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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

10 de Março – sexta-feira – manhã

Os primeiros raios solares e a azáfama matinal da cidade acordam o sem-abrigo. Sozinho, encostado com seus cartões e suas mantas a um moderno edifício da ribeirinha capital, que funciona como única parede de sua casa. A fachada é espelhada e o indivíduo aproveita a oportunidade para ajeitar o seu impermeável vermelho, roçado pela acção dos agentes meteorológicos. Fá-lo lentamente, ainda sentado na calçada. Passa os dedos pelo cabelo para pentear suas madeixas, encontrando alguma resistência. Parece sentir necessidade de se relembrar da sua condição humana. Ou então precisa somente de companhia e aquele reflexo na fachada do edifício será o mais parecido que consegue arranjar...

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Ao levantar-se vai sacudindo a roupa que traz no corpo. Uma clara inversão da normalidade. Quem dorme já vestido? E, mesmo assim sendo, quem é que sacode a roupa quando se levanta da cama? Não faz sentido.

 

Após essa tarefa fica estático por segundos, observando o autocarro que passa; o mesmo que me transporta. Denoto a inveja no seu olhar ao pensar que aquelas pessoas se deslocam para os seus trabalhos; que vestem roupa lavada; que já tomaram o pequeno-almoço; que dormiram em camas de verdade, em quartos com 4 paredes. O homem pega numa pedra que arremessa contra o veículo. Esforço inglório. Fata-lhe força. Não chega a percorrer metade do trajecto pretendido e perde-se no meio do relvado contínuo à calçada.

 

Nesses momentos penso na caridadezinha que de quando em vez fornece uma refeição aos indigentes, mas não resolve o problema, apenas o empurra com a barriga para o futuro. E no negócio que gera e na visibilidade que traz aos envolvidos na mesma. Que raio de civilização andamos a construir? Onde, para lá de todos os avanços tecnológicos e de toda a riqueza acumulada, não conseguimos dar respostas cabais aos problemas reais. O ciclo parece perpetuar e aprofundar desigualdades. E não tem fim à vista.

 

Um ardor invade-me as entranhas e acompanhar-me-à durante largas horas. Mas estou certo que esse desconforto se atenuará e desaparecerá. O facto de ter consciência e percepção destes fenómenos, não me faz menos hipócrita que a restante sociedade. Se calhar, ainda me faz mais...