade e acabou de joelhos, aceitando o agravamento das condições de vida do seu povo e a continuação da sangria dos recursos do país.

Em Paris os governos mundiais reuniram-se para tomar decisões sobre o futuro da humanidade. Na sua frente, relatórios científicos alertando para a catástrofe eminente se até 2050 a economia não estiver descarbonizada. No entanto, em vez de compromissos vinculativos para reduzir drasticamente a produção de CO2 verificou-se que a mesma vai continuar a crescer, embora (talvez) a um ritmo menor do que até agora.

O ano termina com um governo "de esquerda" que tomou algumas medidas importantes na área das liberdades, mas que na primeira prova de fogo (o caso Banif) mostrou que a política neo-liberal continua.

Nada disto faz sentido: governos democráticos e preocupados com o bem-estar dos seus cidadãos não os atiram para a pobreza e não destroem a sua própria capacidade de garantir conquistas civilizacionais ganhas a muito custo pelas gerações anteriores. A não ser...

...a não ser que esses governos sejam apenas a fachada das forças superiores dos "mercados" financeiros. Assim tudo se percebe: as privatizações, o desemprego, a impunidade dos banqueiros, a destruição do planeta.

Percebe-se, mas não se pode aceitar. Os desafios colocados hoje aos cidadãos são muito maiores do que eleger governos de esquerda numa pais da periferia europeia.

Paulo Portas e Sir Hiss

O Governo de coligação entre o PSD e o CDS-PP faz-me lembrar uns desenhos animados que via durante a infância, o Robim dos Bosques.
Naturalmente que esta comparação não é feita com o herói da história mas com o Rei João e o Sir Hiss.
Em ambos os casos a palavra dada é usada em conformidade com a necessidade do momento, podendo ser alterada, se necessário, no momento seguinte.

 


O Rei João, perdão, Passos Coelho tudo prometeu antes de ser eleito para depois de eleito fazer precisamente o oposto do que tinha dito sob o pretexto que afinal tudo era bem pior do que ele projectara. Hoje sabe-se que a troika considera que medidas mais ligeiras e uma renegociação teriam sido as medidas mais adequadas.


Sir Hiss, Paulo Portas num e noutro caso é a cobra que hipnotiza. O Paulinho das feiras, sempre a defender os velhinhos reformados, os pensionistas e de boina ao alto a defender os lavradores para depois, no Governo, não fazer nada do que prometera e aparentemente alimentar a sua carteira pele-de-cobra de mais uns milhões meio obscuros-para-os-quais-as-provas-desapareceram mas que na Grécia e Alemanha produziram resultados. E lá vai ele de irrevogabilidade em irrevogabilidade, desde o tempo em que dizia que nunca seria político até ao fim de ciclo em 2005 depois de ter perdido as eleições. Dito pelo não dito, surge como salvador do CDS em 2007 para em 2011 voltar a agarrar no trem de cozinha, um trem de cozinha modesto há que dize-lo mas já era qualquer coisa. Episódio irrevogável, demite-se por sms. Dá o dito pelo não dito com a promessa de um trem de cozinha melhorado, já com uma bimby ao seu dispor.

 


Em 2015 volta a perder o poder mas enquanto houve esperança manteve os seus discursos inflamados sobre um Governo de esquerda que segundo ele é ilegítimo. Cavaco não o escutou nem a ele nem ao Rei João. O próximo presidente ainda está longe de poder fazer algo drástico e, pelas palavras dos candidatos, nenhum deles parece disposto a derrubar o actual Governo sem uma causa clara.
Paulo Portas, “o Irrevogável” faz agora uma saída airosa em que não compromete o CDS-PP e não tem de se sujeitar à humilhação de se dar como derrotado.
Certamente, conhecendo essa cobra que hipnotiza, em breve voltará para mais uma vez tentar salvar o CDS do posso sem fundo.


E é assim, com palavras de cata-vento, movimentos ritmados embalados por uma língua viperina que um nobre de casta inferior lá se vai colocando em posições privilegiadas.
Sir Hiss regressará e isso sim é irrevogável!

Regresso perpétuo

Eis que se afasta...

Lobo e cordeiro;

Pantaleão desordeiro.

 

Eis que se arma...

Com pose de estadista,

Ideólogo contorcionista.

 

Eis que se perfila...

De forma irrevogável,

Pedantemente incomparável.

 

Eis que se protege...

Da travessia do deserto

E de um futuro incerto.

  

Eis que se resguarda...

Abutre estratega;

Do término da refrega.702826_10153986197062867_1555963627_n.jpg

 

Eis que se prepara...

Regresso salvador

Recebido com clamor.

Recolhendo o louvor,

De eterno salvador.

 

Montijo, 29 de Dezembro de 2015

É a realidade… Estúpido!

Eu juro que não queria voltar a falar no sénior que vagueia por Belém. Até porque estou bastante feliz, não pelo orçamento rectificativo como disse Marcelo, mas porque no início do próximo ano finalmente vamos vê-lo pelas costas. Essa é, indubitavelmente, uma boa notícia.

 

No entanto, Cavaco Silva insiste em continuar a apoquentar os portugueses com as suas alarvidades. E eu não consigo resistir… Recentemente declarou que “a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia”, aquando da intervenção de encerramento do Conselho da Diáspora. Não deixa de ser peculiar esta afirmação por parte de Cavaco Silva, já que este há 3 décadas que impõe a ideologia neoliberal à realidade do país. E, pior que tudo, tem alcançado sucesso. Assim sendo, e fazendo fé nas palavras do presidente da república do PSD, resta-nos esperar pelo momento em que a realidade irá derrotar esta ideologia, para que finalmente entremos numa era de progresso. O problema é que a tal realidade tem vindo sempre a provar que Cavaco está errado. Que o caminho que defende só piora a vida das pessoas.

 

Isso leva-me a outra questão. Na mesma ocasião Cavaco diz que relativamente à zona euro “os riscos de desmembramento são pequenos”. Se também aqui se vier a provar que as coisas vão a revelia do pensamento presidencial estaremos em maus lençóis. O que se tem verificado é que mesmo após as ajudas externas e os resgates constantes, a sangria financeira teima em não estancar. E por muitas operações de cosmética politico-financeira que se desenvolvam, não haverá forma de alterar os actuais problemas ser não corrigirmos rapidamente alguns vícios que arrastam o sector financeiro para o bueiro.

 

Três simples passos que devemos dar o quanto antes:

  1. Separação entre banca comercial e banca de investimento;
  2. Um papel mais activo do Estado no controlo do sector financeiro;
  3. Mais eficácia das entidades a quem compete a fiscalização e regulação (leia-se BdP).

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Se pela Europa for talvez possamos caminhar para a tal unidade económica e financeira (que, já agora, necessita também de uma uniformização fiscal). Caso contrário a realidade da Europa a duas velocidades, do aumento das desigualdades, da competição entre economias, dos dinheiros públicos transferido para os privados, impor-se-á. O que pode acarretar o falhanço da política da moeda única. Não tenhamos dúvida que isto é ideológico. E é também estúpido!

 

 

 

Montijo, 23 de Dezembro de 2015

Desculpa David Duarte, o Banif é mais importante.

Imagem do expresso.pt

 

Enquanto o Governo se desmultiplica em esforços para salvar o Banif, penalizando muitos em nome de poucos, David Duarte de 29 anos teve o azar de fazer parte dos muitos e morreu por falta de assistência médica adequada.

1º A culpa não foi do médico ou dos médicos que não estavam de serviço.

O médico, apesar de ser um genérico para o profissional, é um sujeito como qualquer um de nós apesar de ter uma formação específica. Este tem direito ao seu descanso e às suas lutas tal como qualquer outro de nós e estou certo que naquele dia de inverno se dissessem que a sua ausência iria resultar numa morte, o médico teria operado.

A culpa está a montante e noutra sede, num ou vários Governos que antecederam este que se preocupam com a relação entre custos e votos que em última análise resulta em equipas pequenas demais para os dias da semana. Este foi o tal dia em que faltou uma equipa, este foi o dia de azar para David Duarte.

Mas se este Governo não tem responsabilidade sobre os eventos ocorridos no Hospital de S. José, já não posso dizer o mesmo sobre a salvação apressada do Banif.

Tudo o que toca a vidas, seja neste fim-de-semana no Hospital de S. José, seja nas fronteiras da União Europeia onde milhares de refugiados aguardam uma solução para a sua sobrevivência, nunca há pressa. Já para salvar os Euros, a solução surge do dia para a noite.

A saber, ainda no Governo anterior tinham sido injectados 1.100 milhões de euros no Banif. Carlos Costa, Governador do BdP disse em 2013 que esta injecção não só seria recuperada como resultaria em dividendos.

O BdP, teoricamente o regulador da banca, é incapaz de regular ou sequer fazer uma previsão acertada. Mas não está sozinho porque Maria Luís Albuquerque diz agora que há um problema de supervisão depois de já ter dito, na altura a propósito do BES que era impossível uma supervisão que funcionasse em tempo útil devido à natureza, variedade e velocidade em que se produzem transacções internas e externas.

E o mal continua!

O Estado vende o Banif por 150 milhões de euros ao Santander ficando desde já a perder 950 milhões da primeira injecção de capital público, mas para formalizar a venda, pelo valor de um jackpot de euromilhões, o Estado mete lá mais 2250 milhões de euros para contingências futuras.

Isto quer dizer desde já que nós ficamos a perder 3200 milhões de euros ao que se acresce o peso do “banco mau” do Banif e ainda os funcionários que o Santander não entendeu absorver. Este montante pode ainda subir até aos 3825 milhões de euros.

Por seu turno, e por 150 milhões de euros, o Santander Totta comprou 11 100 milhões de euros em activos e depósitos ao mesmo tempo que se posiciona como 2º maior banco em Portugal. Bom negócio…

Qualquer empresa que entre em insolvência é administrada pelo Tribunal de Falências e os seus activos são vendidos em hasta pública.

A diferença entre insolvência e esta venda que o Estado fez é que não seria preciso o Estado dar dinheiro público. Eu a isto apenas chamo de roubo aos contribuintes que não contribuem, são apenas explorados.

Bem sei que para o PCP tudo devia ser Estado, mas nesta, dou o meu apoio ao PCP. Chega de sustentar a banca. Não há argumento nenhum válido que lhes permitam um tratamento ainda mais especial do que têm recebido. A Banca rouba quando vou ao banco, rouba quando não vou, rouba quando fazem uma boa gestão e roubam quando não o fazem. O que difere é o modo como somos roubados.

Enquanto o Estado não tem dinheiro para contratar mais médicos, tem milhões para desafogar bancos bem geridos. Sim, bem geridos porque há sempre um zé-povinho numa esquina próxima para espremer.

Desculpa David Duarte mas a banca é aparentemente mais importante. Desculpa…

Dois anos que bem poderiam ter sido vinte.

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Tinha para hoje preparada uma pequena intervenção que acabei por não usar e começava assim: “Ser hoje candidato à assembleia ou é masoquismo ou um acto baseado num profundo acreditar que este projecto tem pernas para andar.”

Na verdade é um misto dos dois. Há dois anos, quando me candidatei a primeira vez, apenas sabia que precisava de fazer alguma coisa para mudar o rumo do país. Tudo o que viria depois era um caminho, para mim, totalmente desconhecido e com um tão espesso nevoeiro que era impossível ver onde colocar o pé no passo seguinte.

Na primeira reunião dos Grupos de Trabalho, no Teatro Rápido, a sensação é que este caminhar sem se ver onde se colocam os pés era partilhado por todos. Daquela reunião onde estava eu, o João Bicho, a Clarisse Marques, o Carlos Melo, o Ricardo Alves e a Marisa Galiza (espero não me estar a esquecer de ninguém), saímos, no meu entender, tal como entramos, sem saber o que era suposto fazer daquilo que nos era ali delegado.

Ainda nesse dia, é preciso recordar o convite para fazer parte do que viria a ser conhecido pelo “grupo dos 9”. A assembleia animada por esse grupo, as constantes decisões feitas em cima do joelho, a constante falta de mais gente para dividir trabalho. E quanto mais caminhei, mais a mochila se encheu de tarefas. Ontem, 19 de Dezembro de 2015, foi o primeiro dia que fechei a Tab do email do TdA, esse canal de comunicação bipolar que ora de trazia mensagens de apoio e incentivo ora me trazia mensagens de criticas mais ou menos infundadas, muitas vezes escritas por pessoas que não estando por dentro do processo ali “me” usaram para desabafar.

E no fim, no dia 4 de Outubro, um murro no estomago com uma esmagadora derrota numérica. Ficaram as vitórias morais para ajudar a lamber as feridas.

Foram dois anos que pareceram dez e duplicar isto não pode ser mais que masoquismo.

Mas fi-lo.

Fi-lo por acreditar que este é o único partido com as características do nosso LIVRE.

Já basta de falar de convergência ou de primárias abertas. A convergência resultou na mão de outros e as primárias abertas até ver só são importantes para nós porque esse conceito ainda não faz parte da cultura popular.

O que nós somos não é uma coisa amorfa. Temos contornos bem definidos, objectivos concretos e pilares bem pronunciados.

Nenhum outro partido se assenta nos mesmos pilares que o LIVRE. São precisos 4 partidos no parlamento para dar um ar semelhante ao que nós somos. Temos no parlamento o Frankenstein de esquerda, de fora ficou “the real McCoy”.

E é precisamente por sermos o produto genuíno nascido e que se vai criando para o novo milénio que eu me volto a afirmar que estou cá para ajudar no desenvolvimento deste grupo apesar das dificuldades passadas e futuras.

Termino estas linhas a agradecer aos que depositaram em mim a confiança para representar membros e apoiantes na nossa mui ilustre Assembleia.

Lamento a saída de alguns elementos da Assembleia, estando certo que farão um tão bom ou melhor trabalho do que o fizeram até aqui, ainda que noutros órgãos do LIVRE.

Destes dois últimos anos, muito obrigado por todas as experiencias vividas, pelas lições de humanidade, humildade, urbanidade e por tudo o que me foi permitido aprender convosco.

Chega de agradecimentos e justificações, voltemos ao trabalho!

Portugal de pernas para o ar

 

 

Quanto mais observo o mundo, mais o vejo num percurso contrário a si próprio.

Isto assim dito pode parecer um pouco estranho mas a sua prática é ainda mais estranha. Começo aqui com um par de exemplos objectivos:

Esta semana foi aprovada a adopção por casais homossexuais. Pergunto eu se isto não será estranho se na constituição é-nos garantida a igualdade de direitos e garantias independentemente das suas crenças, sexualidade, género ou berço?

Com a camarada Rita Paulos a espreitar!

 

Numa União Europeia que tem a liberdade e democracia como vigas mestras, não será estranho agora elevar barreiras fronteiriças com base no medo e desconfiança?

Ou neste mesma UE que quer todos os países numa rota de convergência depois promove medidas que aumenta drasticamente a amplitude financeira entre Estados membros?

Lançado aqui o mote genérico, passo para o concreto.

Esta semana no Jornal Sol, surgiu um artigo que tem como titulo “Gostava de poupar 1300 euros num ano? Esta é a solução”.

Efectivamente gostava e como tal fui ler… e fui perder o meu tempo.

Resumidamente o que é proposto é poupar semanalmente o valor correspondente à semana do ano em que se está. Ou seja, na primeira semana do ano poupa-se 1€, na segunda semana 2€, na terceira semana 3€ e assim sucessivamente até ao fim do ano.

Isto equivale a uma poupança mensal de cerca de 115€.

Qual é o problema desta proposta? Quantas pessoas têm 115 euros para poupar por mês? Reformulo: Quantas pessoas têm dinheiro para poupar?

O desemprego continua a afectar 632 000 portugueses. Cerca de 10% dos trabalhadores portugueses encontram-se em risco de pobreza, ou seja, mais 550 000 portugueses. A estes temos de adicionar os filhos destes desempregados e empregados com salários pornograficamente baixos. E por fim, os desempregados não declarados, inactivos e pensionistas com pensões vergonhosamente baixas. Não estarei a exagerar se apontar para 5 milhões de portugueses que NÃO CONSEGUEM POUPAR!

Mas esta notícia não é um caso isolado. Quantas vezes recebemos chamadas telefónicas a oferecerem-nos créditos que nos ajudam a poupar?

“Você fica com este cartão extraordinário que não tem custo nenhum e estará sempre a poupar!”

Não é contraditório o incentivo à aquisição de bens com o tal de “poupar”?

Normalmente a resposta que dou a estes vendedores é “Se não comprar nada disso, poupo mais…”

A pessoa que nos telefona não tem culpa nenhuma. Foi o melhor emprego que conseguiu encontrar. Cabe-nos a nós perceber se efectivamente necessitamos de mais um meio facilitador ao consumismo imediato e muitas vezes imponderado.

Falando em comprar, e para terminar este episódio do “mundo ao contrário”, falemos da sustentabilidade.

Sem perder de vista todos aqueles que não conseguem poupar, ou seja, que compram o mais barato possível, por vezes leio notícias de páginas “verdes” a incentivar à aquisição de equipamentos economizadores. “Opte por um equipamento A++” dizem eles. Mas se eu preciso de um frigorífico e não tenho dinheiro para olhar para o economizador, quero lá saber se a letra do alfabeto onde ele se enquadra. Quero é ter a comida fresca. Comprar uma lâmpada de LEDs por 10 euros? Compro uma normal por 0,50€ que já serve muito bem.

Quem é que não queria um automóvel novo com menos avarias e mais poupadinho? Sim, porque a questão toca no custo do combustível porque ninguém pensa o quão poluente ele é!

Mas se a carteira só chega a um “charuto” com 10 anos que gasta 10 aos 100 e deita um estranho fumo negro…

O Governo mudou e espero começar a ver medidas que ponham o mundo às direitas…

Tudo é relativo – a meritocracia

Com maior ou menor frequência todas as pessoas já passaram por isso. Aqueles momentos incómodos em que tomamos conhecimento de que o discurso da meritocracia é pura patranha. O que realmente impera é a “cunhocracia”. E nós fazemos um enorme esforço para não acreditar, mas o sistema está efectivamente montado à volta do compadrio e do interesse pessoal. Alguns já sentimos na pele isso mesmo. O ferro em brasa do rótulo da mediocridade, variadas vezes imposto pelo discurso da intriga e do nivelamento por baixo por parte de quem não tem argumentos para chegar ao mesmo patamar.

 

Quando somos mais jovens, acabadinhos de entrar no mundo laboral, banalizamos a coisa; normalizamos este tipo de comportamento baseado nos laços de amizade que se possam existir entre pares. No fundo um resquício dos tempos de escola. À medida que vamos envelhecendo o caso muda de figura. E quando nos aproximamos do final da vida activa deixamos mesmo de nos preocupar. Desleixamos a nossa atitude perante episódios semelhantes. Relativizamos e encolhemos os ombros – que poderemos fazer? No fundo deixámo-nos de preocupar e o que pretendemos mesmo é calçar as pantufas.

 

Mas é na meia-idade que definimos a nossa posição e decidimos em que campo queremos estar. Ou pactuamos com este sistema e, como um cão bem comportado, esperamos receber um doce, ou optamos por não afinar pelo mesmo diapasão e aí, normalmente, nada de bom acontece... A atitude de denúncia e confronto custa normalmente o isolamento. Ao contrário do que se pensa é mais difícil ser do contra do que parece. Embora haja originalidade em ser a ovelha negra do rebanho, não faltarão dedos acusatórios e atitudes discriminatórias. Por isso deixamo-nos arrastar pela maré sistémica.

 

Bem entrados que estamos pelo século XXI, a igualdade no plano laboral continua a ser um privilégio. Mantem-se actual a máxima “somos todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”. A única forma que existe para alterar este modelo é denunciar estas arbitrariedades e sermos assertivos e verticais na crítica. Para que outros que venham a seguir não sofram o mesmo tipo de injustiça de que somos alvo. Este é o dever de quem tem um pensamento global e em prol do bem comum.

 

Se queremos realmente ser coerentes com o discurso da meritocracia temos de libertar a sociedade dos tacticismos de circunstância e premiar o conhecimento e a competência. Esse é o caminho para uma sociedade mais próspera e mais justa. Porque o acesso às oportunidades é também uma questão de igualdade.

 

Montijo, 18 de Dezembro de 2015

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