Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

Imagina Que Não Existiam Religiões

 

Senta-te, respira fundo e pondera como seria o mundo sem religiões.

Impossível!

O Homem é o único animal religioso e não o é por acaso. Os motivos são bem terrenos. Somos nós que temos consciência dos nossos actos, sentimos a culpa e projectamos no futuro, incluindo a consciência das consequências dos nossos actos.

Curiosamente o Homem tem uma enorme dificuldade em lidar com a culpa e tendencialmente coloca-a em terceiros.

É escusado tentares contornar este facto porque é um traço comum a todos nós e só estás a tentar ocultar de ti próprio momentos em que podes sentir culpa. A culpa ou é de outros ou de outra coisa qualquer e nada mais simples que empurrar a culpa para o que não existe, sejam bruxas, demónios ou um deus que escreva certo por linhas tortas. “São os desígnios de Deus…”.

Outra coisa com a qual não sabemos lidar é com a morte. Até podemos saber lidar com a nossa morte mas temos uma supra dificuldade em lidar com a morte de outros, talvez por nos revermos naquela condição.

Assim se criam deuses que têm a hipótese de ajudar, castigar e oferecer aos meninos bem comportados uma vida para além da vida terrena.

Isto é obvio porque quais mais desesperado o sujeito mais este procura, e encontra, conforto em algo que vive dentro de si, a sua fé feita à medida das necessidades de cada um que lhe trás esperança, conforto e quando necessário, a penitencia que apazigua o sentimento de culpa.

E por isso mesmo, no nosso mundo racionalizado que a religião continua a vingar, mesmo que seja dentro das suas interpretações muito próprias.

Já as pessoas que têm um modelo de vida racional e sem conflitos internos ou externos, tendem a afastarem-se da religiosidade.

Que não restem duvidas que encontraremos sempre pessoas que sofrendo de uma qualquer perturbação mental, irão agarrar-se a qualquer argumento ou ideologia para cometerem actos de extremismo.

A religião pode, ou não, servir de desculpa, por vezes é.

Mas olhando para o mundo e procurando onde existem as maiores concentrações de radicais religiosos, seja ela qual for, verificamos que estão quase sempre, senão mesmo sempre, ligados a zonas de pobreza, precariedade e conflitos onde o dia de amanhã não é uma certeza.

Quão mais radicais e duradouras forem essas condições, mais se expressa o radicalismo.

O catolicismo não se perdeu no ocidente. As condições de vida e a projecção de futuro é que melhoraram de tal ordem que as pessoas deixaram de passar o tempo em busca de esperança e conforto externo. A única solução para acabar com o terrorismo é acabar com a precariedade e as guerras que fazem parte do dia-a-dia destas pessoas.

Esta não será uma conquista de uma geração. Talvez 100 anos sem guerras e atropelos consigam empurrar esses ódios para os livros de história e sejam usados, como nós usamos ainda hoje “de Espanha nem bom vento nem bom casamento” sem que isso nos traga verdadeira animosidade.

Ninguém nasce bom, nem mau, nem religioso e muito menos fanático.

As pessoas transformam-se naquilo que conhecemos alimentadas pela raiva e frustração de vidas que se perdem diariamente de modo arbitrário colocando a existencia no mundo terreno num segundo plano. Se amanhã não é certo, porque não aproveitar estes últimos fôlegos para vingar a morte de tantos arrastando outros tantos para morte igual à que causam?

Em última analise os causadores desta perpetuação dos conflitos recai naqueles que adquirem o conforto de vida às custas da miséria e da morte de outros.

 

 

 

 

 

 

Julgamento de José Eduardo dos Santos

 

Iniciou-se hoje o julgamento de 17 jovens angolanos, entre os quais Luaty Beirão que ficou conhecido durante o seu protesto em greve de fome.

Na verdade, ao mesmo tempo que se iniciava o julgamento aos que chamam de “Movimento Revolucionário”, começava também o julgamento de Angola mormente de José Eduardo dos Santos.

 

José Eduardo dos Santos é resultado natural do conflito geoestratégico durante a Guerra Fria e dizer que Angola vive em democracia é como colocar uma coroa de flores em cima de um monte de estrume. A guerra civil em Angola termina, claramente por falta de apoios, após a queda do Muro de Berlim e a descontinuação do conflito entre o ‘leste’ e o ‘ocidente’. Dois anos após a queda do Muro de Berlim Angola passa a ser um país 'democrático’ e multipartidário’ tendo o MPLA mudado de marxista para a Social-Democracia.

Dão-se as primeiras eleições mas com a derrota da UNITA a guerra regressa até à morte de Jonas Savimbi em 2002. A partir dai o país fica entregue ao MPLA de Eduardo do Santos que passa a praticar uma política neoliberal. Tudo isto num país que em 174 avaliados é o 13º com mais corrupção, 38º de 187 com menor índice de desenvolvimento, e com mais de 40% da população abaixo do limiar de pobreza.

 

"As forças de segurança recorreram a um uso excessivo da força contra manifestações e protestos em Angola, Burkina Faso, Chade, Guiné-Conacri, Senegal e Togo, entre outros países. Na maioria dos casos, as autoridades não investigaram os episódios de uso excessivo da força e ninguém foi responsabilizado.

 

Em muitos países, jornalistas, defensores dos direitos humanos e opositores políticos enfrentaram uma conjugação generalizada de ameaças, detenções e prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos forçados e, até mesmo, morte às mãos de agentes governamentais ou de grupos armados. Situações de repressão e restrições às liberdades de expressão, reunião e associação pacífica verificaram-se em Angola, Burkina Faso, Camarões, Chade, Eritreia, Etiópia, Gâmbia, Guiné-Conacri, Mauritânia, Ruanda, Somália, Suazilândia, Togo, Uganda, Zâmbia e Zimbabué.

 

Em Angola, no Burundi e na Gâmbia, novas leis e outras formas de regulação vieram reprimir ainda mais as atividades dos meios de comunicação social e da sociedade civil.

 

Em Angola, pelo menos 4000 famílias foram desalojadas à força na província de Luanda."

                Aministia Internacional

 

Como é isto possível? Apesar de todos os atropelos à liberdade dos seus cidadãos e à democracia, José Eduardo dos Santos joga pelas regras da economia de mercado. A vida corre lindamente para Angola, nem tanto para os angolanos.

E por isso mesmo os portugueses apoiam Luaty Beirão, no entanto o Governo português fecha os olhos como se não estivesse a acontecer nada. Afinal, nós temos interesses económicos em Angola e muito dinheiro por cá investido pela mão de Isabel dos Santos.

Como é possível que há três dias os advogados de defesa dos 17 presos não tivessem acesso ao processo?

 

 

Este julgamento não julgará um grupo de Angolanos, julgará José Eduardo dos Santos e o ultimo acto deste teatro disfarçado de julgamento será escrito pelo regime e dado o mediatismo que já obrigou Eduardo dos Santos a anunciar as próximas legislativas para sublinhar que ali se vive democracia, seria de esperar que o processo caísse por falta de provas concretas.

 

Mas como nas ditaduras tudo é aparência e teatro, temos de esperar para ver se é esse o resultado ou se dali sairá uma pena “exemplar”.

Seja qual for o resultado, o regime angolano já foi julgado na comunicação social internacional e não é expectável que dure muito mais… assim espero.

 

Deixo apenas uma questão aberta para terminar: Qual o paralelo entre os últimos 50 anos em Angola e a Síria?

 

Maka Angola

Da Tolerância

Hoje, dia 16 de Novembro, comemora-se o Dia Internacional da Tolerância. Dada a proximidade dos atentados de Paris, na passada sexta-feira, depressa se começaram a traçar paralelos. A tolerância é um conceito lato e “perigoso”. Pode ser aplicado a múltiplas facetas da nossa vivência. Desde o desporto ao vestuário, passando, evidentemente, pela religião e cultura, liberdade de opinião e de expressão. Mas haverá um limite para a tolerância?

 

Atente-se no exemplo da mutilação genital feminina. Esta é uma prática tradicional e secular entre determinadas comunidades. Mas a mesma é largamente rejeitada pela globalidade das pessoas. Poderá tal ser visto como uma imposição da vontade geral sobre uma tradição cultural de uma comunidade concreta. E em larga medida é-o. Mas neste caso é uma das linhas em que devemos marcar a intolerância. No presente estado civilizacional não podemos, de forma alguma, aceitar este tipo de acções que afectam as mulheres de todas as idades, pondo inclusivamente em causa a sua integridade física.

 

Com efeito existem um sem número de situações em que devemos ser intolerantes. Devemos ser intolerantes com a violência no desporto, o fundamentalismo e extremismo religioso, o racismo, a corrupção, a violência doméstica, o terrorismo... Pense-se em todas as vertentes da existência e teremos campo onde poderemos ser intolerantes.

 

Os atentados de Paris, do dia 13 de Novembro de 2015, e o terrorismo na generalidade, nada têm a ver com a tolerância. É ridícula a associação que se tenta criar. Se há alguma coisa que devemos fazer é repudiar veementemente este tipo de actos e demonstrar a nossa intolerância perante os mesmos. Porque a sociedade actual e a visão humanista que pensamos ter, não se compadece com estas atitudes bárbaras. Nenhum atentado à liberdade religiosa justifica semelhantes acções extremistas, que vêem como natural tirar a vida a alguém, para passar uma mensagem que ninguém consegue compreender, a começar pelos próprios muçulmanos.

 

Sejamos portanto intolerantes para com o extremismo. Mas que fique claro que se a resposta a este actos se assemelha em termos de grau de extremismo, em nada estaremos a ser diferentes daqueles que tanto criticamos. Violência gera violência, é uma máxima conhecida por toda a humanidade. Alguém tem de ter a coragem de não ripostar. De perceber que o caminho deve ser o da educação e formação do ser humano, da tolerância saudável da diferença, da aceitação e da inclusão, da cooperação para o desenvolvimento, da solução pacífica e diplomática dos conflitos. A ONU é a organização por excelência que suportará este tipo de actuação. Caberá a esta traçar a linha do que é tolerável e do que é intolerável. Interessa, portanto, dar-lhe esteio para isso mesmo. Para no fundo, cumprir o seu papel. Quando esse momento chegar, estaremos com certeza no caminho correcto. O caminho para a utopia da paz mundial e da tolerância entre os povos e culturas...

 

Montijo, 16 de Novembro de 2015

Mudança Permitida

As coisas agora são diferentes. A realidade é outra. O mundo mudou. Estas são alguns dos chavões que nos atiram diariamente. Políticos, comentadores, empresários, jornalistas entoam estas máximas; afinados, unos. Não vale a pena discordar deste cenário, até porque o mundo realmente mudou… Mas valerá a pena colocar algumas perguntas: “porquê que o mundo mudou?” e se “mudou no sentido correcto?”

 

A resposta a estas questões não é óbvia e com certeza albergará muitas outras variáveis para além do adianta nestas linhas. Do caminho para uma sociedade mais justa deparamos agora com um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Uma sociedade iníqua, precária e desigual. A evolução civilizacional estagnada e até em marcha atrás.

 

Grosso modo, mas últimas duas décadas e meia tem-se assistido ao galgar de terreno por parte do neoliberalismo. Uma cruzada incessante por parte dos grandes grupos económicos, em conluio com os governos dos vários estados, no sentido de desregular a actividade económica, tendo assim carta branca para actuarem como melhor entenderem. Este deixar passar/ deixar fazer tem conduzido a inúmeros atropelos laborais, sociais, ambientais, económicos e fiscais. E o fenómeno hoje em dia é global, além de extremamente complexo e intricado.

 

O ataque aos direitos do trabalho não conhece tréguas. A precariedade é hoje uma inevitabilidade. As desigualdades aumentam constantemente, o que fragiliza sobremaneira o tecido social. O ambiente há muito que deveria ser uma prioridade. Mas as grandes empresas relevam esse factor em detrimento da ganância do crescimento perpétuo e da ditadura dos resultados semestrais. A exploração petrolífera, a extracção de gás de xisto através de fractura hidráulica, a desflorestação, o planeamento territorial e a pressão sobre os recursos locais, tudo provas de que ainda agora não entendem a urgência ecológica. E as fugas constantes ao fisco; a corrupção; os negócios facilitados. Minam a malha económica de qualquer país e é particularmente preocupante em pequenas economias como a portuguesa. Os paraísos fiscais e a consequente fuga de capitais que deveriam entrar na nossa economia, que quedar-se-ão inertes sob as palmeiras, a servir de cama de rede para algum gato gordo.

 

Portanto porquê que o mundo mudou? Mudou para facilitar o interesse de quem já detinha o capital e que pretendia continuar a aumentar o seu pecúlio. Insaciáveis e ávidos de mais, sempre mais. Sem perceberem que pela via actual depressa acabará a possibilidade de continuar a acumular.

 

Agora: mudou no sentido correcto? Bem isso depende do ponto de vista. Para o cidadão comum, o trabalhador e que é a base deste sistema que se serve das pessoas e as corrompe, certamente que mudou para bastante pior. Para os grandes poderes económicos e seus facilitadores, isto nunca esteve tão bom, com tendência para melhorar ainda mais.

 

Isto leva-nos a uma nova pergunta: quem permitiu que a realidade muda-se? Aí a resposta parece óbvia, embora não seja fácil de encarar. Se podemos considerar a classe política dos sucessivos governos e parlamentos os responsáveis directos pela alteração de paradigma, somos todos nós cúmplices da mesma pela inércia ao assistirmos, impávidos e serenos, a mudança do mundo do conforto do nosso sofá.

 

Montijo, 15 de Novembro de 2015

Perigosa Ignorância

É possível aplicar corrector sobre a história? Pegar num pincel de líquido branco e besuntar o calendário para fazer desaparecer o dia de ontem? Estou certo que a maioria de nós daria tudo para que tal fosse exequível… Continuaríamos o nosso curso alegremente, sem nos sobressaltar. Vibrando com os golos da selecção francesa e ouvindo Eagles Of Death Metal.

 

Ontem Paris foi palco de um terrível atentado. As explosões misturaram-se ao coro da claque e as rajadas de kalashnikov aos acordes da guitarra eléctrica. Ontem tivemos um vislumbre do terror que vem perpetuando o autodenominado Estado Islâmico. Este bando de fanáticos religiosos, com uma visão muito singular do islão, atacou o coração da terra da liberdade, igualdade e fraternidade. E abalou o nosso quotidiano.

31. republique-francaise.png 

Ontem Paris sentiu aquilo de que centenas de milhares de refugiados que fogem da Síria sentem há 4 anos. Agora multipliquem por 30 o grau de barbárie e carnificina, o equivalente a 1 mês. Depois multipliquem pelos 365 dias do ano. E finalmente multipliquem pelos 4 anos de guerra. Mesmo assim, ficaremos aquém do número de vidas humanas perdidas desde o início do conflito na Síria – http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=4718754 – que ascende já a 240.000, ou seja, 60.000 por ano, 5.000 por mês, 166 por dia…

 

Ontem Paris, numa única noite teve a noção do que é apenas um dia banal na Síria. E o que é que decidimos fazer? Saltar para as redes sociais e em coro vociferar contra os refugiados. Na ponta dos dedos uma indignação cega e injustificada. Responsabilizando-os pela acção que 8 fanáticos jihadista perpetraram. Incendiar de ódio o que tinha ficado por arder. A alma das famílias e amigos daqueles que perderam a vida, a consciência dos franceses, o sentimento dos europeus.

 

Ontem Paris percebeu precisamente de que terror os refugiados fogem; do que eles mais temem. E é isto que enfrentam todos os dias na Síria. A penosa incerteza de não saber se seus filhos sobreviverão mais um dia ou se serão mais uma das mais de 8 crianças mortas diariamente. Por isso se lançam ao mar de incertezas e arriscam as suas vidas e as dos seus. Culpá-los por actos de um grupo fanático é ridículo, é infundado, é ignorante. É arranjar um bode expiatório para aquilo que não conseguimos controlar nem explicar.

 

Simultaneamente, com este tipo de atitude lançamos uma acendalha para dentro de um barril de pólvora. A situação só por si já é caótica. Os refugiados são atirados de fronteira em fronteira, como se de uma praga se tratasse. Lançar este tipo de atoardas só causará o escalar da violência. E desta vez tudo se passará no nosso pátio, o velho continente.

 

Em momentos como este convém sempre lembrar que também Portugal é terra de emigrantes e que já fomos fonte de refugiados. Lembrar também os princípios da república francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Que todas as democracias modernas abraçam. Nunca tomar a floresta pela árvore. E acima de tudo ter sempre presente que a ignorância, às vezes, pode ser tão perigosa como o fanatismo…

 

Montijo, 14 de Novembro de 2015

Revoluções para o Séc. XXI - Rendimento Básico incondicional

 

Por muitas voltas que dê à cabeça, não encontro nenhuma profissão que não possa ser substituída agora ou no futuro por uma máquina.

As únicas profissões que não as vejo a serem produzidas por máquinas são aquelas que dependem da arte de pensar, de imaginar e sonhar.

Tudo o resto, desde o jardineiro ao médico, são profissões passiveis de serem delegadas a equipamentos tecnológicos mais ou menos desenvolvidos.

Hoje, numa era em que a tecnologia ainda não é assim tão dominante que arrase por completo os postos de trabalho, é fácil encontrar pessoas que estão nos antípodas das suas preferências laborais. O tipo que queria ser musico e acabou em empregado de mesa, o sujeito que queria fazer teatro e é segurança, a rapariga que queria ser médica mas trabalha num cal-center.

Por diversos factores nem todos nós conseguimos ser o que queríamos e a maioria de nós acaba por se esquecer dos sonhos que tinha.

Se olharmos para a nossa sociedade como ela tem acompanhado o desenvolvimento tecnológico verificamos que os primeiros empregos que se perderam para a tecnologia foram aqueles que são repetitivos.

 

O exemplo mais claro tem origem em Henry Ford que desenvolver a sua linha de montagem até que o trabalhador deixou de sair do seu local de trabalho e era o trabalho que passava por ele. A ele, competia apenas uma única tarefa na linha de montagem repetida em todos os automóveis na linha de montagem.

As ferramentas foram evoluindo para aumentar a produção até que hoje o funcionário foi substituído por um braço robótico que faz o mesmo com mais precisão e rapidez.

 

Já nos nossos dias podemos verificar que nos últimos 30 anos deixaram de existir nas empresas o secretariado e as dactilografas. Hoje os quadros médios de uma empresa assumem em si, numa perspectiva de polivalência todo o trabalho que anteriormente era competência do secretariado. Os computadores e sobretudo a internet acabaram assim com departamentos inteiros nas empresas e o processo não parará.

O capitalismo, a bancocracia, o selvagem neoliberalismo têm por base o consumo. Uma entidade produz e vende a outra que compra. Olhando para a questão acima referida uma empresa deixa de fazer sentido se não tiver quem compre. Se os postos de trabalho são eliminados, a população deixa de ter um salário em empresas, bancos, Estados, tudo acabará por desaparecer.

Para contrariar esse destino teremos de mudar totalmente o paradigma económico olhando com olhos de quem quer ver para o Rendimento Básico Incondicional (RBI).

Se o dinheiro fosse num valor fixo teríamos duas questões: Nunca seria possível ver a economia mundial a crescer porque se cresce de um lado, diminui noutro e corria-se o risco de ver todo o dinheiro cativo nas mãos de um só sujeito, o vencedor do monopólio.

O modelo existente é refém da banca que a favorece através de juros e todo um mercado paralelo que se alimenta do risco assumido. Funciona um pouco como as apostas desportivas em que uns apostam na vitória e outros na derrota. Ganha mais o que arrisca mais. Mas se um banco não se meter por atalhos nem apostas, este já gera lucro sem ter de produzir nada. Aos cidadãos, empresas e ao Estado, resta-lhes a subserviência à boa vontade da banca, pagar e não fazer muito barulho.

Sabemos assim que o emprego tende a desaparecer, as empresas vendem a quem compra, logo precisam de um ponto de vista global de pagar salários e a banca controla tudo isto injectando dinheiro, recolhendo juros e depois jogando com os juros ganhos através do trabalho das empresas e cidadãos.

Mas se as empresas deixam de ter funcionários a quem pagam salários, vendem a quem?

Se quem recebe agora salário e por isso pode adquirir bens que serão pagos a médio/longo prazo recorrendo à banda, sem salário com adquirem os seus bens?

Se as empresas não têm a quem vender e já ninguém tem dinheiro para adquirir bens, a banca irá financiar quem?

Parecendo um daqueles anúncios das Televendas que promovem um produto que tudo resolve, a verdade é que a solução tem forçosamente de passar pelo RBI. Mas como?

Invertendo a entrada de dinheiro na economia.

Se a lógica começa por “compra quem pode” e “vende se existir o comprador”, então se o dinheiro for directamente colocado na mão do comprador, este círculo fica fechado e podemos continuar a avançar enquanto sociedade.

Poderemos considerar uma introdução faseada no tempo e nos valores.

Poderemos considerar numa primeira fase atribuir o RBI a todos os que tenham um rendimento inferior a 600€, não atribuindo este valor mas perfazendo-o. Consideramos uma introdução progressiva pelos que mais precisam até terminar nos que não precisam.

A partir da introdução do RBI deixam de existir pensões de reforma, invalidez, RSI, baixas médicas e todo o tipo de subsídios destinados aos cidadãos.

Naturalmente que a banca e os investidores de risco ficarão a perder com o RBI, mas quem é que quer saber da sorte dos vampiros que jogam com a vida de pessoas como quem aposta na roleta?

 

O risco da banca fica claramente minimizado pelo menos no que toca ao empréstimo aos cidadãos e a necessidade de recorrer a empréstimos diminui.

A livre iniciativa contínua intacta. Quem quer trabalhar, continua a trabalhar e esse valor irá adicionar-se ao RBI. Mas o mercado paralelo tende a desaparecer e sem fuga aos impostos a economia torna-se mais justa e saudável.

Que não se julgue já que o investimento é assim tão astronómico. A partir do momento em que o dinheiro do RBI comece a circular na economia, ele começa a regressar em forma de impostos e contribuições.

Sem fazer contas, arriscaria a dizer que a diferença não será significativa face ao dinheiro que entra actualmente na economia.

A única coisa a mudar é a porta de entrada e deixam de estar 99% de dinheiro na mão de 1% da população.

Se já coloquei fortes objecções ao Rendimento Básico Incondicional, hoje vejo-o como a verdadeira revolução social que deixará para trás a Idade Contemporânea para entrarmos na Era do Humanismo Universal pautado pelo respeito étnico, numa globalização plena, num mundo sustentável, na democracia de plenos direitos com pessoas que vivem a vida com gosto, dignidade e respeito por si, pelos outros e pelo mundo.

 

http://www.rendimentobasico.pt/

Revoluções para o Séc. XXI - Redução do Horário Laboral

 

O nosso cérebro funciona como um jogo de tetris. Com base nos conhecimentos adquiridos ao longo da vida, analisamos cada bloco na sua forma e conteúdo e procuramos encaixar na posição que pareça mais logica e adequada.

É deste modo que cada um de nós, acedendo ao mesmo bloco informativo, formula opiniões distintas.

Por vezes chegam-nos blocos, raros, que contêm tal informação que desconstroem alguns ou muitos blocos dos blocos anteriormente assentes na rua razão e lógica.

Um destes blocos reconfiguradores chegou-me pela voz de Andrew McAfee numa palestra na TED Talk.

Tudo o que ele disse já eram blocos por mim conhecidos e provavelmente fazem até parte do conhecimento generalizado, no entanto veio trazer-me um novo encadeamento ao meu entendimento sobre o presente e o futuro da nossa sociedade.

Esta palestra reporta à tomada de posse dos postos de trabalho por equipamento tecnológico em substituição de pessoas.

O que isto traduz é que independentemente das medidas que se tomem para promover o emprego, a verdade é que este está condenado a aumentar.

O Governo demissionário procurou eliminar o desemprego eliminando as pessoas. Eliminou-as forçando-as a emigrar, eliminou-as camuflando-as nas estatísticas enfiando-as em formações de qualidade duvidosa e pouquíssima ou nenhuma utilidade pratica no IEFP.

Por outro lado legislou em função das necessidades das entidades patronais ao aumentar a produtividade pelo aumento da carga horária de trabalho. Ou seja, não aumentou a produtividade porque essa reporta a uma relação de produção por hora e essa provavelmente até piorou arrastada pela desmotivação generalizada.

Resumindo este Governo trabalhou em nome dos números e das empresas, longe de trabalhar para os portugueses.

Evolução das taxas de desemprego

Evolução tecnologica

 

 

Uma das medidas lógicas para contrariar o desemprego será o processo inverso ao promovido pelo Governo demissionário, ou seja, diminuir a carga horária de 40 horas semanais para 35 horas semanais não só para a função pública como para todos os trabalhadores.

Isto forçaria à criação um posto de trabalho por cada 8 já existentes. Criando cerca de 550 mil novos postos de trabalho diminuiríamos o desemprego para menos de metade do actual e por contágio iria aumentar o salário médio nacional.

De qualquer forma, poderíamos diminuir a carga horária laboral até zero que a tecnologia continuará a progredir e a ocupar-se dos postos de trabalho existentes pressionando assim o desemprego.

Então como garantir uma existência com dignidade com acesso a bens e serviços se já não existem empregos que garantam um salário?

(continua)

Limites Laborais

Com a evolução tecnológica e a cada vez maior mecanização do trabalho foi criada a ideia que haveria mais tempo livre e que as tarefas diárias seriam mais leves. As pessoas poderiam assim enfrentar jornadas laborais mais reduzidas e/ou menos cansativas, mantendo o nível de rendimento salarial. Dessa forma sobraria mais tempo para se dedicarem ao lazer, à comunidade, à vida social, à sua valorização como ser humano. Pelo menos era isso que era expectável, mas algo falhou pelo caminho. De ideia romântica, o princípio passou a pesadelo… Convém perceber melhor o sucedido.

 

Pedro Afonso, médico psiquiatra, em entrevista ao Jornal de Negócios no dia 30 de Outubro de 2015, conduzida por Lúcia Crespo, fala precisamente das questões do trabalho, mais concretamente dos seus exageros e abusos. O mote para esta conversa foi o recente lançamento do seu livro “Quando a mente adoece”, onde discorre sobre as doenças psíquicas ligadas ao mundo do trabalho. Aqui fica o link da entrevista:

http://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/psiquiatra_pedro_afonso_ha_um_endeusamento_do_trabalho.html

Não querendo de forma alguma imiscuir-me no campo das doenças da mente, gostaria de tecer algumas considerações alavancado nesta entrevista.

 

Assim, quando nos deparamos, por exemplo, com o brutal avanço na área das comunicações seria de esperar que isso significasse apenas uma forma mais célere e eficaz de dialogar entre pares ou de passar informação aos de fora. Com efeito, hoje em dia o mundo está totalmente conectado e tal reverte-se num ganho temporal considerável. Mas o “mercado laboral” não se contenta com esse ganho. Esse avanço é utilizado de forma perversa… Com a facilidade comunicacional surgiu também a obrigação dos trabalhadores estarem permanentemente contactáveis. Já não existe “tempo de qualidade”, de abstração, ou folgas laborais. Onde quer que se encontre, qualquer que seja a hora ou dia da semana, existe sempre um telemóvel, um computador, um GPS. Com isso extingue-se o direito do trabalhador em separar a esfera privada da profissional.

 

Para além deste vínculo laboral de disponibilidade permanente, que agora parece instituir-se, como se de um laço de sangue se tratasse, existe também uma exigência atroz sobre a produção do trabalhador. E esta é vertical. Ou seja, hoje em dia a pressão não se faz sentir apenas na base da pirâmide, mas também sobre as direcções e chefias intermédias, às vezes até com maior incidência. A política da exigência cada vez maior prosperou, alastrou e colou. A mesma é multiplicada e repetida até a exaustão pelos vários níveis hierárquicos. O que exponencia a pressão para alcançar sempre mais.

 

Por último, uma ressalva ao famoso “multi-tasking” que os trabalhadores são hoje obrigados a desempenhar. Esta é uma das maiores falácias no mundo do trabalho. Gosto de definir este conceito como a capacidade de realizar várias tarefas simultaneamente de forma errada ou incompleta e que implica depois o dobro do tempo normal para as corrigir ou completar. Temos também a polivalência, conceito complementar e basilar do “multi-tasking”, que significa a capacidade de esmifrar o trabalhador até ao limite das suas capacidades, colocando-o a desempenhar inúmeras funções, muitas das quais extravasam a sua categoria ou posto.

 

A desculpa do avanço tecnológico serviu para a maioria das empresas reduzirem os seus quadros de assalariados de forma brutal. O “multi-tasking” e a polivalência são factores que propiciaram um caminho para essa desculpa. Ironicamente os trabalhadores que resistiram e se mantiveram no activo trabalham hoje mais horas e é-lhes exigido muito mais, independentemente das ferramentas que deveriam facilitar as tarefas quotidianas.

 

Em suma, todos os trabalhadores são obrigados a produzirem mais, estarem sempre disponíveis, permanecerem mais horas no local de trabalho e serem iminentemente competitivos, quer com restantes empresas do sector, quer dentro da própria estrutura. Esta última condição cria, evidentemente, um enorme desconforto no relacionamento entre colegas de trabalho. Julgo que é claro para qualquer um, que a lógica competitiva dentro de uma mesma empresa ou serviço criará tensões entre colegas e deve ser desaconselhada. A aposta deve ser num modelo de cooperação e complementaridade. E não é preciso ser psiquiatra para perceber isto.

 

Esta pressão constante sobre os trabalhadores é inadmissível. Se o objectivo é alcançar uma maior produtividade a forma como se tenta lá chegar é contraproducente. Como afirma Pedro Afonso: “se as empresas querem aumentar a produtividade, ponham os funcionários a trabalhar menos horas”. Já escrevi precisamente isso neste canto da blogosfera, quando afirmei ser um mito que mais horas de trabalho signifiquem maior produtividade (http://marealta.eu/essa-vidinha-14827).

 

Acrescento apenas que trabalhadores mais felizes, e reconhecidos nas suas funções, tendem a produzir mais e melhor. Existem vários exemplos disso pelo mundo fora e mesmo entre fronteiras. Muitas empresas apostam em conceder alguns privilégios extra aos seus funcionários e dão o seu investimento por muito bem empregue, colhendo depois os frutos do aumento da produtividade, rigor e qualidade do trabalho. Que se tratem os trabalhadores com mais dignidade, tendo presente que em tudo na vida há limites. E os limites laborais estão claramente a ultrapassar o humanamente possível.

 

Montijo, 11 de Novembro de 2015

Estabilidade Governativa - Época 2011/1015

 

Tenho diversas vezes referido que vivemos momentos históricos, daqueles que constarão nos manuais de história num futuro próximo. Hoje, às 17:15 foi declarado o óbito do Governo da coligação Portugal à Frente (PaF). Está agora ligado à máquina até que seja nomeado um novo Governo.

Antes e depois da morte anunciada os comentadores pouco se referem a quatro anos de austeridade a quem deixamos uma coroa de flores numa mão e uma taça de champagne na outra, mas todos fazem questão de sublinhar o quão diferente são os partidos que agora se unem em torno de um Governo de esquerda.

Quase todos ou mesmo todos eles dizem que este é um Governo pronto a cair ainda antes de se levantar. Uma espécie de apuramento de resultados finais antes sequer do início do jogo. Argumentos há muitos e com facilidade se recorre quer aos 40 nos de história quer às lutas mais ou menos recentes dos partidos intervenientes.

Serão profetas ou velhos do Restelo?

A primeira questão que coloco é: É mais natural uma coligação entre o PS e o BE ou entre o PS e o CDS? O CDS nem sequer é da mesma família política, no entanto a 23 de Janeiro de 1978 entrou em funções um Governo entre um partido de centro-esquerda (PS de Mário Soares) e um partido de direita (CDS de Freitas do Amaral). Na altura contou com Basílio Horta como ministro pelo CDS e poderá agora voltar às funções pelo PS abdicando, se assim for, também ele a presidência da Camara Municipal de Sintra.

Toda a direita, desde Cavaco aos ex-Governo alega que é preciso estabilidade para uma recuperação (?!?) económica e um cumprimento dos tratados internacionais. A estabilidade, o défice e os tratados parecem ser a santíssima trindade da direita portuguesa.

Mas…

Em 2011 Passos Coelho vence as eleições não pelo seu mérito mas pelo demérito de José Sócrates sobretudo na escolha do seu Ministro das Finanças. Ainda assim era frequente as pessoas falarem “pois… temos de ter austeridade se vivemos acima das possibilidades…”

Mas um ano depois, em Setembro Passos Coelho anuncia a transferência da TSU dos empregadores para os trabalhadores.

O povo sai à tua em protesto enquanto Paulo Portas veraneava na América do Sul. A Bolsa caiu, as taxas subiram e a Moodys opinou. O Governo esteve para cair numa guerra entre PSD e CDS mas depois do Master Excel abdicar das medidas referentes à TSU as coisas acalmaram quer dentro quer fora do Governo. Certo é que a estabilidade estava assente em pés de barro…

Um ano depois a crise volta a instalar-se no Governo. Paulo Portas demite-se na sua para sempre lembrada peculiar e muito própria definição de “decisão irrevogável”. Demite-se por SMS e as bolsas caiem a pique, as taxas de juro sobem e as atenções da Europa viram-se para Portugal. Na sua sede de poder Paulo Portas abdica da demissão e em troca sobe a vice-Primeiro-Ministro não deixando de lembrar que “uma coligação não é uma fusão”.

A verdade é que esta coligação sobreviveu toda a legislatura apesar de toda a contestação.

Hoje querem dar a entender que tudo foi um mar de rosas e que a esquerda não consegue fazer o mesmo. Podem comentar como entenderem mas não lhes reconheço virtudes de videntes, tarologos ou astrólogos. Nostredamus não deixou nada escrito sobre Governos portugueses. Verdade é que António Costa já experimentou este tipo de negociações na CML com sucesso.

Não tenho a certeza se o próximo Governo conseguirá atravessar todas as provações que terão de enfrentar em todos os processos negociais mas tenho a certeza que não teremos um Governo do PaF e que foram demitidos pelo parlamento porque o povo, ali representado, assim o decidiu.