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MARÉ ALTA

porque a liberdade está a passar por aqui

José Gomes Ferreira, demita-se!

Sem Título.jpg

 

 

Há personalidades que orbitam a comunicação social portuguesa que são de tal maneira torpes que poderíamos dedicar uma publicação exclusiva a elas.

José Gomes Ferreira(JGF) está para a economia como Jorge Jesus está para o futebol.

Desta feita vem ameaçar a “geringonça” num estilo de “não se metam comigo senão vou roer-vos os ossos”.

Há uma coisa que ele disse e eu concordo. A ideia era de tributar bens imobiliários acima de 500 mil euros e houve um claro recuo na medida para 1 milhão de euros. Não sei quem os amedrontou, mas a classe média não tremeu com esse numero inicial, mas alguém forçou um recuo para valores bem acima.

Fora isso JGF parece um miúdo pequeno que se defende das mentiras que diz com mais mentiras ainda que saiba que está a ser apanhado na curva.

É preciso dizer a coisa com TODAS as letras. Um sujeito com bens imoveis acima de 500 mil euros, seja num ou vários imoveis, NÃO É classe média.

O sujeito pode até viver como tal, pode até ter um rendimento mensal que se enquadre nessa gaveta, mas em termos de património não o é.

Como ele o ganhou é irrelevante. Parece que o tipo que tem uma herança fica livre de responsabilidades sociais. Parece que o tipo, porque mete o dinheiro todo no banco ou num imóvel, ou seja, no que for fica livre do peso social.

Vejamos, um tipo que gaste dinheiro seja no que for, contribui para a receita fiscal pelo menos pelo IVA e favorece a circulação de bens e serviços dentro de fronteiras.

Quem ganha com a poupança não é o país, mas a banca que através da poupança pode emprestar mais.

Segundo este critério e o de JGF, este património não deve ser tributado porque é poupança ou porque é herança que cai na… poupança.

Portanto, visto assim JGF quer dizer que devemos beneficiar a banca e grandes investidores e penalizar a classe média, a verdadeira, nos bens de consumo quotidianos.

JGF tem uma agenda de direita, do PSD debaixo do braço. É com ela que ele produz os seus comentários.

É obvio que todos na esquerda estão a suster a respiração para que a “geringonça” não enguice, para que os mercados internacionais não nos penalizem, para que não apareça uma crise por trás de uma qualquer moita. Já JGF tenta promover a crise que é um pouco o que Pedro Passos Coelho fez com o PS de José Sócrates.

Bem sei, Pinto Balsemão é líder da SIC e do PSD ainda que não o seja de modo formal.

 

Mas é preciso tanto descaramento?

Quantos portugueses… vou facilitar aqui: quantos agregados familiares têm património imobiliário acima de 500 mil euros?

Usando qualquer referencia de estatística (moda, mediana ou média) algum destes agregados familiares está dentro do que se possa considerar “média”?

José Gomes Ferreira, demita-se!

Habemus Uber!

 

 

Não é a primeira vez que digo que não sou fã de taxistas. Serei o primeiro a concordar que a arvore não faz a floresta, mas a quantidade de arvores que mancham a floresta não é tão pequena quanto isso.

Para exemplo uma noite, eu num grupo de 6 decidimos atravessar Lisboa de táxi. Iriamos beber e assim estávamos salvaguardados de balões indesejados. Apanhámos dois táxis de modo aleatório. Ambos os condutores estavam alcoolizados, um deles decidiu fazer uma corrida com o primeiro e acabou perdido nas rotundas de Monsanto. Para alem disso é-me normal circular em Lisboa e tenho de me cruzar vezes demais com taxistas, vezes o suficiente para me perguntar se eles compraram as ruas de Lisboa no monopólio.

Concordarei que existem bons profissionais, mas volto a sublinhar que os que são maus profissionais, não sabendo se são uma minoria ou maioria, mancham a imagem da classe.

Dito isto somos confrontados com a Uber que não é mais do que uma aplicação para telemóvel.

A Uber tem facilitado o uso da sua aplicação usando a lei a seu favor, mas talvez de um modo pouco ético. Talvez não existisse na verdade outra forma.

Um sujeito inscreve-se nas finanças como agente de animação turístico e após o licenciamento pelo Turismo de Portugal passa a poder circular com passageiros tal como um tuk-tuk. Ainda não vi os taxistas a manifestarem-se contra os tuk-tuks como contra a plataforma Uber. Para poder circular com estes passageiros naturalmente que terá de respeitar uma quantidade de regras, isto do ponto de vista legal.

Ora assim dito percebe-se que usa de uma finalidade legal para atingir outra, mas ainda assim, legal. Pouco ético, mas legal.

Diria aqui que neste particular tenho de dar razão aos taxistas, para serviços semelhantes, regras semelhantes. Mas a Uber, a dita aplicação nunca rejeitou mudanças na legislação, alias até lhe é favorável que assim seja para que não existam conflitos com os seus associados.

Na prática a Uber permite pedir um motorista e antes do pedido permite verificar se o motorista está bem cotado e escolher aquele ou outro ainda que mais distante. O pedido inclui o trajeto e quando o utilizador entra na viatura já sabe quanto vai pagar. A fatura é automática e não é passada pelo NIF da Uber, mas da empresa para a qual o condutor trabalha, ou seja, uma empresa portuguesa. A fatura é automaticamente enviada para o email e se o utilizador usou a internet para pedir um “Uber” também pode consultar a fatura no seu email.

Portanto, com a Uber o utilizador não tem de se sujeitar ao primeiro da fila. Pode escolher. Não importa o tempo que demore, já conhece quanto vai pagar. Em termos de impostos, ao Estado calha o mesmo.

Ao contrário do que diz o PCP a empresa portuguesa é que paga impostos em Portugal. Naturalmente que a Uber portuguesa recebe a comissão pelo serviço mas sendo Uber Portuguesa mais uma vez o imposto é portugues. Naturalmente que alguma parte irá para a Uber Internacional mas não vejo o PCP ou o BE ou seja quem for a reclamar da AutoEuropa ou da Renault Cacia. Para onde vão os lucros destas empresas que ainda por cima fartam-se de receber apoios do Estado para não sair?

 

Os taxistas ao ouvirem falar que a Uber e similares iriam ter legislação protestaram.

E outra coisa não seria de esperar. O que a ANTRAL quer, o seu presidente e a sua vasta frota de táxis quer é que a Uber não opere. Mesmo que o Governo tivesse uma proposta com condições iguais às dos taxistas, exceto modo de faturação porque essa é uma das diferenciações entre um serviço e outro, a ANTRAL não iria aceitar ainda que tenham passado o tempo a dizer que aceitavam a Uber desde que tivesse enquadramento legal.

O que eles queriam dizer é que aceitariam uma legislação que lhes fosse favorável face à Uber ou que fosse de tal ordem prejudicial para a Uber que lhes tirasse a competitividade.

Assim não parece ser o caso. E francamente se eu defendo os transportes públicos não sou de todo favorável aos taxistas em Lisboa.

Bem-vinda Uber, bem-vinda legislação que lhes permite a existência, bem-vinda a paragem em protesto dos taxistas porque taxistas parados, dia santo em Lisboa!

Canha aqui tão perto...

(artigo publicado hoje no Diário da Região)

É fácil perceber o empenho do executivo montijense na solução da implantação do aeroporto complementar ao Aeroporto Humberto Delgado, para as companhias de voos low cost, na Base Aérea n.º 6 (BA 6). Esta é uma oportunidade única de lavar a face relativamente a inúmeras promessas que ficaram por cumprir desde 2002, aquando da deslocalização dos barcos para o Cais do Seixalinho. Assim de memória recordo a ciclovia e passeio ribeirinho, o parque de estacionamento gratuito, os transportes gratuitos e de diminuta pegada ecológica, a creche, o restaurante panorâmico, a circular externa... Quando o Presidente da Câmara do Montijo anuncia que entregou um caderno de encargos à ANA Aeroportos, com as reivindicações do concelho para receber os voos comerciais, chega a parecer enternecedor.

 

Convém relembrar que a ANA Aeroportos é agora detida pela empresa francesa VINCI Airoports, que de repente se viu catapultada para administrar toda a rede de aeroportos nacionais, com a experiência adquirida de gerir pequenos aeroportos regionais. Como empresa privada o seu objectivo final é, como é lógico, a persecução do lucro. Será algo ingénuo por parte de Nuno Canta pensar que a ANA acatará de bom grado investir milhões no concelho do Montijo, sem qualquer contrapartida evidente por parte do município. Porque na realidade o que se pretende é uma plataforma para receber os viajantes dos voos comerciais e imediatamente embarcá-los para a capital. Provavelmente a única obra de monta num possível investimento na BA 6 será relativa ao Cais do Seixalinho. A adaptação desta estrutura para receber mais barcos e mais pessoas e a necessária ligação ao aeroporto civil. Um compromisso mais abrangente que isso por parte da VINCI será praticamente impossível.

 

Pela notícia do dia 21 de Setembro de 2016, do Diário da Região, o Governo Central já percebeu isso. Não se trata apenas de “permitir à ANA fugir à obrigação contratual de fazer esse investimento”, como adianta a Maré Baixa dessa mesma edição. Trata-se, a meu ver, de perceber que semelhante investimento se iria limitar à escala do Seixalinho, criando um possível desequilíbrio territorial. Paralelamente a dependência brutal da comunidade em relação à actividade aeroportuária, no que seria sempre uma solução a prazo, poderiam causar passivos sociais de difícil correcção. Entremeia-se este tema com a falsa questão da Força Aérea para desviar atenções.

 

A alternativa seria, já o sabe o Governo e a Câmara Municipal, o investimento mínimo avançar por parte da ANA e toda as estruturas complementares, nomeadamente nos acessos e mobilidade, a expensas do poder central e local, com ou sem fundos comunitários. Uma factura demasiado elevada para uma solução temporária.

 

Entretanto temos Canha aqui tão perto...

Opiniao_Diario-Reg_2016-09-23.JPG

 

A Narrativa Demagógica

Abaixo transcrevo artigo de opinião publicado hoje no Diário da Região
IMG_20160919_170314.jpg

 

Nos últimos tempos, talvez por já se sentir o perfume de autárquicas no ar, começou a propagar-se uma estranha narrativa pelos lados do Montijo. A mesma sustenta que os residentes que apontam lacunas ou alertam para o que pode estar menos correcto não merecem a terra que os alberga. Tal sente-se nas redes sociais, mas também nas ruas e nas próprias reuniões do poder local.

 

Para sustentar a sua teoria, estas pessoas vão atirando uma ou duas dicas de carácter la palisseano, como por exemplo: "as coisas podiam estar ainda pior" e que "nos concelhos limítrofes é (sempre) pior". Tudo redunda num “o Muntije é Linde!” e não se fala mais nisso… Como se o importante fosse discutir o acessório ou a quem está reservado o direito de gostar mais do Montijo.


Não é preciso um raciocínio muito profundo para perceber que esta onda que se vai formando é uma pura mistificação da realidade. E sustentada por um pensamento anti-democrático. Uma clara incompatibilidade em conviver com a crítica, para além da falência completa do debate de ideias. O que se pretende dar a entender é que quem não alinha totalmente com o poder local, não quer o bem do Montijo. Quem critica, quem opina, quem alerta ou quem emenda, não pode ser uma pessoa de bem. E esta narrativa demagógica encontra terreno fértil, com as festas, festinhas e festanças, a promessa do regresso do Carnaval em ano eleitoral (já antevejo uma tolerância de ponto), os galardões, os instantâneos (que até parecem de ocasião) cada vez que uma obra pública toma forma ou encontra solução.


Ora é óbvio que quem critica ou apresenta discordância com o rumo escolhido para a sua terra se preocupa com a mesma. Se assim não fosse, não identificava a falta nem apontava outro rumo. A discordância da forma como são conduzidos os desígnios do Montijo não significa ódio à terra. Nem tampouco a crítica ao que está incorrecto ou incompleto significa discordância com o poder local. Dizer, por exemplo, que a recolha de lixo é deficiente ou que existem lotes de terreno nos quais convinha cortar o mato, são meras indicações de onde o poder local pode estar a falhar e que convém ter uma atenção redobrada. Os alertas podem não significar oposição à linha política do executivo camarário.


Aceitar com a humildade política necessária a crítica é a única forma de melhorar o desempenho. Não me parece de todo o que se passa actualmente no Montijo, pois cada vez que é apontado um lapso, imediatamente se ergue a muralha do discurso defensivo e se desfere um contra-ataque estéril àquilo que é uma posição normal em democracia. O que esta manobra revela é um certo desespero do poder instalado há tempo demais e das suas castas partidárias ou elites cúmplices, que vivem à sua sombra.


Pensar Montijo é querer o melhor para o território. A comunidade agradece um debate de ideias profícuo.


Montijo, Agosto de 2016

Oh Barreto, grande barrete!

 

 

António Barreto escreveu hoje no seu espaço opinativo do DN “As esquerdas e o dinheiro”.

Mais para a frente alonga o titulo para: as esquerdas e o dinheiro dos outros dizendo que a maioria das pessoas de esquerda não têm dinheiro. Efetivamente eu sou de esquerda e estou nos antípodas do Belmiro de Azevedo. Não creio, no entanto, que se viesse a ter a minha visão do mundo se alterasse.

O que ele quer dizer é que a malta “de bem” nasce habituada a explorar e tornam-se por norma conservadores, e passe a redundância, para conservarem o seu status.

O que ele diz é que as esquerdas são ligeiras com o dinheiro dos outros. O que ele não diz é que as direitas vão buscar o seu património às esquerdas.

Se víssemos a coisa como as marés que ora vai num sentido ora vai no outro, a coisa até seria equilibrada. O problema, e como diz Rui Tavares, é que o pneu esquerdo da politica tem andado sem ar e a viatura ora vai para a direita ora vai para o centro, mas nunca vai para a esquerda.

As direitas estão agora inquietas porque a “geringonça”, muito por força do BE, do PCP e do PEV (que é PCP mas está inscrito como unidade própria e vamos considera-lo como tal) têm dado ar ao pneu esquerdo do PS. Não é fácil convencer a UE que em Portugal existem pessoas de esquerda e não será fácil convencer o BE, PCP e PEV, até por serem partidos anti-UE que não se pode mudar tudo de uma vez e é preciso negociar, conquistar de um lado e ceder do outro.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas o que ele não diz é que os muito ricos pouco pagam de impostos e que quando começam a pagar mais do que desejam, exportam o dinheiro para outras paragens que lidam de modo brando com o dinheiro dos outros.

O Barreto, também ele nos quer enfiar o barrete que o imposto sobre património imobiliário acima de meio milhão de euros é um roubo. Eu percebo que ele tenha imobiliário acima desse valor e não se sinta rico. Olhando para o Bill Gates 99,9% não se achará rico, mas a verdade é que quem tem imoveis acima de 500 mil de euros vive acima da capacidade de 90% dos portugueses.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas governos de esquerda e de direita governam-se com as receitas da classe média. O que ele não quer, e por isso opina, é que este Governo queira fazer o que lhe é exigido pelo povo, redistribuição de riqueza.

O Barreto quer-nos enfiar o barrete, mas a malta está atenta!

Nem mentira, nem verdade

Pelas ruas do Montijo, os munícipes já se habituaram à presença dos gigantescos cartazes (hoje denominados "outdoors") onde a Câmara Municipal nos presenteia com o título de cidade mais atrativa de Portugal continental. Em tom de bricandeira, costumo dizer que as estruturas que suportam estes cartazes, são o mobiliário urbano mais bem tratado da cidade. Adiante. Numa rápida pesquisa ao sítio oficial do município na internet ficamos a perceber a que se refere tal epíteto. Com efeito essa distinção não existe em si mesma. Foi extrapolada do estudo do Instituto Nacional de Estatísticas (INE) - "Cidades Portuguesas: um retrato estatístico", baseado no Censos de 2011 e que veio a lume em 31 de Outubro de 2014, através de informação à comunicação social. Mais concretamente, o executivo camarário refere-se à estatística "Proporção de população que 5 anos antes residia fora do Município, Portugal e cidades das regiões NUTs 2", onde o Montijo apresenta uma percentagem de 18%, sendo efectivamente a cidade que, em termos relativos, mais população fixou no território continental. E sobre este assunto o INE nada mais diz. Podem consultar a nota do Instituto aqui.75. nem mentira nem verdade.jpg

 

Surfando essa onda, a Câmara Municipal decide, e bem, fazer eco desta constatação. Mas rapidamente o que deveria ser uma simples réplica do estudo do INE, que em boa verdade não avança com qualquer explicação para este fenomeno, se torna num enredo de consistência errónea. É que há coisas que não sendo mentira, também não correspondem inteiramente à verdade. Na nota que publica no site oficial do Município (http://www.mun-montijo.pt/frontoffice/pages/833?news_id=601) depois de acertar no 2 primeiros parágrafos, resvala dizendo que "Este estudo é revelador da localização privilegiada que o concelho do Montijo assume na Área Metropolitana de Lisboa (...)". E continua até ao final num auto-elogio provinciano, que em nenhuma parte do estudo do INE encontra respaldo. Já na rubrica Retrato Estatístico que está inserida na área Investir do site da Câmara (http://www.mun-montijo.pt/pages/923), adianta-se que "Entre as razões que contribuíram para os resultados deste estudo, encontra-se a qualidade do espaço público, nomeadamente a existência de muitos espaços verdes (...)". Mais uma vez se começa com as 3 primeiras frases certeiras, para rapidamente surgirem interpretações dúbias que, segundo a Câmara, se baseiam no estudo do INE.

 

 

Na altura, o Diário de Notícias (DN) e o Diário da Região (DR) também abordaram o relatório do INE. O DN falou com 2 ou 3 pessoas e descobriu que a Ponte Vasco da Gama e o factor económico vinham à cabeça das razões pelas quais se fixava população no Montijo. O sossego e qualidade de vida também foi referenciado. Já o DR limita-se a analisar o estudo, nomeadamente no que concerne às cidades da região e dá tempo de antena ao edil do Montijo.

 

Para que fique claro acho perfeitamente normal que a Câmara Municipal faça a apologia do trabalho executado durante os mandatos, actual e transactos, e o divulguem. Mas se formos intelectualmente honestos não podemos dizer que o aumento populacional apresentado no estudo do INE se deve às políticas camarárias, porque pura e simplesmente não existem dados que suportem essa conclusão.

75. nem mentira nem verdade 1.jpg

 

Todos sabemos que uma cidade que atraí população não é necessariamente atractiva. Existem um sem número de factores a levar em linha de conta. E quando uma pessoa decide fixar residência, por muito que se diga o contrário, o factor económico continua a vir à cabeça. Se o Montijo fosse realmente atractivo, os novos residentes não moravam apenas na cidade; viviam-na! E tal não sucede. O grande aumento populacional deu-se para os lados do Afonsoeiro, onde alguns residente muito raramente vão ou nunca foram à baixa do Montijo...

 

 

Para uma cidade ser atractiva não basta plantar betão, negociar umas contrapartidas verdes e lúdicas com os empreiteiros e aguardar o mais que provável aumento da população. É preciso apresentar essas pessoas ao Montijo, à sua identidade. Incluí-las na comunidade local. Não basta ceder-lhes um dormitório e afirmar que temos um óptimo Centro Comercial, como afirma o Presidente de Câmara Nuno Canta na entrevista do DR de 7 de Novembro de 2014, como intuito de ilustrar a "melhoria do comércio".

 

Bem sei que dá bastante trabalho e demora o seu tempo constituir uma identidade. E incentivar e espicaçar o activismo na comunidade local, ainda é mais difícil. Mas desbaratar todo o património cultural de um território demora menos tempo que um fósforo a arder. Torna-se fundamental aproveitar todo este potencial para enriquecer a identidade montijense , fundamentada num fenómeno inclusivo, no qual a comunidade é agente activo em moldar a nova cidade. Será ela, como colectivo, que melhor decidirá qual o rumo futuro. Para dessa forma a cidade se tornar realmente atractiva ao olhos de todos/as.

 

Montijo, 17 de Setembro de 2016

Que contas são estas?

 

 

Há pessoas que não compreendem muito bem em que mundo vivem ou pelo menos apenas têm uma visão muito afunilada do mundo.

Devem ser estes que para não olharem para o “outro mundo” erguem agora muros para manter as coisas bem separadas.

O tema do mercado imobiliário dá pano para mangas e muito provavelmente estou muito longe de conhecer sequer metade do missal, mas como tem sido o tema da ordem, não desarmo.

Para este tema dos imoveis destaco duas pessoas em particular que não conhecem, para este efeito, o país real. Chamo a nós Assunção Cristas e o arauto da direita, José Gomes Ferreira (JGF).

Para quem acompanha o que escrevo deve estar recordado que não há muito tempo escrevi assim “-Imoveis de luxo, sejam de habitação permanente ou não, devem ter IMI agravado;”.

O artigo em que esta frase se insere não tem ainda um mês e ao contrário de Marques Mendes que tem sempre informações privilegiadas, garanto que não estava ao corrente da iniciativa do Governo tributar património imobiliário acima dos 500 mil euros.

Para algumas pessoas com cidadania portuguesa 500 mil euros em património imobiliário não demonstram riqueza de uma pessoa ou agregado familiar.

 

Sem Título.jpg

 

 

 

2013

Em Percentagem

Escalões de Rendimento Bruto (em euros)

Total

 5 055 680

100%

 

0-5.000

 849 358

16,80%

 

5.001-10.000

 1 599 767

31,64%

 

10.001-13.500

 667 356

13,20%

 

13.501-19.000

 659 121

13,03%

 

19.001-27.500

 552 617

10,93%

 

27.501-32.500

 175 336

3,46%

 

32.501-40.000

 181 153

3,58%

 

40.001-50.000

 138 370

2,73%

 

50.001-100.000

 196 993

3,89%

 

100.001-250.000

 33 333

0,65%

 

250.000+

 2 276

0,05%

 

 

Os dados acima reportam ao rendimento bruto por agregado familiar, ou seja, 16,8% dos agregados familiares sobrevivem com menos de 5 mil euros anuais. Podemos adicionar o escalão seguinte de 31,6% que sobrevive com menos de 10 mil euros anuais. Isto é o mesmo que dizer que numa casa onde mora um casal com um filho, uma família típica portuguesa, 10 mil euros terão de chegar para pagar as contas todas do ano. Isto equivale a 277 euros mensais por pessoa.

José Gomes Ferreira aparece muito indignado com quem tem uma habitação de luxo no centro de Lisboa ou no Porto de 600 mil euros como se fosse um ataque à maioria dos portugueses.

É preciso dizer que um agregado familiar que ganhe 20 mil euros anuais e use toda essa verba para pagar a casa, demoraria 30 anos para a pagar e estou a dar desconto nos juros da hipoteca.

A JGF doí-lhe na alma o investimento estrangeiro que não se vai concretizar devido a este novo imposto. Que investimento? Vistos Gold? Especulação imobiliária para a aquisição de Vistos Gold?

O sujeito herdou uns terrenos? Estou certo que se lhes der uso o rendimento desses terrenos será superior ao acréscimo do imposto. Quer deixar lá os terrenos parados? Paga mais IMI porque tem um bem que não gera mais valias. Tem uma habitação herdada e faz dela casa de férias? É bem de luxo e tem obviamente que ser tributado como tal.

 

Isto faz-me lembrar um momento entre Manuela Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares quando este defendia que as Scuts tinham de ser pagas na ótica do utilizador pagador ao que Manuela Moura Guedes remata “Se tivesses de pagar portagem na marginal se calhar já não falavas assim…”.

Assunção Cristas, José Gomes Ferreira e outros tantos comentadores fazem parte daquela classe que defende Portugal, mas que nunca defende os portugueses e é por isso que se insurgem contra medidas destas.

É um facto que para se aliviar de um lado, mantendo as mesmas despesas, é preciso carregar de outro. É igualmente facto que é da competência de o Estado fazer uma correta repartição de rendimentos e promover justiça social. Afinal quem acabou com a classe média, quem defende a descida de salários é quem agora se queixa que tem de pagar mais em impostos indiretos.

A suspensão da individualidade

74. A suspensão da individualidade.jpg

Vulgarmente tentamos encontrar nos outros aquilo que nos identifica. Ou melhor, projectamos a nossa personalidade em outrém, firmes de que as restantes pessoas pensarão como nós. Nada mais errado. Até porque existem cada vez mais pessoas interessadas em abdicar da sua individualidade a troco de uma subida na escala social. O lugar-comum de que as pessoas são todas diferentes parece começar a desvanecer. As modas e tendências sempre foram apanágio disso mesmo. Mas agora falamos na uniformização das características e formas de estar. Uma espécie de formatação do indivíduo.

 

A frontalidade e a coerência (para com os outros e para connosco) são característricas cada vez mais raras. A conivência com o status quo abre portas para oportunidades que de outra forma dificilmente surgirão. A tal escalada social permite um desafogo na vivência quotidiana maior. A contrapartida é abdicar de muitos dos nossos princípios; deixar de defender aquilo em que acreditamos; por de lado o que nos define; deixar de fazermos sentido...


Valerá a pena renunciar à nossa essência em troca de um carro mais potente ou de uma férias nas Caraíbas? É uma questão de perspectiva e de coluna cervical. Até agora nunca estive disposto em penhorar a minha dignidade. E, pelo que me conheço, dificilmente colocarei no prego aquilo que sou.


Montijo, 16 de Setembro de 2016

A triste história da Justiça Portuguesa e o juiz de Mação.

Uma série de gente não gosta de Sócrates. Porque é arrogante, concordo. Muitos chamam-lhe mentiroso. Outras nem sequer o suportam. Todos têm histórias de amigos, de amigos de amigos que sabem que Sócrates fez isto ou aquilo. Até aqui tudo bem. O problema está quando o rumor, o diz que disse, leva à prisão preventiva de alguém por nove meses. O problema está quando um juiz insinua na televisão que não tem dinheiro em nome de amigos, tal como Sócrates tem (e provas?). O problema está quando esse juiz não consegue deduzir acusação a Sócrates e vem para a televisão gabar-se de ser poupado, trabalhador, o “saloio de Mação”. O problema está quando a justiça pode prender sem acusação, com fortes indícios que afinal são apenas rumores, e um juiz pode vir insinuar que afinal não vai prender Sócrates (porque foi isso que o juiz Carlos Alexandre veio fazer) mas que fez tudo bem e que a sua honra está intacta. Portugal precisa de um debate profundo sobre justiça. Portugal precisa de perceber que o rumor não basta e que o tempo da caça às bruxas já passou. E que prender sem provas é inconcebível e imoral. E que hoje foi Sócrates mas amanhã podemos ser nós. E que este juiz, moralista e mesquinho não nos representa. Pelo menos, a mim não.

 

Nero ri-se

 

Do alto da sua imortalidade, Nero ri-se. Com preverso prazer vislumbra as labaredas a varrerem Portugal. Cada nova frente, cada coluna de fumo, é um bálsamo para o incendiário. E a cada gargalhada do pirómano, nova chaga se abre no país, que se pinta de cinza. Algumas gangrenam. Como que apodrecido, o país jaz.

 

Sentimos a impotência, a estupidez e a maldade a cada novo incêndio que deflagra. E a contínua conversa de que é preciso é coiso, e tal, e mais não sei quê. Mas nunca se coisa, nem tal, nem não sei quê... A cada ano se repete a mesma desgraça. São feridas na natureza que dificilmente sararão; património insubstituível; vidas perdidas e famílias desmembradas; projectos em suspenso. E uma aposta ambiental no país permanentemente em causa.

 

Mas temos a legislação, alguns meios e muita experiência. O que falta então? Falta que das palavras passemos à acção. Que os incêndios não sejam tema de conversa apenas no Verão, mas que se comecem a prevenir logo no Inverno. Passa por equipar e dignificar os bombeiros, sejam eles voluntários ou sapadores. Eles que são de uma entrega e dedicação inesgotável. Falta, essencialmente, pensar e executar o ordenamento do território, com especial ênfase no planeamento das nossas florestas. E coragem política para encarar os interesses instituídos.

 

Se nada for feito, Nero continuará a rir. Pensando que onde os romanos falharam pela força do gládio é agora facilmente subjugado pela força do fogo.72. Nero Ri-se.jpg

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