Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

A Homossexualidade em Marinho e Pinto

 

A rádio Antena1 promoveu, ontem e hoje, debates com os partidos sem assento parlamentar.

Ontem sentaram-se à mesa os velhos partidos e hoje foi o dia dos partidos que nunca concorreram em legislativas.

Resumo do dia de ontem: Quem tem a proposta mais barbara e radical para o país? Quase todos concordaram com a saída do Euro e depois entre mortos e feridos alguém há-de sobreviver. Não foi bonito… Curiosamente o MRPP e o PNR estão carregados de pontos em comum e aparentemente pouco mais muda sem ser o penteado. Alias, o MRPP apostou no slogan “MORTE AOS TRAIDORES”.

Hoje foi o dia dos jovens partidos que poderiam ter ali a oportunidade de demonstrar algo de novo para o país. Mas assim não foi porque um par de candidatos tentaram tomar de assalto o microfone.

Mas o holofote de hoje foi para Marinho e Pinto e como sempre, pelas piores razões. Apesar de este ter dito que o seu programa estava na página oficial do PDR, a verdade é que recentemente tentei consulta-lo para conhecer o seu programa e nada por lá encontrei. Hoje, depois de dizer na rádio que ele lá se encontrava com o preciosismo de dizer quantos caracteres o resumo tinha, voltei à página e nada encontrei. A pouco mais de uma semana das eleições, muito pior que o AGIR que tem 11 páginas de bandeiras, será o PDR que não tem programa mas ataca tudo e todos com deturpações da verdade, falsas verdades apontadas a ninguém em particular e a todos em geral e as poucas vezes que aponta o dedo a pessoas em concreto o tiro sai-lhe pela culatra. Se existe gente reles e ignóbil, Marinho e Pinto é um deles.

Mas é quando se mete o dedo na ferida que ele demonstra precisamente o sujeito que é.

Um sujeito que se diz democrático, republicano e por vezes até mete o pé em ceara alheia e diz-se de esquerda (se bem que numa das ultimas entrevistas já não deu resposta), é contra a coadpção por relações estáveis por casamento ou união de facto por homossexuais.

Naturalmente que a democracia permite que este tipo de sujeitos se expresse. Eu é que não admito que ele se diga o que não é. Alias, se ele tivesse mesmo interesse em ser deputado nacional, seria candidato em Lisboa. Mas se calhar, e agora usando do seu discurso corrosivo mas pouco factual, o ordenado de eurodeputado é bem mais apelativo que o de deputado em Portugal e concorrendo em Coimbra corre menos riscos de enriquecer sem fazer nenhum como não fez até agora.

Voltemos então ao que o Sr. Marinho e Pinto ataca: diz ele que uma família é constituída por um homem e uma mulher e que a criança assim deve nascer e crescer.

Ora, segundo este mesmo pensamento, famílias em que um dos elementos do casal tenha falecido e o outro esteja sozinho, é algo de francamente errado.

Um casal que se divorciou e o filho ora está com um pai ora com outro, será menos errado mas igualmente errado.

Um casal divorciado que entretanto ambos voltaram a casar, o jovem passa a ter dois pais e duas mães… confuso hein! Estará errado ou não? Aqui tenho duvidas.

Um casal de uma família disfuncional com episódios de violência, está certo. É um casal!

Um casal que um ou os dois sejam alcoólicos ou toxicodependentes, está certo. É um casal!

Uma criança está melhor numa instituição do que com homossexuais que alegadamente vão educar crianças… homossexuais.

O Sr. Marinho e Pinto é advogado e em teoria deve saber ler leis melhor do que eu. Em teoria!

Recorrendo à mãe de todas as leis, a Constituição da Republica Portuguesa:

Artigo 12.º

Princípio da universalidade

  1. Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição.

Artigo 13.º

Princípio da igualdade

  1. 1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
  2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Artigo 36.º

Família, casamento e filiação

  1. 1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.
  2. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.
  3. Os cônjuges têm iguais direitos e deveres quanto à capacidade civil e política e à manutenção e educação dos filhos.
  4. Os filhos nascidos fora do casamento não podem, por esse motivo, ser objecto de qualquer discriminação e a lei ou as repartições oficiais não podem usar designações discriminatórias relativas à filiação.
  5. 5. Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos.
  6. Os filhos não podem ser separados dos pais, salvo quando estes não cumpram os seus deveres fundamentais para com eles e sempre mediante decisão judicial.
  7. A adopção é regulada e protegida nos termos da lei, a qual deve estabelecer formas céleres para a respectiva tramitação.

 

Ora, apenas por aqui se consegue perceber um casal homossexual é, e não pode ser considerado de outra forma, igual a um casal heterossexual.

Sobre a homossexualidade em si, a questão é simples: O que é que a liberdade sexual de um vizinho pode perturbar o teu sono? Em rigorosamente nada a não ser que passes tempo demais a pensar na cama dos outros. A vida pessoal e íntima do vizinho diz-te tanto respeito como a tua diz respeito aos teus vizinhos.

Quanto à coadpção por casais homossexuais, temos de considerar vários factores práticos e objectivos:

Um sujeito, na condição de solteiro, pode adoptar uma criança sem ter que justificar a sua sexualidade. Depois de adoptada, uma criança NÃO pode ser devolvida, já o sujeito pode assumir a sua relação homossexual e até casar-se. Portanto, é possível contornar a lei.

Existe centenas de crianças em instituições de acolhimento, que muitas delas chegarão à maioridade nessas instituições até que são colocadas fora de portas e entregues à sua sorte.

É ou não melhor ter um par de pais ou um par de mães do que não ter ninguém?

Uma criança numa instituição não tem modelo de pai ou de mãe. Uma criança órfã de pai, não tem modelo deste e vice-versa.

Todas estas desculpas só existem para camuflar, talvez a própria sexualidade do acusador e a homofobia.

Quanto mais o tempo passa mais parecido está Marinho e Pinto com o senhor seu pai…

Fora de Jogo

Que não me levem a mal... Eu até aprecio o desporto-rei. Palavra que sim. Algo me seduz naquele estranho ritual no qual 22 pessoas vestidas de calções se espalham por um rectângulo relvado formando duas equipas, sendo que cada uma delas tenta conduzir um objecto esférico na direcção das redes do adversário, concretizando um golo. O futebol ou a “bola”, como é carinhosamente apelidado pelo povo, é mais que o desporto nacional. É um fenómeno educacional e social. Crescemos com ele, rodeia-nos e até nos aprisiona. Em certos casos desempenha um papel de extrema importância na vida de alguns.

Não conseguimos decorar os nomes dos/as ministros/as do governo ou os reis da primeira dinastia, mas ai de quem não tem na ponta da língua o 11 titular da sua equipa do coração. O futebol é gerador de paixões e de ódios, de violência e de solidariedade. Caberia o campo do racional, mas fizemos dele sentimento.

Evidentemente que essa matriz cultural está profundamente enraizada na nossa sociedade. Isto não será necessariamente mau nem bom. O problema está quando se tenta vender o desporto-rei como a única coisa a que devemos dar importância. Pouco interessa a alteração da TSU, os cortes nas pensões e salários ou os aumentos de impostos, pois o meu clube até ganhou este fim-de-semana... Esse é o verdadeiro devir da realização pessoal.

Tudo isto vem a propósito da marcação de jogos do campeonato nacional de futebol profissional para o dia 4 de Outubro, dia das eleições legislativas. Tradicionalmente o campeonato pára nesse fim-de-semana ou pelo menos no dia eleitoral. Este ano, tal não sucede. Alega a Liga de Clubes, na pessoa do seu presidente, que não havia outra disponibilidade para albergar estes encontros. Com efeito, o ano conta com apenas 365 dias o que dificulta sobremaneira a marcação para outra data.

Esta situação, não sendo de forma alguma ilegal, reveste-se de uma enorme falta de bom senso e contribui, mesmo que involuntariamente, para retirar a solenidade e superior importância para o país deste acto eleitoral em concreto. É também reflexo da falta de cultura democrática e de uma cidadania muito pouco activa politicamente, onde tudo serve para nos desresponsabilizar da decisão que teremos de tomar.

Passar um lei que proíba a realização de eventos desportivos em dias de sufrágio podia ser uma solução. Mas, particularmente, não sou muito favorável a proibicionismos. Julgo que a resposta deveria partir do povo, espontânea ou organizada. Atendendo ao cenário traçado, apelo a que se faça um boicote aos jogos da liga profissional de futebol do fim-de-semana de 3 e 4 de Outubro. Seria uma mensagem muito clara e forte se todos os estádios estivessem vazios e se os canais televisivos específicos não tivessem audiência.

No domingo de 4 de Outubro vamos fazer da democracia o nosso campeonato e apoiar quem desejarmos com o nosso voto, como se do nosso clube se tratasse. Deixemos fora de jogo outras questões menores. Porque nesse dia joga-se muito mais que um título de futebol, jogam-se as nossas vidas e o futuro do nosso país.

 

 

Montijo, 24 de Setembro de 2015

Syriza é a candeia que vai à frente.

 

A Grécia foi ontem, novamente, a votos em eleições legislativas e o resultado foi surpreendente. Ou talvez não…

Durante demasiado tempo foi plantado nas mentes das pessoas que tudo o que tudo o que foge do centro tradicional, um pouco à esquerda ou um pouco à direita, são um bando de radicais livres que só promovem medidas e políticas incautas.

Em Janeiro deste ano, e depois de terem experimentado quase tudo sem sucesso, os gregos decidiram que era altura de mudar e escolheram o Syriza. Por Portugal toda a esquerda se apressou a congratula-lo, mas antes que cantasse o galo, três vezes o negariam. Varoufakis transformou-se na popstar do momento ao enfrentar o poder instalado dando voz a todos os que na Europa se sentem esmagados pelo poder de Merkel. Mas em vez de estrela era Ícaro que ali estava e de asas queimadas acabou por cair.

Na verdade as suas propostas eram boas, boas demais para a bancocracia e capital regente.

Mas a realidade é que Tsipras teve de abdicar da estratégia porque nem a Europa cedia nem os gregos encontraram outra solução que não fosse pior do que a austeridade anunciada, algo que por cá, alguns partidos insistem que é a saída ideal.

Tsipras acabou por capitular e a Europa acabou por oferecer, depois do sacrifício humano, parte do plano que o Governo grego tinha levado a Merkel.

Mas a ala mais radical do Syriza saiu e a crise política instalou-se. Os gregos foram convocados a pronunciar-se uma vez mais.

Lições a retirar:

-Os gregos estão convictos que esta esquerda não é maluca e tem melhor probabilidade de defender os gregos do que os partidos “tradicionais”.

-Os gregos sabem que sair do Euro é um erro catastrófico.

-A Europa reconhece que muitos países estão a virar à esquerda tal como aconteceu no Reino Unido e apenas o sul da Europa continua com o seu pensamento de medo disfarçado de moderação.

-Por cá, os partidos que se colam ao Syriza, defendem a saída do Euro enquanto eles, no olho do furacão insistem que do mal, o menos, é melhor ficar.

Independentemente do modo como a Grécia é usada por terras lusas, ora para exemplo positivo ora para exemplo negativo, a verdade é que a Grécia não, nunca e nunca será Portugal.

As pessoas são diferentes, os hábitos e cultura são diferentes, o tecido empresarial é diferente, as parcerias económicas são diferentes e geograficamente, ainda que num mundo globalizado, estão rodeados por países diferentes. Naturalmente que a ideologia possa ser semelhante mas é por isso que nos reconhecemos uns aos outros como sujeitos de esquerda.

Resta-me apenas congratular a reeleição do Syriza sem ter de me colar a ele e desejar que o seu trabalho traga dignidade e melhoria da qualidade de vida aos gregos.

Por cá, e agora sim colando-me um pouco, não é demais relembrar que não temos de votar sempre nos mesmos e nem todos são populistas com demagogia barata, nem todos são radicais livres. São 16 candidaturas e com toda a certeza, seja na direita, ao centro ou à esquerda, existem opções válidas que não têm de passar pelos velhos companhias de circo do costume.

É tempo de mudar, É TEMPO DE AVANÇAR!

A Direita e a deturpação do discurso político

O discurso político não muda. Como uma cassete em modo contínuo. Se calhar agora já em formato digital, tipo mp3, mas sempre com a mesma mensagem; a mesma ideia. A Direita é a guardiã da verdade, o supra-sumo da honestidade o exemplo acabado do rigor. Sempre que as coisas correm mal, é colocada a culpa na Esquerda, cujos membros são sempre apelidados de radicais, no sentido pejorativo do termo, piegas ou perigosos e que não sabem fazer contas.

Isto serve também para quando existem posições contrárias às da Direita. Pois, com efeito, como é que é possível negar a verdade? Serão por ventura os críticos adversos ao rigor e à honestidade? Colocando a questão neste patamar, a Direita incute no eleitorado o sentimento de insegurança e a dúvida plausível. E esse medo, essa incerteza, é invariavelmente potenciado em votos. Só assim se consegue explicar que após o descalabro nacional dos últimos 4 anos, a coligação responsável pelo Governo apresente uma intenção de voto ainda superior a 30% (embora esta seja a mais baixa em 40 anos de democracia).

A Esquerda não está imune à crítica, sendo cúmplice desta situação. Permite que o discurso se mantenha no campo do certo e errado, do bem e do mal, do moderado e do extremismo, deixando-se arrastar na ressaca dos conceitos vagos e politicamente indefinidos. Fica assim claro que o método da Direita tem resultado. Continuam a apresentar-se como senhores da verdade e tal tem colhido frutos. É forte a mensagem transmitida de que fora do seu campo ideológico não há alternativa; é o vazio. Descredibilizam totalmente as ideias alheias, adjectivando-as de erradas, radicais, demagógicas. Este é o método e é isto que a Esquerda tem de combater.

O primeiro passo será contrapor ao defendido pela direita factos e casos incontestáveis e que invertam a polaridade da dúvida plausível. A título de exemplo peguemos no caso do emprego. A coligação destruiu 400 mil postos de trabalhos. Nos últimos 2 anos criou 200 mil, defendendo com isso que é a retoma que está a caminho. Entretanto a taxa de desemprego recuou para valores de 2011, segundo dados do próprio INE. Então, se foram extintos 400 mil postos e criados 200 mil, havendo um saldo negativo de outros 200 mil, como é que o desemprego diminui? A resposta sabemos onde está. No mito urbano da emigração, nos que desistiram, no contratos de inserção e nos estágios bonificados. E são estes pormenores que a Esquerda deverá explorar.

O segundo passo será a desmistificação da ideia de radicalismo. Se larga franja dos especialistas económicos, muitos do campo conservador, indicam que a nossa dívida externa é impagável, como é que é possível continuara a considerar o processo de renegociação da dívida um acto de radicalismo? Ou iniciamos já esse procedimento ou seremos ultrapassados (e talvez cilindrados) pelos acontecimentos.

O terceiro passo deverá ser o de esclarecer que em política nem tudo o que parece é, especialmente na Direita. Esta, que se apresenta tantas vezes vestida de imaculada honestidade, é sistematicamente acometida por casos de corrupção, seja especificamente por via partidária, seja por via dos interesses instituídos e da banca e alta finança, campos ideologicamente ligados ao liberalismo, logo à Direita nacional.

Por último temos o passo mais difícil. Rebater um sentimento tão humano e natural como o medo, a insegurança. Libertar as pessoas do medo é também libertá-las da subserviência e do conformismo, os 3 vértices que compõem aquilo que eu gosto de chamar de “triângulo vicioso” que domina a nossa sociedade. Para isso, a Esquerda deve dotar o seu discurso de esperança. Só através da visão de um caminho, de um rumo e de um futuro, pode o povo compreender que existe alternativa e que a mesma é de Esquerda. Que abraça o progresso, a evolução social e que luta sem quartel as desigualdades. Que não é nem extremista nem radical. “É de esquerda; e ponto!*”

Traduzir o discurso da Direita e torná-lo mais acessível à população é meio caminho andado para a sua derrota. Cabe à Esquerda ser competente e prestar este serviço público...

 

Montijo, 20 de Setembro de 2015

 

*frase proferida por Ricardo Alves, aquando da entrega da documentação no Tribunal Constitucional para formalização do LIVRE

Tomados de Assalto

 

Segundo indicam os estudos, o Homem conta por esta altura com 200 mil anos de existência. Já a terra tem cerca de 4,54 bilhão de anos.

Um individuo actual, com muita sorte consegue chegar aos 100 anos.

A nossa passagem pelo planeta, dadas as dimensões temporais acima referidas, pode ser considerada com efémera, um piscar de olho do tempo e ainda assim, vivemos como se a historia nunca tivesse acontecido, como se a existência não fosse para além de nós próprios.

Existem por ai uns sujeitos que defendem que a nossa existência se deve reger pela lei do mais forte ou lei da selva. Os melhores serão recompensados, os medianos servirão os melhores e os piores, ficam entregues à sua sorte e provavelmente à morte.

Esta teoria é engraçada no Discovery Channel quando observamos a lei da natureza em que uma espécie se alimenta de outra para viver.

Dentro da mesma espécie, o que normalmente observamos são comportamentos de luta territorial e de acasalamento que raramente resultam na morte. A vida, mesmo para estes que não a pensam, é valiosa demais para se desperdiçar.

Ainda assim, nós que nos julgamos intelectualmente superiores matamo-nos e não nos importamos sequer com os nossos semelhantes. Hoje em dia, mesmo as nossas famílias só o são quase em períodos festivos. Apesar de uma rede de transportes que nos permite chegar a destinos cada vez mais distantes num menor período de tempo, as reuniões familiares são cada vez mais espaçadas no tempo, cada vez menos sentidas.

Em diversas espécies, uma delas a nossa, existe um grupo de sujeitos chamados de free rider.

O free rider é um individuo que dentro de uma espécie social como a nossa, em nada contribui para a sua manutenção e melhoria mas usufrui da sua existência. Ou seja, a nossa sociedade assenta num comportamento de reciprocidade em que todos trabalham para o bem comum e acautelam os momentos de fragilidade dos seus membros ao passo que alguns, reconhecendo falhas do sistema, se aproveitam dele através dessas falhas sem no entanto contribuir em nada.

Normalmente os indivíduos que apresentam este tipo de comportamento, logo que apanhados a aproveitar-se do bem comum, são afastados da comunidade.

O Homem curiosamente faz o oposto. Debaixo da capa de quem funciona ao abrigo da sociedade, temos indivíduos que são profissionais do aproveitamento do sistema sem que em nada contribuam para o seu funcionamento.

A maioria da população trabalha e contribui para a sociedade ao passo que uma pequena parcela apenas cria riqueza sem produzir rigorosamente nada para o bem comum.

A nossa sociedade, curiosamente, foi tomada de assalto por free riders com um discurso empolgados e vibrantes de riqueza e estabilidade para todos. A verdade é que o “todos” é referente apenas a um grupo de pessoas, igualmente free riders que se associam apenas para abusar da sociedade. Eles próprios se aproveitam dos membros do seu grupo sempre que possível e não se importam que se percam alguns como danos colaterais.

Estes são os que promovem a flexibilização laboral, a desregulamentação dos mercados financeiros, a liberalização da educação e saúde e um dia até da segurança, a venda do património estratégico… O fim da existência humana em sociedade ao abrigo de um Estado Social.

Estes são os que promovem a lei da selva dentro da própria espécie causando a morte e miséria de muitos em nome do crescimento económico.

A nossa vida, com sorte dura 100 anos. O Homem já por cá anda há 200 mil anos. Tu hoje podes ir a favor da corrente e tirar partido do sistema instituído. Mas os teus filhos e teus netos terão essa capacidade?

Eu prefiro garantir que aqui e agora se garanta que mais ninguém terá de sofrer para que alguns enriqueçam para além da sua capacidade de gastar, que filhos, netos e todos os que se seguem à nossa existência possam viver dentro do que se possa considerar uma existência digna.

É aqui, é agora, é TEMPO DE AVANÇAR!

Voto Útil

 

Todo o sujeito que exerce o seu direito de voto, transforma-o num acto útil porque permite que seja feita uma escolha democrática e a co-responsabilização da comunidade.

Se metade da população não vota e delega na outra metade o direito de opção, se considerarmos que dentro dessa metade se encontram muitos que são parte interessada, interesse que vai para alem do interesse do comum cidadão que espera que o Governo eleito o faça dentro daquilo a que se propõe e ao encontro das necessidades do povo, então o acto democrático fica desvirtuado.

Então, antes de mais, útil é a participação dos interessados, ou seja, todos nós.

Ao contrário, a abstenção irá servir apenas em benefício dos partidos grandes e ao contrário do que se quer dar a crer, como manifestação de descontentamento, não serve de nada.

Ainda há pouco, um conhecido diz publicamente: “em consciência não votarei!”.

Alguém deu uma resposta em sentido contrário, advogando a utilidade do voto e remata mais ou menos assim: “Eu votarei naquele que tiver mais hipóteses de tirar de lá este Governo…”.

Nunca será demais recordar que há apenas 4 anos o povo fez precisamente o mesmo preparando-se agora para colocar lá os mesmos que há 4 anos fizeram questão de derrubar.

Um partido não é uma cara, não é um projecto unipessoal. É constituído por muita gente que independentemente da cara que aparece no ecrã, continua lá a produzir propostas.

Em QUATRO anos, o que era mau transformou-se agora na salvação? Duvido.

Uma democracia representativa tem por pretensão que sejam eleitos partidos que representem os eleitores, que traga a política nacional para o lado daquela que julga ser a sua família politica.

Se não te sentes representado pelo Partido Socialista ou Partido Social Democrata, porque insistes no erro?

Errar é humano. Insistir no erro à espera que o resultado seja diferente é patológico.

Praxiência

Ele há coisas que me custam entender. Uma delas é o fenómeno das praxes académicas. Até que ponto a humilhação do próximo pode ser considerada como parte de um processo de integração? Que valorosas lições podem ser aproveitadas para o futuro? Que papel desempenham as praxes no percurso académico?

Invariavelmente, as respostas a estas questões são um chorrilho de chavões, que deixam qualquer pessoa minimamente atenta insatisfeita com as mesmas. A cartada da tradição vem sempre à baila. Mesmo admitindo que existem décadas ou séculos de história nesta prática, não podemos, de ânimo leve, aceitar tudo o que venha rotulado como tal. Existiam muitas tradições, entretanto extintas ou repudiadas pela sociedade moderna.

É falsa a ideia que se transmite de que a maioria dos alunos adere a este "circo". Lembro-me bem que, na altura em que era estudante, dos 200 ou 300 alunos que entraram no mesmo curso nesse ano, somente 20 ou 30 alinharam nessa brincadeira. Eu fui um dos que decidiram ficar de fora. Foram-me veladas ameaças de marginalização pelo meu percurso académico fora. Curiosamente dei-me muito bem com a grande maioria dos meus colegas de curso. E se bem me recordo apenas duas ou três pessoas se trajaram a preto e branco no ano seguinte, para poderem pintar a cores.

É-me impossível compreender como é que alguém gritando ser burro ou soltando impropérios na via pública pode ficar mais preparado para o futuro. Como é que entoar canções brejeiras pode facilitar a defesa duma dissertação. Como poderá a simulação pública do acto sexual ajudar os alunos na preparação para os exames. E em que medida as caras pintadas, os cabelos sujos e as roupas rasgadas amenizam a vivência dos próximos anos e suavizam a adaptação à universidade...

O aproveitamento da insegurança, inexperiência e medo de um semelhante para divertimento próprio é repugnante e doentio. Apenas reproduz um modelo social preverso e perpetua um círculo que muitos de nós tentam quebrar. Temos de um lado os "veteranos", que impõem a sua vontade, como se representassem a elite nacional, os nossos privilegiados. Do outro os "caloiros", que representam o povo, a quem é incutido o espírito subserviente e ensinada a doutrina seguidista, sempre com uma promessa no horizonte. A cenoura que perseguem é a possibilidade de um dia também eles poderem humilhar o próximo. E assim a pescada morde o próprio rabo.

As praxes académicas são um fenómeno violento, física e/ou psicologicamente. Parecem-me ser cada vez mais usuais as ocasiões em que resvalam, ultrapassando todas as barreiras. São atentatórias da dignidade humana. Os praxados são, num primeiro momento, suas vítimas e, posteriormente, seus carrascos. O sistema é auto-suficiente. Estou convencido que a maioria dos caloiros, sejam voluntários, voluntários à força ou encarneirados, não se apercebe disso e entra num jogo que faz da humilhação do semelhante uma condição para a integração. Algo do género "brincar às ditadurazinhas".

Para estas estúpidas tradições, que só fazem a sociedade estagnar, o progresso marcar passo e replicam modelos que não queremos para o futuro, já não há  praxiência... Que a nossa juventude quebre o marasmo e não condescenda sua dignidade. Que o amanhã traga jovens mais livres de expressar sua opinião e sentimentos, repudiando serem tratados como lixo. Porque a Universidade é mesmo o espaço por excelência para exercitar a liberdade de pensamento. E que se encontre na igualdade e na fraternidade, condições essenciais numa sociedade democrática moderna, o campo específico para a integração dos novos estudantes na vida académica.

 

Montijo, 17 de Setembro de 2015

“Vá com urgência ao seu médico de família!”

“Vá com urgência ao seu médico de família!” começa a ser uma frase demasiadas vezes proferida por médicos hospitalares que observam doentes tanto em contexto de consulta externa (de onde estes poderiam, deveriam ou nem por isso ser encaminhados para o Serviço de Urgência desse mesmo hospital), como por médicos que, pasme-se, observam doentes no próprio Serviço de Urgência (um doente aqui observado ser enviado ao médico de família “com urgência” é no mínimo caricato e no máximo má prática).

Ora, o facto de um doente que acabou de ser observado em cuidados secundários ser “recambiado” de volta para o seu médico de família e ainda por cima “com urgência; ainda hoje se possível!” pode ter diversas consequências.

1 – consequências para o doente: perda de tempo, sensação de abandono ou de que o seu problema não é digno do tempo do médico hospitalar (mas que é “urgente” de alguma forma que não compreende) e frustração quando (por vezes acontece) não consegue consulta com o seu médico de família nas horas seguintes.

2- consequências para o médico de família: sentimentos de culpa por já não ter vagas suficientes para acolher mais aquele doente no seu dia de trabalho (iria ver mais esse doente em vez de quem ou de quê? E quando aquele já não é o único pedido extra naquele dia já sobrelotado?), indignação ao interpretar o gesto do colega hospitalar como uma “ordem” vinda de quem não lhe é superior hierarquicamente (a expressão mais comum é “o colega deve pensar que sou seu secretário!” e “nem uma carta se dignou escrever e agora tenho de adivinhar o que o doente não sabe explicar” ou ainda “se é assim tão urgente, porque não foi ao Serviço de Urgência?”).

3 – consequências para o SNS: uso indevido dos (já poucos) recursos existentes e um abalo na sua imagem (para o doente e para os próprios profissionais, que tomam maior consciência das falhas do sistema)

 

Problemas identificados:

  • Hospitais em burnout (resultado de “dar o litro” desde há muito tempo com um número cada vez mais escasso de profissionais de Saúde). Daqui resulta o “jogo do empurra” ou o “passar da batata quente” ou ainda o “quem vier por último que feche a porta”
  • Centros de Saúde sem capacidade de resposta para pedidos de consulta extra por excesso de utentes por médico de família (um pouco mais grave nos muitos locais onde há doentes que não têm médico de família); também em burnout
  • Doentes com conhecimentos de saúde insuficientes para poder decidir se o que lhes é proposto é realmente o melhor para eles

 

Sugestões/propostas:

  • melhorar o rácio utente/profissionais de saúde no SNS
  • valorizar e dignificar todos os profissionais de saúde e promover a sua articulação
  • apostar na Educação para a Saúde e no empowerment (capacitação) do utente para que se saiba mover entre os vários níveis de cuidados de saúde, sabendo o que esperar de cada um deles e o que é esperado de si em cada momento (para seu bem e para bem da sobrevivência saudável do nosso SNS)

 

Ontem parecia Abril

Ainda ontem parecia Abril e sentia-se o ar pleno de esperança e futuro. Ouviu-se bem alto o som do bico do lápis azul a partir. E o capitão deitava ao lixo o último apara-lápis do país.

Ainda ontem parecia Abril e o cheiro a cravos vermelhos dominava. Cheirava a igualdade, a justiça, à pressa de recuperar o tempo perdido. Ao perfume mais doce aprisionado por 48 anos, que finalmente soltou sua fragrância verde, verde e vermelha.

Ainda ontem parecia Abril, quando a voz do protesto ganhou vida. Quando o povo deu corpo à liberdade. E todos voltaram a sentir-se parte de algo perdido para sempre.

Ainda ontem parecia Abril e as vontades individuais formaram um colectivo. Arregaçaram as mangas para construir democracia. Sacaram das penas para escrever constituição.

Ainda ontem parecia Abril e finalmente o povo podia sonhar em ter amanhã. Educar o país e fazê-lo progredir. Sempre na expectativa de entregar um futuro melhor para as gerações vindouras.

Foi isso que Abril permitiu. E ainda ontem parecia Abril. Mas hoje... Hoje parece anteontem.

 

Montijo, 13 de Setembro de 2015