Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

O visto e o visível (2)

Parablennius ruber, caboz vermelho

Era já a terceira vez que Pedro se preparava para mergulhar em busca de cabozes vermelhos, e não tinha esperança de ter mais sucesso nesta que nas outras. A hipótese que queria testar sobre o comportamento da espécie entusiasmava-o, mas era preciso ver os animais primeiro. E isso estava a revelar-se muito mais difícil do que o professor tinha dado a entender. O que vale é que hoje o professor vinha também mergulhar- ia ser bom vê-lo provar do seu próprio remédio. Logo no início do mergulho, porém, o professor apontou ao Pedro um primeiro caboz, e logo outro, e outro. A partir daí ele passou a vê-los às dezenas, e conseguiu fazer o seu trabalho.

A subjetividade das interpretações que fazemos do mundo tem ocupado muitos filósofos, e as respetivas bases fisiológicas são hoje estudadas cientificamente. Por estranho que pareça, é difícil para as pessoas verem as coisas se não tiverem delas um modelo mental: a partir do momento em que sabia o que devia ver, os olhos do Pedro abriram-se.

 

George Lakoff há mais de 20 anos que chama a atenção para que o essencial da batalha entre esquerda e direita se deve travar ao nível dos modelos mentais. A direita já percebeu isso há muito tempo, e através do domínio da comunicação social introduziu a sua narrativa no inconsciente coletivo. Toda a gente sabe que Portugal estava na bancarrota por causa do comportamento despesista dos governos socialistas, que fomos salvos pela boa vontade dos credores e pela liderança de Passos Coelho, que temos uma dívida enorme para pagar e que por isso tivemos que fazer grandes sacrifícios, mas que conseguimos sair do programa de ajustamento e agora é só retomar o crescimento económico e tudo se vai compor. Temos é que votar PSD outra vez, porque senão todos os sacrifícios foram em vão. Do lado do PS a narrativa é basicamente a mesma, só que os vilões são do PSD. Se o PS fosse governo a austeridade não teria sido tão má, e se o PS fôr para o governo agora vamos recuperar o crescimento económico mais depressa.

E assim não se vê a iniquidade do sistema monetário, não se vê o crescimento obsceno da pobreza, não se percebe a insustentabilidade da exploração dos recursos naturais, ninguém se envergonha pelo domínio privado dos capitais públicos. Nada disto está escondido- mas a maioria das pessoas não o vê.

Mas a esquerda não pode deixar-se prender dentro deste modelo mental, antes deve promover o seu modelo alternativo. Deve defender o direito ao trabalho, uma economia ao serviço das pessoas, o valor intrínseco da biodiversidade, a dignidade essencial de todos os humanos, um setor público pujante e interventivo ao serviço do cidadão, a rejeição das privatizações e da lógica do lucro, a ética do cuidado do outro, da partilha e da colaboração.

 

A esquerda deve apontar o caminho, para que as pessoas vejam que outro mundo é possível. Quando descemos ao excel, já perdemos.

Sem cor, política ou religião...

sem cor, sem política ou religião. Apenas medo e solidariedade...

 

Fez esta semana 14 anos que o mundo, mais uma vez, mudou. Um atentado terrorista nos Estados Unidos da América viria a criar uma onda de medo no “mundo ocidental”.

Nesse dia, do qual todos guardamos memória, 2977 pessoas perderam a vida em directo. Em directo assistimos a bombeiros, policias, militares e civis em busca de sobreviventes. Os que procuraram vitimas não discriminaram. Todos eram vítimas de um ataque infame.

Mais tarde, os terroristas foram identificados. Todos eles eram de diversos países do médio oriente e todos eles viviam no nosso “mundo ocidental” onde estudaram e trabalharam até que um dia mudaram o mundo da pior maneira.

 

Quase três anos depois 191 pessoas perdem a vida num episódio de menores proporções mas com os mesmos contornos. A mesma busca por sobreviventes sem olhar a quem precisava, um crime orquestrado por pessoas que já viviam entre nós há diversos anos.

A 22 de Julho de 2011, um norueguês típicamente loiro, alto e de olhos azuis, de seu nome Anders Behring Breivik, um fundamentalista cristão ligado à extrema-direita, dá por terminada a vida de 76 pessoas em Oslo e Utoya.

Poderia continuar a descrever atentados terroristas que ocorreram ao longo da história mas estes servem o seu propósito. Os ataques terroristas são cometidos por extremistas. Não interessa se é extremismo religioso ou politico. São extremistas e não respeitam o ser humano, nem sequer os seus conterrâneos.

 

Curiosamente nenhum destes terroristas era refugiado. Apenas eram pessoas carregadas de ódio alimentado pelo medo.

 

Aquelas pessoas que tentam desesperadamente chegar à Europa estão em fuga. Fogem pela vida!

O Estado Islâmico (EI) diz que pelo meio infiltraram terroristas. Mas que interessa ao EI dizer que está a enviar terroristas? Rigorosamente nada para alem de criar ainda mais terror. Se fosse verdade, o seu objectivo era estarem incógnitos até que fizessem o seu ataque. Os refugiados fogem do EI e este quer simplesmente mata-los  de preferência com alguma tortura mediatizada.

 

Criar medo na Europa é criar um beco sem saída para os refugiados que irá facilitar o trabalho do EI ou imagens de gente morta nas praias europeias que imagino lhes traga bastante satisfação.

Francamente não acho que a solução esteja na recepção de refugiados ad eternum. Eu, pacifista que sou, julgo que neste momento não há outra solução que não seja uma intervenção militar forte e consistente e que conclua com um verdadeiro trabalho de pacificação ao contrário do que tem sido feito no Afganistão ou Iraque.

 

Mas enquanto o mundo não contraria as vidências de Nostredamus, prefiro ter por vizinho um refugiado, mesmo que isso implique correr o risco que o EI esteja a falar a verdade, do que ir contra o que nos distingue enquanto espécie, a humanidade, solidariedade e empatia e deixar que pessoas morram nas mãos de um grupo de extremistas no outro lado do mediterrâneo.

Roupa Velha

 

Estava hoje sentado na última fila da II Convenção Cidadã e sem mais nem menos surge-me na cabeça “Roupa Velha”.

Ao contrário de boa parte da população portuguesa, eu passo bem sem bacalhau e de qualquer das formas, o natal ainda vem longe.

Fui imediatamente levado para a aula virada para a psicanalise em que o professor explica como “ler” o significado dos sonhos. Contou ele que em determinada altura uma paciente sonhava insistentemente com ela própria a passear junto de um rio em Bruxelas. Aquilo não faria qualquer tipo de sentido uma vez que nunca tinha estado, ou planeava, ir a Bruxelas.

Concluiu então que o resultado da sua análise, não era Bruxelas mas sim Bruxas elas, no caso as suas tias que lhe faziam a vida difícil.

E roupa velha?

Foi francamente mais fácil de perceber ou pelo menos atribuir-lhe sentido.

Roupa velha é uma receita que tradicionalmente se faz depois do natal com as sobras do bacalhau e couves da noite de natal.

O bacalhau é o mesmo, tal como as couves. A receita é que é outra, tal como a sua apresentação.

Tal como a roupa velha, as politicas dos velhos partidos são exactamente as mesmas. Fazemos piadas sobre o discurso extremamente coerente do PCP ao ponto de se usar a expressão “K7 Cunhal”, mas a verdade é que os outros, com melhores ou piores oradores, com uma estratégia mais ou menos assertiva, com a vedeta do momento ou a ovelha choné do momento, acabam por dizer precisamente o mesmo que disseram há quatro anos atrás. Aliás, pior que usar ideias iguais é exercer o mesmo tipo de política que sabemos não resultar.

Eu que não sou grande apreciador de bacalhau fiquei aliviado por estar naquela ultima fila daquela convenção de que nenhuma televisão se interessou por reportar. Estava ali rodeado de gente com ideias frescas e desempoeiradas. Gente com vontade de fazer mais, melhor e sobretudo diferente. Gente que leva pizza aos jornalistas, gente que atravessa o país de bicicleta, gente que anda numa Ford transit de cidade em cidade, gente que luta diariamente por uma oportunidade para explicar o que somos, quem somos e o que propomos.

Que bom é saber que estou com pessoas de todas as idades e que não tenho de comer roupa velha!

Obrigado.

Desajustamento

Subitamente tropeço. Olho para a calçada e lá em baixo, muito em baixo, vejo os juros da dívida soberana. Não admira que não tivesse dado conta dos mesmos, de tão baixos que estavam. Numa vulgar atitude achei melhor apanhar tão estranho objecto do chão, antes que alguém incauto como eu também tropeçasse.

Aproximo-me do contentor do lixo e qual não é o meu espanto ao vislumbrar no seu interior o “rating” português. Já não entendia nada… Então com juros tão baixinhos, como é que o nosso “rating” não saía do nível do lixo?

Segui o meu rumo habitual, a pensar com meus botões. Instintivamente baixei-me, pois era comum bater com a cabeça naquele ramo de árvore. Mas fiquei com a sensação que desta vez ficara longe desse vulgar incidente. Voltei-me e reparei que o ramo, baptizado de dívida externa, não estava na sua posição normal. Estava antes muito mais elevado. E a cada minuto esta árvore parecia crescer, avolumando assim o valor da dívida e colocando o ramo cada vez mais alto.

Resumindo, os juros baixam, a dívida aumenta e a nossa reputação nos mercados continua ao nível do lixo. Agora expliquem-me muito devagarinho, para que é que serviu tanto “ajustamento”?

É portanto urgente desajustar o voto ao seu sentido tradicional nas próximas legislativas. É inadiável votar a favor da renegociação da dívida e contra o tratado orçamental. Deixar claro que rigor orçamental, que é desejável, não é sinónimo de austeridade cega. Ou arrepiamos caminho ou tornamo-nos num povo de contorcionistas saltimbancos, de tanta “flexibilização” a que estamos sujeitos. Desajustemos!

 

Montijo, 11 de Setembro de 2015

Ignorancia Militante

 

 

De modo geral todos os que trabalham comigo sabem da minha actividade politica. Uns não dizem nada, outros fazem algumas piadas, outros procuram confronto.

Os que procuram confronto, são normalmente pessoas informadas e procuram debate e/ou fragilidades onde possam pegar.

Dos que não dizem nada, nada sei e francamente não vou tentar tirar deles sumo.

Os que fazem piadas dividem-se nos que fazem piadas fáceis e os que tentam provocar.

Hoje deparei-me com um dos últimos. A conversa começou pela tentativa de associar a Joana Amaral Dias ao LIVRE. Não colou, passou a fazer piadas sobre a entrega de pizzas aos repórteres. Ficaram abertas as hostilidades!

Passámos dali para o debate de António Costa com Pedro Passos Coelho de ontem e o sujeito, contra todas as opiniões, dizia que o debate foi ganho pelo Passos Coelho. Afinado pelo mesmo diapasão, defendia que seria a descida do IRC e TSU, mesmo que implicasse a subida do mesmo aos trabalhadores, a relançar a economia e a diminuir o desemprego.

Tentei demonstrar o contrário. Ou melhor, tentei demonstrar que diminuir o IRC e a TSU nas empresas por si só, só iria ampliar os lucros das empresas sem que isso se transformasse em emprego ou repartição da riqueza. Quando alguém não quer escutar, não vale a pena falar.

Mas o que me preocupou foi perceber que para ele, como para muitos, a esquerda é o PCP e o comunismo. Aliás, se perguntar aos militantes do PCP, eles também acreditam que eles é que são a verdadeira esquerda e tudo o resto ou é de direita ou são partidos criados pela direita para atrapalhar a esquerda (eles).

Argumentou ele: “Viu-se o que fez a esquerda depois do 25 de Abril, que os trabalhadores passaram a patrões e deram cabo do país…”.

Mas a verdade é outra. Perguntei-lhe eu: “ É ou não o PNR um partido de direita? Sendo então verdade que ele é de direita, é o PNR um partido de direita ou a direita é o PNR?” Senti-o baralhado com o argumento.

Custa perceber que as pessoas não possuam o mínimo de cultura politica e emprenhem de ouvido. Ouvem falar de uma rotulagem aos partidos, normalmente depreciativa, e a partir dai, não adianta apresentar factos, nem mesmo por quem faz parte dos partidos.

A luta não é inglória, mas não é fácil chegar às pessoas que não querem ser alcançadas.

Lembro-me sempre da imagem do tipo acorrentado na Alegoria da Caverna: “pah, só estás a ver sombras. Olha para trás!”.

Memória Curta

Queria começar a minha participação no “Maré Alta” de outro modo, mas sou forçado a começar com uma maré de sangue, de horror e tristeza.

Durante quase toda, senão toda, a história da humanidade homens, mulheres e crianças foram confrontados com a condição de fugir ou morrer. Homens, mulheres e crianças que nada tinham que ver com guerras ou politicas e que se viram no meio de interesses de terceiros quando apenas queriam seguir a sua vida.

No passado as deslocações tinham outra dimensão quer nas distâncias quer na maré de gente que se move em desespero.

Curiosamente, é hoje que o mundo ocidental diz defender a Carta Universal dos Direitos do Homem, que este ignora os Homens e os seus direitos.

Enquanto milhares dão à costa, muitos já mortos, a Europa discute quem os irá acolher, em que quantidades e a troco de quantos euros. Não há humanidade, há negócio nestas mentes distorcidas.

Muitos argumentam que não os querem cá. A verdade é que nem eles querem para cá vir. Vêm porque não têm outra opção e acolher refugiados não irá resolver, sobretudo face às intenções expansionistas do Estado Islâmico.

Num passado historicamente recente, também a Europa teve os seus refugiados:

Refugiados belgas em Paris, 1914

Refugiados judeus em Inglaterra, II Guerra Mundial

 

Portugueses que retornam das ex-colónias, 1975

Refugiados nos Balcãs, anos 90

Refugiados ucranianos, 2014

 

Até quando?

 

 

 

 

Refúgio da Liberdade

  ilustração retirada do site do Centro de Acolhimento Para os Refugiados

3. Refugiados - desenho-infantil CPR.jpg

 

Não queria escrever sobre isto. Nunca quis. Aliás, preferia que ninguém escrevesse sobre o assunto. Que este apenas pudesse surgir da pena de um ou outro escritor com uma imaginação mais negra… Mas embora seja livre para escrever o que quero, não consegui escapar a esta temática que é também uma questão de liberdade.

São muitos e muitos os milhares de pessoas, oriundas da margem sul da bacia Mediterrânea, que entregam as suas vidas à sorte. Elas são, efectivamente, refugiadas. Fogem de países em guerra ou nos quais são perseguidas. Vêm para a Europa por necessidade, mas também na esperança de encontrar liberdade, compreensão e um futuro. A maioria delas não querem sair dos seus países de origem, mas não lhes resta outra alternativa.

Irrita-me sobremaneira a forma como tem vindo a ser tratado este tema em vários órgãos de comunicação social e por uma parte considerável da sociedade. Vulgarizou-se a expressão “migrantes”. Não raras vezes tenho a sensação de estar perante um documentário da National Geographic Channel que trata dos percursos sazonais encetados por certas aves. Sobressalto-me para perceber que afinal eu é que estou certo. Trata-se de uma questão de direitos humanos. Do mais elementar que pode haver – do direito à vida.

Em desespero estas pessoas fazem-se ao Mediterrâneo. Enfrentam suas vagas e aceitam seu fado. Na convicção de que este mar as libertará. E essa convicção faz com que estejam dispostas a pagar um preço bem caro pela liberdade. Muitas vezes com a própria vida. São gentes que em desespero preferem morrer tentando alcançar a liberdade, do que viver sob o espectro constante de uma morte anunciada.

Passando os caprichos mediterrânicos e chegando a terra europeia, as dificuldades não diminuem. Vítimas duplas de uma crise que os nossos líderes teimam em não solucionar e de uma campanha que os identifica como ilegais e oportunistas. E a busca da liberdade aprisiona-os novamente. Ninguém parece querer ser responsável por este problema, quando está bem patente que a responsabilidade é de todos e que as constantes intervenções no Norte de África e Médio Oriente pelo chamado mundo ocidental deixam a descoberto a nossa quota-parte nesta situação.

À Europa cabe relembrar os êxodos que presenciámos nas duas grandes guerras. O amor que cultivamos pela liberdade não deve ser apenas para consumo interno. O espírito universalista e de fraternidade deve ficar patenteado na recepção destes refugiados e na sua integração na sociedade. Sejam essas soluções temporárias ou permanentes. Deixemos claro os princípios que norteiam (ou deveriam nortear) a União Europeia, na ajuda que devemos e estes seres humanos, a quem lhes foi roubado o passado e parece não querer ser oferecido um futuro…

Ao Sabor da Maré

Os últimos tempos não têm sido fáceis para a nossa democracia. Há quem diga que a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor. Partindo do princípio que não existem países vazios de suas gentes, não percebo como isso pode ser uma boa notícia.

Esse é o principal enigma que a actual coligação terá para resolver. O de explicar a todos como é que, em sua opinião, o país está melhor que em 2011 mas as pessoas passam ainda maiores dificuldades. E aí o povo deve preservar a memória recente. Relembrar as agruras que tem passado. Não mais se deixar embalar com o discurso da culpa, do viver acima das possibilidades, da necessidade de empobrecer… 

Ir na corrente desta história é aceitar a promessa de que numa próxima legislatura a coligação de direita trará um futuro dourado. Da cor dos vistos. Mas não dos vistos da recente classe emigrante, que desesperançada deste país, procura lá fora o seu futuro. Esses vistos são cinzentos, nublados. E essas pessoas não pedem nada por aí além. Tão-somente uma oportunidade. 

Deixar-se ao sabor da maré é também esquecer os cortes nos salários e reformas, os brutais aumentos de impostos, a precarização laboral, as dificuldades de acesso à justiça, as falhas na saúde, o desinvestimento na escola pública e na cultura. Apenas para falar em alguns pontos deste ciclo que se encerra. 

Por tempo demais andámos ao sabor da maré. Devemos todos relembrar quem tem desbaratado o que vinha a ser arduamente construído desde Abril. É tempo de remar contra a maré. Ousar escolher diferente, pois é possível fazer melhor.

 

Areia Branca, 2 de Setembro de 2015

Maré Alta

IMG_20150902_105106[1].jpg

O mar respira. Expira com a baixa-mar; inspira com a maré alta. É precisamente esse o objectivo deste blogue: inspirar. Em primeiro lugar, todos e todas que colaboram no mesmo. Depois, aqueles e aquelas que partilham dos nossos pontos de vista. Por último, quem, alienado do activismo e sem opinião formada, encontrar aqui um porto de abrigo e uma resposta para a inquietação que os domina.

Com efeito, uma corrente de pensamento de esquerda une as autoras e autores deste blogue. Coincidentes em muitas matérias, divergentes noutras. É isto a esquerda. A noção de que todos somos diferentes, mas a convicção de que é dialogando e discutindo que construímos as pontes para as futuras utopias. E desta forma edificar a democracia.

Outro sentimento comum é a urgência. A necessidade vital que sentimos em fazer algo. Abandonar o marasmo e tentar salvar o país do naufrágio. Começar a escritura de um outro diário de bordo. Um que nos transmita esperança e nos devolva o futuro. Mas que não nos limite à navegação à vista. Porque sabemos que conseguimos navegar em alto mar.

Assim é maré alta. Um local para encetar discussões e trocar impressões. Mas acima de tudo, uma ferramenta para inspirar. No início desta viagem interessa clarificar que temos a noção que não mudaremos o mundo. Serão precisas muitas mais vozes e mãos para que tal aconteça. Mas se chegarmos a meia dúzia de pessoas, já valeu a pena. Tentaremos fazer a nossa parte para criar o sobressalto cívico que julgamos necessário. Alimentar uma onda de fundo na sociedade portuguesa, que vise optar por uma alternativa real. Para que tudo mude, efectivamente.

Maré alta - inspira-te...

Montijo, 1 de Setembro de 2015

Desenvolvimento do Turismo ou Turismo para o desenvolvimento?

Segundo os último dados, a indústria do Turismo em Portugal é fundamental para equilibrar as contas públicas nacionais.

A verdade é que nos último anos o Turismo tem estado sempre a crescer em Portugal. Soubemos por exemplo reagir  à instabilidade no norte de África que fez com fossem "desviados" para Portugal centenas de milhares de turistas, com destaque para os franceses, que habitualmente escolhiam o continente vizinho para as suas férias e que dada a insegurança preferiram vir para Portugal, um destino seguro e igualmente barato.

Se neste tempo de crise o objectivo foi subir receitas a qualquer custo, através do Turismo de massas e de low-cost's, a verdade é que esse é um modelo insustentável a médio-longo prazo.

Proponho por isso que se passe, enquanto esta atividade está em "alta", de políticas de Desenvolvimento do Turismo para políticas de Turismo para o Desenvlvimento.

Parece não haver muita diferença, mas ela existe e é fundamental. Existem ainda regiões que se podem desenvolver através do Turismo, mas para isso é necessário que haja políticas que beneficiem o trabalho local e os direitos do trabalhadores, o respeito pela história e pelo património locais (não vale destruir para construir torres de apartamentos iguais às do resto do mundo), o respeito pelo património imaterial, opondo-o à massificação do gosto que faz com que todo o mundo pareça igual, o realçar pela especificidade de cada região, o respeito pelo direito dos locais de viverem nas suas terras, não sendo "obrigados" a sair das mesmas para se construírem hotéis e hostals, entre muitas outras políticas já estudadas e testadas noutras paragens como o investimento em Turismo Cultural, Ecológico, Inclusivo, Desportivo, Religioso...

O que hoje parece ser uma boa notícia só o será se soubermos lidar e gerir o sucesso desta indústria em prol dos cidadãos, ou acabamos todos funcionários precários de um grande parque de diversões nacional que entrará em falência assim que surja outro parque igual noutro país mais barato.

Temos de evoluir para colocar o Turismo ao Serviço do país e deixar de pensar que tem de ser o país ao Serviço do Turismo.

Pág. 3/3